quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind) - 2004



Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, dirigido pelo francês Michel Gondry e ganhador do Oscar de melhor roteiro original (de Charlie Kaufman) é um destes filmes difíceis de assistir por conta do próprio inusitado roteiro não linear baseado em memórias que relatam uma história de amor e o fim desta relação entre Joel Barish (Jim Carrey) e Clementine Kruczynski (Kate Winslet). Pouco a pouco, as memórias são apagadas da mente de Joel, local "psíquico" da narrativa, após uma decisão intempestiva que ele tomou ao saber que Clementine, cansada do relacionamento de ambos, solicitou à uma clínica de apagamento de memória, sob o comando do Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) que apagasse a dela. Magoado com a decisão da namorada, ele dá "o troco na mesma moeda" e decide apagar a memória dele, dando fim à qualquer lembrança da amada. Durante o processo de apagamento da memória, na qual ele se encontra em sua casa, ligado a uma série de fios sob a coordenação de Stan (Mark Rufallo) apoiado pelo assistente Patrick (Elijah Wood) e a recepcionista Mary (Kirsten Dunst), todos os três funcionários da clínica, Joel presencia mentalmente o fim das lembranças com Clementine à medida que o processo surte efeito mostrando o apagamento de belos e cômicos momentos entre os amantes. Esta narrativa psíquica dentro da mente de Joel, sob o ponto de vista técnico do roteiro, é fabulosa porque com sua louca decisão, Joel percebe que ama Clementine, e que não deseja apagar as memórias de sua amada, logo em um série de situações mirabolantes e engraçadas, com o toque pessoal do estilo humorístico de Jim Carrey, Joel faz de tudo para brigar contra o próprio processo de apagamento da memória, fugindo em sua própria mente e tentando encontrar um lugar para esconder ele e a amada.





Muito do sucesso do filme enquanto uma comédia romântica dramática com notável criatividade advém do inovativo roteiro de Charlie Kaufman, da experiência visual em vídeo clips do ousado diretor Michel Gondry (ele dirigiu trabalhos cool de grupos como The Chemical Brothers e The White Stripes) e do tema sobre a importância da memória ainda que os relacionamentos findem e/ou decepcionem os corações. Kaufman é um roteirista insanamente peculiar, basta ver os loucos roteiros de Quem quer ser John Malkovich e Adaptação, por isso Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças desafia o espectador a se envolver no estilo extraordinário que é bem marcado por um registro delirante. Joel parte em uma viagem às suas próprias memórias românticas, no entanto, no intuito de fugir do processo de apagamento e manter Clementine nelas, Joel se refugia com a amada até mesmo em momentos da infância nas quais ele se esconde embaixo de uma mesa da cozinha como se fosse um garoto chorão e patético, mergulha com Clementine em uma pia cheia de água com sabão e é obrigado a mostrar sua viril coragem em meio às lágrimas e matar um bicho sob os olhos dos "amiguinhos" pequenos e inconvenientes. Por outro lado, nesta loucura roteirizada, há momentos de pura poesia comuns a um casal apaixonado que compartilha o cotidiano da relação. São exatamente estes momentos especiais que sensibilizam Joel a descobrir que a história dele com Clementine é verdadeiramente uma história de amor que não deve ser esquecida, e muito menos, apagada friamente e irresponsavelmente.





Kate Winslet em um papel totalmente diferente dos seus usuais personagens está excelente como a garota que pinta os cabelos de cores exóticas e tem uma forma diferente de amar. Somente uma personagem tão excêntrica quanto Jim Carrey poderia estar com ele neste filme, por isso Kate Winslet com seu talento e versatilidade na atuação foi capaz de se transformar em uma outra
persona para este trabalho. Jim Carrey, como já esperado, é o homem certo para este roteiro, tão inusitado quanto este longa metragem, fortalecendo uma obra que parece ter sido feita para surtados sensíveis como ele que, consequentemente, o compreendem e o amam com um dos atores caricatos mais comicamente e plasticamente estranhos de Hollywood. Com relação à direção deste filme, Michel Gondry foi extremamente competente com seu estilo único de ser criativo, ao criar este ambiente inusitado com imagens que beiram a dinâmica psíquica e os seus quadros aleatórios, porém harmônicos em um fluxo inconsciente de profundas memórias, amarrando a isso uma ótima fotografia e um excepcional ritmo que não faz o filme se perder em sua própria proposta. Por causa desta característica no roteiro e direção, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um filme que exige que o espectador o acompanhe com atenção na tentativa de ordenar mentalmente o próprio enredo e compreender os sentimentos intrísecos às memórias dos amantes, no entanto também exige que o espectador tenha uma mente "out of the box(fora da caixa)" que possibilite mergulhar na mente de Joel e entender a poesia de suas recordações.




