quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Chéri (Chéri) - 2009




Histórias de cortesãs francesas são sempre sensuais e, por incrível que pareça, glamourizam uma das profissões mais antigas do mundo: a prostituição. Adentrar este excitante universo adornado pelas elegantes estampas da Belle Epoque Parisiense que escondem, embaixo dos finos tecidos, a pele tórrida desejosa dos mais intensos prazeres da Arte da Amar é sempre um ritual cinematográfico de pura contemplação e, com uma mescla da literatura Francesa de Colette, da refinada direção de Stephen Frears (de Ligações Perigosas e a Rainha) , do roteiro de Christopher Hampton ( de Desejo e Reparação e Ligações Perigosas) e temas como o amor e o sexo, os prazeres são inevitáveis mesmo que não façam o espectador atingir o gozo cinéfilo, como foi minha experiência este novo longa metragem. Chéri celebra a adaptação do romance homônimo da escritora e personalidade Francesa do século XX, famosa por sua bissexualidade e uma literatura sobre os dramas do amor e da sexualidade feminina em uma sociedade machista. O argumento é o dramático relacionamento entre uma mulher mais velha, a cortesã Léa de Lonval e o jovem Fred Peloux "Chéri", ambos com uma diferença de idade de 24 anos e, na forma que foi filmado e caracterizado o personagem de Chéri, há uma ligeira sugestão de que ele tenha um toque autobiográfico de Colette pois Chéri tem feições e alguns comportamentos femininos que poderiam atrair tanto homens como mulheres.











Léa de Lonval (Michelle Pfeiffer) é uma bela, madura e experiente cortesã na Paris de 1920. Após uma longa jornada entretendo homens em sua cama, ela está aposentada. Sua falsa amiga, Madame Peloux (Kathy Bates, a melhor performance do filme) é exatamente o contrário de Léa, ou seja uma infeliz mulher amarga e irônica que indiretamente a desafia e a machuca. Certo dia, Madame Peloux decide propor à Léa a iniciação sexual de seu filho Fred Peloux "Chéri" (Rupert Friend, muito mais sexy do que em The Young Victoria) o qual, estando na idade de 19 anos, encontraa-se no melhor momento para iniciar-se na Arte do Sexo e do Amor. O que aparentemente deveria ser uma relação curta, mais sexual do que romântica, acaba se tornando um relacionamento de 6 anos no qual ambos se apaixonam, mas alegria de cortesã dura pouco. Chéri é obrigado a ceder aos interesseiros e vingativos caprichos de sua rancorosa mãe e se casa com Edmée (Felicity Jones), jovem de 19 anos e filha de Maurie-Laure (Iben Hjejle) , amiga de Madame Peloux e inimiga de Léa de Lonval. A partir deste casamento de fachada, Léa sofre seu amor frustrado em silêncio e se refugia na bela Biarritz Francesa, muito bem fotografada na película, garantindo um colírio cinematográfico para os olhos da platéia. Enquanto isso, Chéri se angustia com a distância de Léa até que ambos se reencontram para a final performance dramática.








Léa comete o principal pecado de uma cortesã: amar o seu cliente. Chéri comete o principal pecado de um jovem cliente: amar uma cortesã. Nessa triste impossibilidade nasce o amor verdadeiro que nem a diferença de idade pôde impedir. Chéri encontra em Léa não somente uma mulher para dar-lhe um prazer sexual e amoroso mas uma amiga mãe, mesmo que isso não seja verbalizado massivamente a não ser em uma cena em que ele se declara um orfão. Ele tem uma relação difícil com sua mãe, totalmente carente de maternidade e não suporta Madame Peloux que o trata como uma propriedade e não como filho, logo há um evidente ingrediente psicanalítico edipiano neste filme que o torna interessante, ressaltando que maduras cortesãs que iniciam jovens garotos nesta época são como mães que podem ser amadas carnalmente, elas não deixam de dar uma espécie de amor que, neste drama social, deveria ser substituído pelo diálogo mãe e filho de Madame Peloux e Chéri que infelizmente não acontece em um momento fundamental de um jovem homem: o ritual de passagem de Chéri para a vida adulta. Com esta lacuna psíquica nele, em um dado momento da película, fica claro que há um complexo de Édipo nessa relação, logo o amor de Chéri para com Lea não pode ser consumido em sua completude, é um amor que tem que encontrar a sua morte e corre-se o risco de que o psíquico de um deles não suporte tal separação. Sem dúvidas, analisando mais profundamente o filme, esta é uma das melhores perspectivas desse drama romântico.






