sábado, 20 de fevereiro de 2010

Educação (An Education) - 2009

Indicado Oscar 2010 - melhor filme
melhor atriz principal "Carey Mulligan"
melhor roteiro adaptado
Resenha integrante da Maratona Oscar 2010
por MaDame Lumière.
Glamourize-se antes da premiação
com MaDame.

O filme da dinamarquesa Lone Scherfig baseado nos escritos da jornalista Lynn Barber e adaptado por Nick Hornby é um rito de passagem com direito a um processo pedagógico que está além das fronteiras de um currículo tradicional escolar. Educação, um dos 10 filmes indicados ao Oscar 2010 de melhor longa-metragem é uma aula para a audiência, retomando a matéria eletiva que é aprendida fora dos muros de uma escola: a educação da vida. Nesse roteiro, em plena Londres dos anos 60, a inteligente jovem de 16 anos Jenny (Carey Mulligan, atriz britânica indicada ao Oscar de melhor atriz por tal trabalho) se dedica aos estudos religiosamente em uma tradicional escola com o propósito prioritário de ser aprovada no curso de Inglês da Universidade de Oxford. De família modesta, o pai Jack (Alfred Molina, em excelente atuação ) acompanha com afinco a preparação da filha e, sendo um homem machista, não está predisposto a dar nenhum fôlego para Jenny, ou seja, ela tem que ser bem sucedida nos estudos. Por outro lado, Jenny é emancipada como uma lolita aprisionada no tradicionalismo da época. Ela adora música francesa de Juliette Greco, fala francês com fluência, aprecia fumar um cigarrinho às escondidas, planeja visitar Paris e já sabe até a idade que deseja perder a virgindade. Jenny é moderna demais para a época, no entanto, é uma garota comprometida com a família e os estudos e preserva-se obediente perante a sua conservadora vida.








Um belo dia ela encontra um homem muito mais velho que ela, na faixa dos mais de 30 anos, o judeu americano David (Peter Sarsgaard, ótimo), charmoso, carismático, influente e muito experiente a ponto de seduzí-la na medida certa, com toda a gentileza e fascinação que os homens mais maduros exercem. David circula com um casal de amigos muito sedutores: Danny (Dominic Cooper) e Helen (Rosamund Pike) que conhecem o glamouroso prazer da vida noturna e das viagens. Com isso, Jenny é seduzida por essa "alternativa educação do mundo", à propósito, muito mais interessante do que sua vida sem graça. Ele a leva a concerto de música clássica, leilão, restaurante, viagens, enfim, David é o cara (quase) perfeito que, pelo menos, uma vez na vida (ou sempre) toda mulher, jovem ou madura, desejou. Sedutor, impetuosamente um libertário. Além disso, a presença de David ajuda o espectador a entender o relativisimo de algumas condutas machistas advindas de pais como Jack, ou seja, partindo das mentiras boas de lábia de David, Jack começa a soltar a filha pouco a pouco de suas rédeas, afinal David apresenta ser um homem mais velho, bem sucedido e que ganha a confiança de Jack, por que não permití-lo ser tão próximo à filha e levá-la para viajar mesmo que ela perca algumas horas de estudos de latim ? Mais um exemplo de que o que menos importa é o que Jenny acha, Jack, como todo pai , também tem que achar algo. Nesse aspecto, embora filmes com enfoques distintos, Educação revisita a educadora faceta feminista em uma sociedade machista como O Sorriso de Monalisa. Jenny também é a aluna inteligente de notas excepcionais e futuro brilhante, a diferença entre estes filmes é que ela não sonha em ser dona de casa e nem casar com um homem rico, ainda que essa opção venha a surgir-lhe.






"Sob o céu de Paris...
A felicidade se constrói
sob um céu feito para eles"
(Soul le ciel de Paris)


