sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Rainha (The Queen) - 2006

Uneasy lies the head that wears a crown - Henry IV
Inquieto jaz o governante que carrega a coroa - Henrique IV


A Rainha, mais um ilustre filme do excepcional diretor Stephen Frears com excelente roteiro de Peter Morgan é puro deleite monárquico cinematográfico. Muito em razão da forma autêntica como Helen Mirren (vencedora do Oscar, BAFTA, Golden Globe e vários outros de melhor atriz principal por este trabalho), o interpreta no papel da rainha da Inglaterra Elizabeth II tomada pelo drama pessoal, como mulher e rainha nos bastidores familiares e políticos após a morte da Princesa de Gales, Lady Diana, exmulher de seu filho Charles e considerada a Princesa do Povo. Neste notável roteiro, Elizabeth II interage com o recém primeiro ministro inglês Tony Blair (Michael Sheen), Príncipe Philip (James Cromwell, em ótima e "irritadiça" performance) e Príncipe Charles (Alex Jennings), entre outros e, na ocasião da morte de Diana, ela se vê cercada pelo apelo da opinião política e do povo de que a família real se manteve fria e distante da tragédia com a ex integrante da família real, vítima de um acidente de carro em Paris em 1997 no qual faleceu com o seu affair, o empresário bilionário egípcio Dodi Al-Fayed. Tony Blair, recém empossado no seu cargo de primeiro ministro britânico, elegido massivamente pelo povo e reconhecido como esperança para a modernização da Inglaterra acaba se envolvendo neste contexto no qual ele tem que ter um "jogo de cintura" estrategicamente bem realizado. Primeiro, porque lhe cabia conquistar a confiança da racional rainha e desenvolver a diplomática relação política que ele tinha a obrigação de conseguir em início de cargo garantindo sua própria sobrevivência; segundo, porque ele significava a modernidade enquanto que a monarquia se sustentava pela tradição e era necessário conciliar as duas pontas governamentais para o bem da nação; terceiro, porque a morte de Diana deixou o povo sensibilizado pela perda a ponto de questionar a soberania da rainha da Inglaterra e acusar a família real de assassinar moralmente a princesa de Gales por não lhe dar as honras e homenagens devidas e, inclusive, expondo temas íntimos e típicos de tablóides como: Diana, a princesa rejeitada e traída pelo princípe Charles. Por conta deste panorama, a família real Inglesa não estava em boa situação e cabia uma certa arbitragem de Tony Blair para evitar uma desastrosa crise na monarquia.








A frase inicial de Henrique IV que abre a película "Inquieto jaz o governante que carrega a coroa" combina perfeitamente bem com este estupendo drama histórico e mais contemporâneo envolvendo a bem caracterizada Rainha Elizabeth II e, nas mãos e olhar preciosos de Stephen Frears entregando uma produção harmoniosa de excelentes fotografia, figurino e trilha sonora (Alexandre Desplat), A Rainha se torna genuinamente verossímil com este momento da História sem cair na pieguice melodramática da morte da Princesa Diana. Elizabeth II carrega o peso da sua coroa e A Rainha retrata o quanto é difícil alinhar a particularidade do indíviduo enquanto humano detentor de escolhas e sentimentos próprios e a coletividade do seu papel na sociedade e de suas obrigações para com ela. Helen Mirren a interpreta no tom exato da grandeza de uma importante governante e de uma competente atriz porque Elizabeth II, ainda que tendo os seus motivos para não ceder de imediato ao protocolo "informal" político e diplomático que a situação exigia, ela tinha alma e coração e precisava manter sua dignidade enquanto Rainha que deixou sua juventude de lado para, agora, ser criticada pelo seu próprio povo, logo a beleza do filme reside exatamente neste verniz individual que é o brilho de Elizabeth II como Rainha e mulher tradicional capaz de suportar a ofensa e a cobrança do povo, as boas manobras políticas de Tony Blair, o mau humor e hostilidade do marido Philip para com o cenário, o medo covarde de seu filho Charles e, finalmente, tomar uma atitude flexível que honraria a alma de Diana e respeitaria a dor do povo inglês. Neste aspecto, o roteiro elucida que Elizabeth II é uma mulher inteligente, de bom senso e, ainda que tradicional, não tão intolerante para ser crucificada pela opinião pública. Enquanto seu medroso e fraco filho Charles está mais preocupado em não levar um tiro público, em alguns momentos da película e de forma bizarra, servindo-se de um discurso de modernidade para contar com a influência de Tony Blair sobre a Rainha, Elizabeth II tem muito mais personalidade e nota-se sua angústia dividida entre sua íntima introspecção e a polêmica exposição da família real que a morte de Diana trazia. Em nenhum momento, Elizabeth II deixou de ser quem ela é, ainda que conduzida a ceder para a boa imagem da monarquia. De fato, ela era uma mulher com coração o que fica evidente em uma das cenas mais sublimes na qual o carro dela fica encalhado em um rio e, naquela paisagem bucólica e solitária, ela começa a chorar e fica fascinada ao ver um lindo veado, presa favorita dos caçadores ingleses. Posteriormente, ela também se sensibiliza com um acontecimento que ocorre com o mesmo animal, o que demonstra que, de forma suprema, Elizabeth II estava sendo catalisada por aquele episódio como se aquele fascinante veado fosse a própria alegoria da Princesa Diana, caçada até a morte (e eu acho que este animal no roteiro tem este intuito, o de despertar um outro lado da Rainha, tão necessário àquele dilema existencial, o de trazer Diana à memória).




