terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Medo da Verdade (Gone Baby Gone) - 2007


A contracapa do DVD de Medo da Verdade, dirigido por Ben Affleck, muito mais talentoso como diretor e roteirista do que como ator chama a atenção do espectador com as seguintes palavras: "Vai deixar você falando sozinho por dias". Um headline que está longe de ser uma propaganda enganosa. Eu estou aqui para comprovar isso. Medo da Verdade é um suspense policial com desdobramentos impactantes a nível psicológico, principalmente no conflito moral de seu final e, por isso, atordoa a cabeça do espectador sobre o poder das nossas escolhas e suas consequências, assim como os limites entre a percepção do que é verdade e do que não é, de fato, uma verdade. O roteiro é adaptado da obra "Gone Baby Gone de Dennis Lehane (de Sobre Meninos e Lobos) e, para quem conhece os profundos dilemas humanos evocados pelo escritor, sentirá as reviravoltas de Medo da Verdade como um desafio pessoal, testando nossas próprias convicções a respeito de determinadas problemáticas da natureza humana.





O drama se passa em Boston, cidade na qual Ben Affleck e seu irmão Casey Affleck (protagonista do filme, ótimo como Patrick Kenzie) cresceram e é o primeiro filme do diretor, maravilhosamente um thriller poderoso que confirma o talento nato de Ben Affleck na direção. Ele não atua neste longa-metragem, no entanto, demonstra uma habilidade excepcional ao extrair o melhor de um elenco de peso e ao filmar Boston e seus habitantes como um dos protagonistas da história, lidando com temas delicados como o sequestro de crianças, a corrupção e a desestruturação da família. No enredo, Patrick Kenzie e Angie Gennaro (Michelle Monaghan) são detetives que têm um relacionamento amoroso e trabalham juntos na investigação de pessoas desaparecidas. Após o desaparecimento de uma menina de 4 anos, Amanda McCready (Madeline O'Brien), filha da viciada em heroína e cocaína Helene McCready (Amy Ryan, excelente), os tios da criança Lionel McCready (Titus Welliver) e Beatrice McCready (Amy Madigan) desesperadamente contratam Patrick e Angie para encontrar a menina. Estes trabalham conjuntamente, embora mantendo certa autonomia, com os detetives Remy Bressant (Ed Harris, ótimo) e Nick Poole (John Ashton) e sob os olhos do chefe policial da divisão de crianças desaparecidas, Jack Doyle (Morgan Freeman) em uma série de investigações nesta perigosa teia de aranha, cheia de mistério e muitas surpresas, se envolvendo em adentrar o podre submundo de traficantes, drogados e pedófilos. Patrick, como um homem jovem, corajoso e de certa ternura, tem um perfil ótimo para influenciar os moradores da região, logo esta faceta de seu comportamento, ora destemido, ora delicado facilita seu acesso às informações que podem levar a encontrar a garotinha desaparecida e a descobrir a inesperada verdade.




Medo da Verdade é um filme a ser desvendado por cada espectador. Eu, particulamente, optei por não comentar tudo o que penso nesta resenha porque exigiria detalhar alguns desdobramentos do filme e, por respeito ao meu leitor, quero que você sinta o que senti de forma surpreendente, desejo que, ao terminar o filme, você pense em qual atitude você teria no lugar de Patrick e no lugar de tantos outros personagens, entre dilemas de moralidade, de fazer o bem sem querer fazer o mal, de fazer o mal querendo fazer o bem, de (re)pensar o que é o certo e o que é o errado, o que é a verdade e o que é a mentira, o que é fazer uma escolha e o que é não fazer uma escolha. O que posso afirmar é que, na dinâmica deste longa-metragem, não há uma resposta imediata como thrillers que fingem ser thrillers mas não o são em suas essências. Em Medo da Verdade, o suspense é suspense e todos podem estar envolvidos no crime, as aparências enganam e a verdade não está aparente assim como os fatos e as pessoas não podem ser julgadas de imediato e levianamente, no entanto quando a verdade surge, é difícil encará-la como a verdade, ela amendronta porque é conflituosa, ela traz um peso à consciência, invade seu espaço moral e, ao decidir por uma escolha baseada nesta verdade, há sempre o risco de se conviver com isso indefinidamente, simplesmente refletindo se esta foi a melhor decisão a tomar ou desejando enterrá-la para sempre. Mais do que o medo da verdade, está o medo das escolhas e de suas consequências a partir de novos contextos e problemáticas que surgem inesperadamente, principalmente quando são escolhas que impactam a felicidade de outras pessoas e, por sua vez, impactam nossa consciência com outro alguém. Ainda assim, escolhas devem ser tomadas e nunca saberemos se elas foram as mais corretas ou não, a ética e a moral que sustentam verdades acabam sendo as prioridades da maioria de nossas decisões, mas qual é preço que se paga por tais decisões?
Só você é capaz de lidar com isso e pagar este preço.