A partir desse contexto, Jenny se apaixona pelo playboy David, ele a inicia sexualmente e ela amadurece o suficiente para questionar mais ainda se o que ela deseja é seguir o caminho de Oxford ou levar um estilo de vida que não priorize escolhas tradicionais e previamente planejadas. Essa educação mais complexa e os seus desdobramentos no ritual de passagem de Jenny é o mote do longa metragem e, por ser uma educação tão essencial a qualquer jovem, ou seja, "vivenciar a vida fora da escola e sofrer os sabores e dissabores dessa experiência" é que Educação consegue ser um filme com um atemporal e contemporâneo apelo, em especial, porque não se prende a carregar levianamente o envolvimento de Jenny e David com taras sexuais entre um homem mais velho e uma jovem garota (com exceção de duas cenas ridículas nos quais David a chama de um personagem infantil e ainda coloca uma banana no meio de um diálogo. Confesso que odiei essas cenas de mau gosto, a primeira mais parecia uma insinuação pedófila que, provavelmente, causará controvérsias nos mais tradicionais). Ainda assim, Educação consegue equilibrar iniciação, paixão, ilusão, desilusão e amadurecimento até mesmo nos assuntos do coração e, no transcorrer do filme, vemos que existem vários Davids por aí (que algumas mulheres já tiveram o prazer e o desprazer de conhecê-los, por isso o filme também não deixa de ser um alerta às ingênuas garotas). Jenny tem alguns embates clássicos com o seu pai, a professora Stubbs (Olivia Williams) e a diretora da escola (Emma Thompson, em curta mas ótima performance) e, de alguma forma, este choque não é nada diferente daqueles momentos questionadores que todo jovem tem(e até mesmo adulto) que deseja uma vida mais independente. Jenny quer viver a vida dela da forma mais sincera possível. É um direito dela. Logo por mais que terceiros opinem contra ou a favor, o processo de amadurecimento em Educação a partir do envolvimento com David será fundamental para que ela reveja o paralelismo entre a educação escolar e familiar e a educação vivida fora da escola e da porta de casa, e assim, tome as decisões que melhor lhe pareçam.








Educação é um filme muito bem concebido para ser um reflexo da educação que recebemos em diversos momentos da nossa vida fora do currículo escolar. Todos os dias, à medida que amadurecemos, percebemos que determinado contexto já não se encaixa mais nos nossos anseios e muito menos em nossos revisitados perfis. De alguma forma, Jenny representa esse embate. Valorizar as escolhas mais tradicionais e cômodas, e ao mesmo tempo, ousar ter uma vida intensamente vivida, ser como uma borboleta ou uma águia e fugir das convenções que aprisionam. Esse processo nunca foi fácil, mas Educação torna-o tão belo que é impossível não apreciar a película. Nesse aspecto, Caren Mulligan está excepcionalmente luminosa na sua interpretação e, apesar da sua falta de experiência no Cinema, está bem melhor que Sandra Bullock, a favorita atriz ao Oscar por Um Sonho Possível. Mulligan ficou melhor ainda com o figurino belíssimo de uma Audrey Hepburn moderna e embalada por uma trilha sonora de canções maravilhosas (quando Juliette Greco canta Sous le ciel de Paris, o momento é tão precioso lembrando até mesmo minha querida Piaf e, a charmosa You've got me wrapped around your little finger com Beth Rowley, tão apaixonante que até eu me jogaria nos braços do bonitão David). Pois é, Mulligan consegue evoluir visualmente e interpretativamente na personagem e dar-lhe vida própria no processo educativo com um misto de dócil fragilidade com inteligência e madurez. É tipicamente aquela jovem garota responsável que sempre foi brilhante nos estudos, mas tem um senso de liberdade, de escapismo que é ressonante na vida de muitas pessoas, principalmente na vida das mulheres, por isso o filme tem uma abordagem feminista. Eu mesma sou uma delas, por isso, o filme me foi eficaz porque é tentando viver a vida apaixonadamente que se vive mesmo com o risco de quebrar a cara. Confesso que, desde o trailer até a exibição da película, eu me vi em Jenny não por ter passado pela situação dela, mas porque tive outros ritos de passagem inesquecíveis nos quais havia um embate clássico entre a tradição e a inovação, entre ser presa ao chão e ter asas para voar em um céu infinito de novas possibilidades. Com a maturidade, percebi que esse processo é enriquecedor e nunca será fácil porque exige coragem e é doloroso. Há sempre que encontrar um equilíbrio sensato em nossas escolhas. É bom ser libertário(a) mas também é bom sentir-se abraçado(a) pelo cálido calor de uma zona de conforto. Educar-se nesse processo é preciso... para encontrar a nós mesmos, nossos sonhos e conquistas.