O magnífico Stephen Frears recorta muito bem o tema mais coletivo da tragédia, mostrando cenas reais como de Diana em missões humanitárias e entrevistas em documentários, fãs chorando em frente ao Palácio de Buckingham e deixando milhares de flores e declarações de amor à princesa, a simulação do acidente automobilístico na França e a repercussão internacional de sua morte e do funeral com memoráveis imagens de arquivo jornalístico com celebridades e políticos tais como Nelson Mandela, Bill Clinton, Elton John, Luciano Pavarotti, etc e a emotiva declaração do irmão de Diana em seu funeral, um deslumbre em palavras capaz de arrancar lágrimas. No entanto, são nas esferas individual (da Rainha) e familiar (dos outros integrantes da família real) que o filme tem o seu destaque mestre e, maravilhosamente, bem interpretado pelos atores aflorando o drama de uma perda que não deseja sair da intimidade da família britânica mas que se vê forçado a sair dos portões da privacidade da monarquia dada a popularidade da princesa morta, afinal, convém reforçar que Lady Diana era idolatrada pelo povo e por várias pessoas no mundo, era uma mulher extremamente elegante, bonita, humana e carismática e também foi injustiçada pela "instituição",como ela se refere à monarquia britânica em um vídeo no filme ("
Algumas pessoas não me viam como Rainha, quando digo algumas pessoas, a instituição com a qual me casei. Porque eles acreditam que eu sou um insulto. Eles me vêem como um tipo de ameaça."). Apesar disso, na ocasião de sua morte, ela já estava separada do príncipe Charles, tinha dois filhos que moravam na residência real (e bem amparados pela Rainha Elizabeth II que se preocupa em poupá-los da exposição na imprensa) e seu ex-marido Charles, altamente criticado e desmoralizado como amante de Camilla Parker Bowles já não tinha qualquer relação com Diana além dos filhos. Embora Camilla não seja performada por nenhuma atriz sendo mostrada em somente um flash de foto, ela é mencionada em um documentário de Diana na qual a Princesa de Gales responde a pergunta da jornalista "Você acha que a Sra. Bowles foi o fator do fim do seu casamento? - Bem havia três de nós nesse casamento - estava um pouco lotado", logo é natural ver a tensão do filme que deixa o espectador dividido entre a dignidade da Rainha e a dor de lembrar que a jovem e doce Diana foi humilhada, faleceu e não estava tendo o direito de ser honrada pela família a qual pertenceu (confesso que eu senti-me dividida e me sensibilizei com ambas as mulheres, só odiei Príncipe Charles como sempre não o suportei).