Minha experiência com o filme está muito baseada em tentar adequar-me ao roteiro de
Charlie Kaufman e deixar a idéia romântica desta produção tocar meu próprio coração ainda que o filme me pareça muito louco e não tão cômodo de assistir. Confesso que, embora goste deste roteiro principamente na brilhante parte na qual Mary descobre um fato que dará uma reviravolta na vida dela e de todos os pacientes da clínica, este roteiro não é uma zona de conforto para mim. Apesar de eu ter um gosto bem aberto à excentricidade porque eu mesma tenho minha faceta um tanto esquisita (e faço côro ao que minha querida Clarice Lispector disse: "E se me achar esquisita respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar"), penso que Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um filme essencial, atual e atemporal para a reflexão a respeito das relações, principalmente aquelas amorosas que terminam de uma forma triste e geram o desejo intenso de apagar a pessoa amada da mente. Eu já me senti assim e tenho certeza que todos que gostaram de alguém de verdade já se sentiram impulsionados a apagar qualquer rastro de um ex-amor. No momento de dor e de perda, a vontade de extinguir o ser amado da mente para sempre é natural porque, a depender da forma como o relacionamento é terminado, a tendência das pessoas é passar por várias fases de fim de relação que variam da negação e da autopiedade até a indignação, a depressão, o ódio, a vingança e etc. Joel ficou muito deprimido por causa da forma que ele foi descartado por Clementine após anos de relacionamento, por isso optou por ser reativo e aplicar a lei Nabucodonosor no campo amoroso,"olho por olho dentre por dente" e, eu complemento aqui para rimar: você sairá da minha mente (risos). No entanto, depois que o tempo passa, percebi que ter memórias é muito bom, o que não se pode fazer é viver de passado.





As memórias são parte de nosso ser, elas nos ajudam até mesmo a aprender a lidar com as situações futuras de uma forma mais produtiva, evitando cometer os erros cometidos em outras relações, são através delas que existimos e somos lembrados por outras pessoas, além disso ter um grande amor na memória é melhor do que não tê-lo.
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças relata uma linda história de amor como ela deve ser, sem idealizações, sem clichês e isso torna o filme fantástico e, por incrível que pareça muito lúcido em meio à sua loucura. Adicionalmente ele relata também que todos os relacionamentos se desgastam com o tempo, que todos nós falamos mal de um amor quando ele nos irrita ou quando nos fatiga e que isso não é pecado e não é exclusivo, faz parte de nossa natureza humana. Amamos assim, sentimos assim, vivemos assim. Nossa vida é feita de lembranças, sejam boas, sejam ruins e a memória constróe nossa existência, por isso estas lembranças brilham ainda que, um momento ou outro, ofuscadas por uma escuridão afinal elas precisam iluminar nossos pensamentos com tudo o que passamos nesta vida, com tudo o que representamos para outras pessoas e para nós mesmos. De forma sublime, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças mostra que, mesmo feridos, não podemos apagar aqueles que amamos, não importa se ainda haja amor ou simplesmente um desgosto, porque se apagarmos quem amamos, apagamos a nós mesmos.