Chéri não tem a mesma qualidade de roteiro que Christopher Hampton empenhou-se em dar à Ligações Perigosas nem em termos de texto, nem de tensa e sensual ação. Para quem pensava em contemplar cenas sensuais neste propício ambiente francês da Belle Epoque de famosas cortesãs e jovens garotos endireirados, este não é ainda o filme completo, infelizmente. Há ótimos momentos de alcova enveredados a mostrar o romance dos amantes com closes em carnes nuas e beijos apaixonados assim como românticos e sarcásticos momentos que ilustram bem como funcionava a sociedade Francesa e suas frágeis relações afetivas. Os excelentes fotografia e figurino tornam a película um charme clássico e europeu com o toque preciso e fiel de Stephen Frears. Apesar de todos esses predicativos, a base do enredo de Chéri é uma dramática história de amor que enfoca três questões principais sobre a impossibilidade do Amor de Léa e Chéri: Ela é uma mulher madura que ama um homem bem mais jovem e imaturo. Ela é uma mulher cortesã que carrega o estigma de servir somente ao prazer sexual. Ela é uma mulher amante e na periferia de sua condição ela ama um homem casado. Nesses aspectos, Chéri é mais a história de Léa que de Fred Peloux. Embora o nome da obra seja Chéri, ela somente o é porque é o objeto de amor e desejo da principal figura dramática do romance, é o ser amado de Léa que preenche o espaço de sua tristeza e de sua alegria. Léa é aquela que ama e sofre de amor , aquela que sempre serviu ao prazer alheio e não tem direito ao amor, aquela que envelhece e à medida que envelhece vive o drama de ver a sua própria cama de cortesã vazia e as rugas no espelho. Sob este aspecto, Chéri é uma tragédia e por ser uma tragédia, nas cenas mais finais, é tão bela em sua dramaticidade. Michelle Pfeiffer que continua delicadamente bonita mesmo que sua pele não tenha mais o viço da Madame de Tourvel de Ligações Perigosas, ainda entrega uma performance madura e equilibrada que dignifica as mulheres mais experientes que têm a virtude de inspirarem admiração. Por outro lado, Léa é filmada de uma forma honesta que não esconde o drama da passagem do tempo. Stephen Frears acerta a mão em não fazer questão de ocultar a idade dela e entrega ao espectador um jogo de imagens que evidencia o natural envelhecimento de Michelle Pfeiffer, uma escolha certeira para este papel com o brilho de uma das atrizes que mais envelheceram bem em Hollywood.


Avaliação MaDame Lumière



Título original: Chéri
Origem: Alemanha, Inglaterra
Gênero:
Drama, Romance

Duração:
100
min
Diretor(a):
Stephen Frears
Roteirista(s): Christopher Hampton
Elenco: Michelle Pfeiffer, Kathy Bates, Rupert Friend, Felicity Jones, Frances Tomelty, Anita Pallenberg, Harriet Walter, Iben Hjejle, Bette Bourne, Gaye Brown, Tom Burke, Natasha Cashman, András Hámori, Toby Kebbell, Nichola McAuliffe

6 comentários:

  1. Unf, unf, mais um que eu não vi. Mas já ansiava por essa critica, desde que vc postou a critica de Ligações Perigos e me confidenciou que Chéri viria a seguir.
    Como era de se imaginar, gostei de sua critica. E concordo plenamente. Frears sabe valorizar a beleza de Pfeiffer.Bjs

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  2. Ah, eu sou suspeito em se tratando de Michelle Pfeiffer :~)
    pode ser a bomba que for, sempre acompanho o trabalho dessa atriz, infelizmente um pouco esquecida. Ainda mais em um filme dirigido por Stephen Frears, essa parceria já rendeu bons frutos no passado =)

    Ótimo texto, Madame!

    abs.

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  3. Olá Reinaldo , tudo bem?

    Obrigada pelo comentário. Este filme é charmoso e tem um narrador mais no início e no fim do filme que fala-nos sobre esta história de amor. Eu gostei do filme, sempre adoro estas coisitas de época que Frears apronta. bjs!

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  4. Oi Elton,

    Obrigada pelo seu comentário!

    Também a acho divina, de uma beleza delicada e nada botoxiana(rs), além disso é uma atriz que merecia um pouco mais de atenção sim. Ela marcou tanto minha vida cinéfila com os saudosos Feitiço de Áquila, as Bruxas de Eastwick, Íntimo e pessoal e Batman (nunca me esqueço da sua mulher-gato) que realmente Pfeiffer merece todo o respeito por seu carisma.

    Abs!

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  5. Unf, unf, unf, unf e mais um unf, Reinaldo!!! Isso não vale!!! Pq não chega na minha cidade????????????

    Pelo menos da para se contentar com a sua crítica Madame!!

    Beijos

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  6. Eri,

    Este filme teve baixa distribuição em São Paulo também, poucos cinemas o exibiram. Hoje comprei o jornal Estado de São Paulo e no guia diz que há uma média de 15 filmes concorrentes ao Oscar nas salas de cinema daqui, logo, não fico surpresa de não chegar em todas as regiões. Não acho que esse filme foi bem marketeado.

    Aguarde chegar em DVD. Stephen Frears nunca é demais, sempre um charme!

    bjs!

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