Sob o ponto de vista técnico de um roteiro dramático, o drama ganha vida somente com a força interpretativa de Helen Mirren, seguida de Michael Sheen e, apesar da necessária estratégia política para o país não cair no marasmo, há um suspense excepcional até o desfecho que mantém o espectador atento à decisão da Rainha Elizabeth II, porque esta decisão tem uma jornada altamente introspectiva e sem muitas pistas que acaba despertando aquele sentimento na audiência: "e se nós estivéssemos no lugar dela"? E se nós fossemos educados para servir à tradição e ao formalismo de não misturar assuntos da realeza com efervescência pública de fãs e celebridades? E se nós estivéssemos magoados com a Princesa Diana e/ou tivéssemos raiva e inveja por ela ser tão especial para o povo em nosso lugar de Rei/Rainha? E se nós odiássemos a forma como Diana ainda expunha um ideal popular contrário à tradição, ou seja, ainda expunha sua imagem de gentil libertária, popularmente uma celebridade saída dos contos de fada , e que até mesmo morta afetava a paz monárquica?" A Rainha poderia ter tido todas estas questões incendiando sua mente. Ela se mantém formalmente contida e reflexiva, porém percebe-se que ela sofre em silêncio e da forma dela, exemplicados como na cena em que ela lê as acusações contra a realeza escritos nos cartões de fãs deixados entre as flores para Diana e a emocionante cena em que uma criança lhe oferece flores que ela havia pensado não ser para ela. É bem evidente que Elizabeth II tinha os seus motivos pessoais para hesitar tanto em uma decisão comfortável a seu próprio povo. Nunca saberemos o que se passou nas paredes do Palácio de Buckingham, nunca saberemos a podridão da monarquia britânica nem as particularidades sórdidas que envolvam Diana e o fim do seu casamento que afetou ainda mais suas relações com a família real, só sabemos que Helen Mirren teve uma atuação soberana e merecedora de Oscar, uma interpretação digna de Realeza.




Avaliação MaDame Lumière




Título original: The Queen
Origem:
Inglaterra, França, Itália
Gênero:
Drama, Biografia
Duração: 97 min
Diretor(a):
Stephen Frears

Roteirista(s):
Peter Morgan
Elenco: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Syms, Alex Jennings, Helen McCrory, Roger Allam, Tim McMullan, Douglas Reith, Robin Soans, Lola Peploe, Joyce Henderson, Pat Laffan, Amanda Hadingue, John McGlynn

10 comentários:

  1. Grande filme! Retrato bruto e sem rodeios de uma das fases mais tempestuosas da Família Real Britânica. O que se destaca, além do roteiro afiadíssimo e provocador, é a atuação memorável de Helen Mirren. Uma majestade em cena!

    gostei da crítica, MaDame.
    abs!

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  2. Gosto muito desse filme. Conta realmente com uma primorosa atuação de Helen Mirren, mas para mim, Michael Sheen é o melhor nesse departamento no filme. Ele emula Tony Blair e seus cacoetes sem prevaricação e ainda sugere nuanças que vão além do roteiro. Sem dúvida nenhuma um trabalho fantástico que ajudou a promover o talento desse grande ator inglês.
    Penso que esse bom trabalho de Frears (ele marca presença pela segunda vez na semana aqui no Madame Lumière, qual será a terceira? Chéri?) se desdobra em filme investigativo (dos bastidores, do estado de espirito da monarquia inglesa, da monarca e do povo britânico para com a monarquia), de bastidro político, de época e dramático. Um verdadeiro triunfo que mereceu ir ao Oscar.
    Bjs

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  3. Marlene Dietrich,,ops....,
    Madame, rs..

    Este é o primeiro filme monárquico em que a RAINHA atende um celular.

    Digno Oscar para a Helen Mirren (tbm gosto dela naquele filme do Calendário..hehehe)
    E o diretor Stephen Frears , sempre um ótimo realizador.
    Adoro!

    Bjokas!