Avaliação da MaDame Lumière





"Feliz é a inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"

Citação do poema de
Alexander Pope "Eloisa to Abelard"
poesia no filme, filme poesia






Everybody's gotta learn sometimes(do Beck)
Linda música da trilha sonora, lindo vídeo

Título original: Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Origem: EUA
Gênero: Drama, Comédia Dramática, Romance
Duração: 108 min
Diretor(a): Michel Gondry
Roteirista(s): Charlie Kaufman, Michel Gondry, Pierre Bismuth
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Gerry Robert Byrne, Elijah Wood, Thomas Jay Ryan, Mark Ruffalo, Jane Adams, David Cross, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson, Ryan Whitney, Debbon Ayer, Amir Ali Said, Brian Price , Paulie Litt

10 comentários:

  1. Madame,

    filme loucamente louco..pleonasmo mesmo! rs

    Só alguém peculiar, como disse, Charlie Kaufman faz isso como ninguém. Diria que já é a sua trademark. Adorei sua resenha que explica e situa muito bem.

    Adoro as cores dos cabelos da Kate, e Jim Carrey com a dramaturgia na veia. Nunca o subestimei, ele é muito além do bobo e pastelão.
    Comparado a Robin Williams.
    Nesta altura do campeonato ele já poderia ter ganho um Oscar. Quem ele terá que matar pra conseguir? rs! Um papel psicótico pode lhe conceber isso..será?

    Já assistiu Sinedòque Nova York?
    Bjs!

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  2. Oi...
    ...achei seu espaço por acaso, estava garimpando blogs e cai aqui...que legal mesmo! este é um otimo filme com kate winslet que nao é so titanic, ne mesmo?
    bonito o visual de seu espaço, vc que fez e mexeu em tudo aqui?
    vou te adicionar a minha lista de favoritos, tah? ai nao perco de vista.
    vi outro blog...apimentario...é seu tambem? escreve nos dois? até mais!

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  3. Deixe-me começar com uma distinção a sua elegância. A frase que empresta de Clarice Lispector ("E se me achar esquisita respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar") dita o tom de sua critica e tb da percepção que seu leitor terá dela. Muito bem avalizada por vc. Isso posto, sou obrigado a reconhecer que acho esse, um dos melhores romances do cinema. Um filme com cara de século XXI que se enamora da ficção e de uma narrativa multifacetada para falar da importância do amor, e antes disso, da memória que temos dele. Um filme que aborda questões tão complexas como identidade, ética, moral, vazio e solidão com sofisticação e engenhosidade. É para mim o melhor trabalho de Koufman como roteirista.
    Bjs

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  4. Adorei tua crítica. E sou incondicionalmente apaixonado por este filme. Sério. Eu de certo me casaria com ele se fosse possível. É meu romance preferido e Cinema simplesmente extraordinário. Adoro tudo, desde os mínimos detalhes. Já vi e revi incontáveis vezes, alias. Acho que o legal do filme é sua sinceridade cruel. O amor não é fácil e, muitas vezes, sacrificamos-o por causa de coisas banais. E amor vem com os defeitos e mágoas... precisamos aceitá-lo assim mesmo.

    5 estrelas.

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  5. Oi Rodrigo,
    Clap clap clap, meu querido. A menção ao pleonasmo faz todo o sentido e eu me sinto assim quando assisto este filme. Gosto muito do estilo de Kaufman mesmo o achando bem louco. Aprecio quando tanto roteiristas quanto diretores conseguem ter sua própria "trademark" e mantém um diferencial nos trabalhos como se fossem categorias de produtos de uma mesma marca, sem fugir da sua forma de fazer o "business".

    Eu gosto de Jim Carrey. Não morro de amores, mas o acho bem único em sua habilidade cômica e o aplaudo porque não é fácil ser cômico, principalmente da forma que ele o é,de forma tão marcada por uma expressividade que lhe parece marca registrada tb.

    Ele tinha que fazer um papel bem psicótico, um insano bipolar, neurótico, enfim,somente papéis de pessoas que são dóceis mas com acessos de instabilidade emocional rsrs... não o vejo como um matador psicopata, mas talvez ele terá que sê-lo para abocanhar um Oscar.

    Ainda não assisti Sinedoque NY. Agora que o citou, me interessei! Rodrigo e seu toque cinéfilo ... bjs!