Avaliação MaDame Lumière




"You got me wrapped around your little finger
if this is Love, it's everything I hoped it would be
You got me wrapped arond your little finger
You will see, by my words just how much you mean to be"
(You got me wrapped around your little finger, Beth Rowley)

Ouça algumas músicas da
linda trilha sonora
de Educação



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Título original:
An Education
Origem: Inglaterra
Gênero:
Drama
Duração:
95
min
Diretor(a):
Lone Scherfig
Roteirista(s): Lynn Barber, Nick Hornby
Elenco: Carey Mulligan, Olivia Williams, Alfred Molina, Cara Seymour, William Melling, Connor Catchpole, Matthew Beard, Peter Sarsgaard, Amanda Fairbank-Hynes, Ellie Kendrick, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Nick Sampson, Kate Duchêne, Bel Parker

9 comentários:

  1. Ótima crítica Madame.

    Estou perdendo a cabeça para assistir esse, vou de pé enfaixado e tudo!! Acho que todos nós já tivemos ou ainda teremos(no meu caso) que escolher entre o conforto e a liberdade! Sinceramente não sei o que pensar, quando chegar a minha hora, o que tiver de ser será neh???

    Torço para que a minha escolha seja a certa e que eu não fique pensando: e se eu tivesse escolhido outra coisa???

    Mas não adianta eu entrar no martírio tão cedo! Vou mais é aproveitar enquanto posso, fazendo o que eu gosto e sem me preocupar!!!

    Beijos Madame
    Você já está virando confidente de tanto que eu venho aqui e libero tudo!! Mas é que normalmente não falo muito, sou meio caladão e no pc é tudo mais fácil porque a gente não vê pra quem a gente fala!!

    hehheheh

    Beijos de novo e desculpa despachar tudo aqui! (soa como macumba mas não é)!!

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  2. Oi Eri,

    Gosto tanto da tua presença aqui. Já tenho um grande carinho por você, então sinta-se à vontade para falar comigo. E, apesar de nunca ter me visto, já sabe bastante sobre mim também através das minhas reflexões, então estamos quites.

    Espero que seu pé esteja bom e que logo logo vá assistir este filme. Você não pode perdê-lo porque é jovem, inteligente e cheio de vida. O filme irá falar em seu coração, é ótimo para todas as idades, mas principalmente para jovens como você.

    Obrigada pelo elogio. Quando o filme é bom, facilita a reflexão. Quando ele fala de uma forma com nossas vidas, melhor ainda. Ele falou com minha vida.

    Na verdade, Eri, todos nós já tivemos e teremos momentos de escolhas, sejam elas afetivas, profissionais, escolares e em qualquer outro nível, então o processo é recorrente(para uns mais que outros). Normalmente pessoas com senso de liberdade e independência mas que tem uma forte base familiar passam por grandes dilemas, então se o seu perfil é esse, bem vindo ao clube.

    Não pense muito ainda sobre o futuro, viva cada dia e siga seu coração mas pense racionalmente também. Não olhe pra trás também após tomar uma decisão. Haverá arrependimentos, haverá dúvidas, haverá incógnitas e você não poderá fazer nada a respeito porque ninguém pode voltar no tempo. A vida continua e é importante não ficar patinando em suposições. Como você mesmo disse, faça o que gosta.

    E adiciono: não fira seus princípios e realmente não viva em uma jaula mesmo que você quebre a cara, crescemos muito com nossos fracassos, sempre haverá a esperança do sucesso.

    A vida é muito curta. E lembre-se: Nas pequenas coisas , as mais simples, encontramos grandes prazeres.

    Bjs!

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  3. Madame,

    sua crítica foi a primeira que li a respeito deste filme. Eu o assisti, achei ele modesto, intimista, mas agrada. A diretora Lone Scherfig fez um trabalho consistente.

    O que me irrita é a covardia do Alfred Molina, mas ele é tão bom ator que..deixa quieto, rs!

    Adoro o ator Peter Sarsgaard, principalmente naquele filme com Liam Neeson - "Kinsey: Vamos Falar de Sexo".

    Não ganha o Oscar, mas ganhou minha atenção..tanto que paguei ingresso por ele.

    É um bom filme.

    Bjokas!

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  4. Oi Rodrigo,

    Que bom te rever aqui! Saudadezonas!

    O filme é intimista mesmo. Tem aquele jeitinho "pleasant" de ser. Eu também pensei que o Alfred Molina seria mais bruto, gostaria de vê-lo como o pai super mandão que não se deixa influenciar de forma tão fácil e movido por interesses. Com certeza, faria bem ao filme. Faltou personalidade nesse Jack.

    Não assisti Kinsey ainda... mas o assunto é bom rsrs!

    Bjokas!