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  4. Oi Elton,

    Obrigada pela tua visita e pelo elogio! Sempre bom conhecer novos bloggers cinéfilos. A Helen Mirren fez uma ótima atuação porque ela realmente se portou como uma rainha, o peso da coroa era evidente e a necessidade de se curvar à mudança também. Reis também têm que se curvar, isso é um fato e imagino como esta mulher teve que lidar com as fofocas e polêmicas sobre Diana e Charles. Temos que entender a senhorinha tb rsrs. abs!

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  5. Oi Reinaldo,

    Concordo que Michael Sheen foi excepcional. O tato político, a admiração pela Rainha, a caracterização com Tony Blair. Nunca imaginei que ele renderia tanto ( apesar que Frost/Nixon foi um grande filme), mas ainda sempre o relaciono com Anjos da Noite, aquele lado rústico, obscuro. É engraçado vê-lo todo engravatinho!

    Stephen Frears harmonizou muito bem este filme, dando espaço a Helen Mirren e Michael Sheen, sem ofuscá-los com imagens jornalísticas do acontecimento. Foi uma forma distinta e mais contemporânea de filmar a monarquia e eu aprovei. Simmm! Em breve Chériiii, mon cher!
    bjs!

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  6. Oi Rodrigo, rsrs! Hoje estou muito má, acho que Madame Baby Jones rsrs...

    É verdade! Ela é tão sofisticada atendendo aquele telefone. Ela o atende o celular como eu atendo o meu rsrsrs! Acho que sou Rainha e não sabia rsrs!

    Sabe que eu nunca assisti o filme do Garotas do Calendário. Por sinal se o filme fosse "Garotos do Calendário" eu já o teria assistido rsrs.

    Bjokas!

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  7. Madame, Ri muito aqui com sua resposta ao Rodrigo!! hahahahahaha

    Ai Madame, você não vai mais dizer que minha inveja é crsitalina!!! Três filmes numa única semana???? Ligações Perigosas, Brilho Eterno e A Rainha???? Ta querendo me matar neh???

    hehehhehhe

    Eu só falo por falar mesmo... não desejo nada de ruim não!!! Pelo contrário, desejo tudo de bom!!!

    Beijão Madame
    Adoro você!! =]

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  8. Este é um filme que ainda não pude conferir, apesar de ter a noção exata da intensidade interpretativa da Helen Mirren.

    Lembro que alguns comentavam o aspecto 'televisivo' do filme, acho que sua resenha, muito bem embasada por sinal, evidencia que isso não existe. O foco é mais mesmo no roteiro realista e objetivo, creio.

    Beijos, vou vê-lo.
    Depois te digo minhas impressões, rsrs

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  9. Oi Eri,

    Pois é, estou com tempo mas a mamata vai acabar logo logo rsrs... Ficarei super ocupada, provavelmente terei que revisar filmes mais recentes. Vamos ver o que vai acontecer, né!? Dá vontade de revisar loucamente vários filmes mas e o tempo? Não dá para postar de forma irresponsável, não é mesmo? Eu prezo pela qualidade.

    Sei que deseja tudo de bom pra mim, seu danadinho. A invejinha cinéfila é quase transparente, estou vendo o reflexo daqui rsrs. bjs, meu queridão, também adoro-te.

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  10. Oi Cris,

    Vale a pena conferí-lo. Volte aqui depois para comentar sua percepção sobre o roteiro e como o filme foi dirigido.

    Eu não acho o filme televisivo porque as atuações fortes de Helen Mirren e Michael Sheen se moldam bem ao roteiro mais realista e sustentam a fita. Este aspecto televisivo o qual comentam pode estar relacionado ao uso de um histórico jornalístico no filme, pequenas imagens dos arquivos que enfocam o período da morte de Diana, desde flashs de seu casamento com o Príncipe Charles, até seu funeral e a movimentação pública (fãs, personalidades,etc). Isso não sufoca a independência do roteiro. Pelo contrário, Stephen Frears o faz de forma tão harmoniosa e, ao mesmo tempo, necessária ao roteiro que não contamina o filme com este aspecto citado.

    bjs!

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