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  6. Olá Maurício,
    Obrigada pela visita e espero que volte mais. É sempre bom ver a variedade no trabalho de Kate Winslet. A princípio, ela parecia adequada a filmes delicadamente românticos ou de abordagem feminina e muito inglesa, mas depois ela se "americanizou" e se "europerizou em outras personagens" e isso é bem vindo. Ela é sem dúvidas uma das melhores atrizes nesta faixa de idade entre 30-39. Gosto muito dela!

    O visual do meu blog sou eu que mantenho. Eu que o concebi visualmente para ser algo mais feminino e mais "MADAMístico", alterei uma parte do HTML do layout mas o background com esta "renda mais vintage" é de um site designer americano. Eu acho a plataforma blogspot limitada, mas me esforcei em deixar um visual convidativo, com pequenos toques pessoais.

    Eu não escrevo no Apimentário. Quem o faz é o meu novo amigo Cristiano Contreiras que é o apimenteiro mor. Somente visitamos o blog um do outro, nos identificamos enquanto formadores de opinião e adoramo-nos na forma como falammos de cinema.

    abs!

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  7. Oi Reinaldo,

    Você, sempre simpático e em sintonia comigo. Obrigada pelo comentário. Emprestei esta frase da CL, em um impulso metalinguístico, para incrementar não somente o tom da crítica, mas para reforçar algo de mim através do filme e da literatura de Clarice Lispector. Eu realmente me sinto assim em boa parte de minha compreensível incompreensão.

    Eu adoro esta narrativa de ficção de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças porque ela será sempre atual e ela é tão poeticamente vívida dentro de nós que ela é universal. Em sua universalidade reside sua beleza. É exatamente isso que se passa na nossa mente andante por entre memórias e emoções, entre o amor e sua própria existência dentro de nós. O desfecho é brilhante e só ressalta a veracidade da obra. Sim, também concordo que é o melhor roteiro de Kaufman, pelo menos, é o meu preferido.

    bjs!

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  8. Oi Wally,
    Obrigada pelo comentário, sempre é gostoso de se ler e principalmente de saber que também se identifica com o filme. Gostei da frase "eu me casaria com ele se fosse possível". Um filme com este primor humano, belamente afetivo só pode ser o par ideal de um cinéfilo sensível e de bom gosto. Confesso que o que mais me fascina nesta obra é exatamente esta sinceridade ao qual você se refere; esta excelência em evocar a verdade dos relacionamentos e como é difícil aceitar até mesmo o esfriamento de uma relação, como é difícil aceitar o abandono, a dor, a perda, e até mesmo aceitar o perdão do outro e de nós mesmos nestes assuntos do coração.
    A completude do filme é tão grande que, a cada sessão, é possível refletir ainda mais sobre o amor, seus amores e dissabores. abs!

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  9. Ah, um belo filme!

    Mas, eu confesso que só gostei dele na minha segunda investida. Quando assisti no cinema, fiquei meio "impaciente" em alguns momentos. Será este mesmo desconforto que você sente ao assistir? Não sei, achei muito insano a dinâmica...mas, quando revi em dvd, fui assistir com um olhar mais calmo, relaxado. Tudo fluiu e já vi mais 2 vezes de lá pra cá.

    Kate Winslet que me impressiona no filme, muito mesmo, um vulcão atuando sempre!

    Além de linda e cativante.

    Beijos

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  10. Oi Cris,
    Acredito que o desconforto ao qual se refere é o mesmo desconforto que eu sinto. Na primeira vez que assisti, embora tenha entendido as minúncias sensíveis do filme, eu não relaxei na sessão. Somente a partir da segunda investida que eu fui me sentindo à vontade com o roteiro. Não fiquei surpresa porque, com relação aos roteiros de Kaufman, embora os ache brilhantes, tenho dificuldades iniciais de digerí-los.

    Kate Winslet é muito talentosa e, com este filme no qual seu papel era meio "maluquinho", ela se superou mais uma vez!

    Belo filme! Para sempre!

    bjs!

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