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  5. Tb gostei muito do filme. Uma grata surpresa. Confesso que não punha muita fé nessa fita não. Graças a deus fui completamente surpreendido. Experiência semelhante ocorreu-me como Distito 9. Engraçado é que seguimos mais ou menos a mesma linha mestra na nossa apreciação da obra madame. Os subtextos da obra de Scherfig para mim valorizam muito uma história que a princípio não seria tão original.
    Sobre as duas cenas de conotação sexual questionáveis que vc não gostou tanto, achei-as muito importante para que mostrasse as verdadeiras pretensões de David. O tom pedófilo da primeira (Posso olhar?) e a insinuação de sexo oral (que ela não entendeu) mostram que a o lobo não poderia se conter na pele de cordeiro por todo o tempo eo expectador arguto poderia já começar a temer pela jovem Jenny. Um recurso muito interessante do roteiro e bem encenado pelos ótimos atores.
    Educação tem ótimas cenas. ótimos detalhes como a personagem viver falando francÊs. Adorei aquilo. rsrs
    Bjs

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  6. Oi Reinaldo,

    Gostei do filme pelas razões de identificação expostas. Também é muito agradável, uma ótima trilha sonora, de muito bom gosto. Eu não tinha expectativas e fiquei por fora algum tempo, mas ao ver o trailer no cinema, algo chamou minha atenção. Serei um pouco de Jenny, sempre!

    Que bom que nos identificamos mais uma vez! Xô, lobisomem, né!? Rsrs!

    Pois é, Reinaldo, eu não invalido as duas cenas de conotação sexual (acho importante reforçar tal questão agora).Acho que o que foi colocado é uma parte do que acontece, ele é um homem mais velho, ele tem tesão, ele quer se satisfazer. Jenny deveria sabê-lo quanto se envolveu com ele e, mais, ela já o sabia, não era tão bobinha assim pois dormiu no quarto dele já previsto quanto conversava com Helen.

    Não sou pudica, pelo contrário, sou open-minded com relação o desejo. Só acho que, como sou mulher, obviamente tendo a ser mais crítica com relação a esses comportamentos. Não gostei da menção a Minnie, porque eu amo a Minnie (acredite!) e também esse "posso olhar" foi bem pedófilo mesmo porque ele é sugestivo e tudo que é sugestivo tende a incomodar mais Talvez eu não teria me incomodado tanto se ele já tivesse pegado ela de jeito Rsrs!

    De resto, belas cenas. Adorei a cena de Paris. Adorei ela ouvindo Juliette Greco e este filme me inspirou a retomar a aulas de francês que há muito eu quero retomar. bjs!

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  7. Oi, Madame

    Confessarei aqui: não li toda sua crítica, pois você acaba por detalhar muito algumas passagens e contextos do filme, certas motivações...e acho que se eu ler, perderei o fascínio do primeiro contato quando assistir ao filme, entende?

    Sinceramente, acho que gostarei muito deste filme. Tudo que já li, o trailer e o elenco - em particular o Sarsgaard, que considero sempre fantástico...até hoje me recordo de quando o vi, pela primeira vez, no Meninos não choram, lembra dele lá? - além do roteiro que me define em muita coisa.

    Preciso ver, onde baixo ele? não dá pra ir sempre ao cinema, beijos

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  8. Oi Cris,

    Entendo o seu ponto de vista, mas honestamente, não acho que detalhei muito as passagens do filme, isso te garanto com propriedade,mas com certeza passei a idéia reflexiva geral do filme e não poderia deixar de fazê-lo considerando o propósito do blog e o quanto o filme é interessante. Respeito o seu ponto de vista, por isso te entendo sim, e prefiro que sempre assista o filme antes porque meus enfoques podem ser diversos conforme nota que expûs, mas o grande prazer não será perdido. Cada fascínio é um fascínio!

    Não sei onde você deva baixá-lo, já procurou no Filme já ?

    Bjs!

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  9. Madame, eu a-m-o esse filme. Desde a primeira vez que vi o poster de EDUCAÇÃO, sei lá, eu já comecei a gostar dele (acredito no poder de sedução dos 'posteres' rs). E estava a um ataque de nervo para conferir, e, bem, eu sabia que era cheio de clichês uma história mediana, mas mesmo assim achei o filme lindo e fantástico. rsrsrs
    Bem, agora só falta eu ver A Single Man, para sussegar um pouco, se bem que esse último vou ter que esperar sair em DVD, já que o filme nunca estreia aqui na minha cidade...

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