Avaliação Madame Lumiére



Título original: Gone Baby Gone
Origem: EUA
Gênero: Drama, Suspense
Duração:
114
min
Diretor(a):
Ben Affleck
Roteirista(s):
Ben Affleck, Aaron Stockard, Dennis Lehane
Elenco: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Morgan Freeman, Ed Harris, John Ashton, Amy Ryan, Amy Madigan, Titus Welliver, Michael K. Williams, Edi Gathegi, Mark Margolis, Madeline O'Brien, Slaine, Trudi Goodman, Matthew Maher

10 comentários:

  1. Este filme é xcepcional e merecia mais destaque das premiações em seu ano. Como vc sabe, integra a minha lista de melhores da década. E como vc bem observou, o headline é dos mais tenazes. Bjs

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  2. Madame, o único trabalho que eu conhecia de Ben Affleck era gênio indomável.

    Vou conferir o filme, mas preciso dizer que eu acho Ben Affleck um PÉSSIMO³³ ator! Mas parece que se dá bem por trás dos filmes. Depois comento sobre o que eu achei do filme. Bjo!

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  3. Sempre soube que esse filme era ótimo e um dos mais subestimados do ano. Agora você aumentou ainda mais minha curiosidade

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  4. Oi Reinaldo: Sim, achei perfeita sua escolha como melhores da década. É deveras um filme subestimado, o que é lamentável, ele consegue ser profundo e caótico embaranhando nossas convicções e escolhas. bjs!

    Oi Raphael: Vale a pena conferir este filme, você nem acreditará que é Ben Affleck por trás das câmeras e também do roteiro adaptado. O melhor do filme é o conflito moral de Patrick na cena final. Eu, no lugar dele, acharia dificílimo ficar entre a cruz e a espada. bjs!

    Oi Luis: Assista-o, tenho certeza que vai admirar este trabalho de Ben Affleck. Eu sempre deixa a fita de lado até o dia que me surpreendi e fiquei atordoada com os dilemas do filme. abs!

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  5. ótimo filme e ótimo review, como sempre :)

    é íncrivel como o Ben Affleck se mostrou um excelente direitor mesmo e a capacidade do Casey jah estava mais do que comprovada.

    Filme bem forte e atual. Ótimo.

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  6. Oi Brunão! Obrigada pelo gentil comentário. Sim, este filme é bem forte e atual e até agora estou pensando no dilema de Patrick, principalmente considerando como o filme terminou. Será que ele fez a melhor escolha? rsrs. bjs!

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  7. Eu ainda não vi, acredita? tenho ele no meu pc, não pude comprar em dvd original, ainda. Mas, verei assim mesmo.

    E eu acho o Ben Affleck melhor por trás das câmeras e tenho dito. Anda sumida!

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  8. Não acredito que você não viu ainda, Cris!!!!! Veja-o, acho que vai entrar no clima deste thriller e saber valorizá-lo.

    Eu ando te apimentando lá também, mas fiquei com 1 dia de atraso sem entrar em todos os blogs que visito. Eita homem que ama a Madame, meu Deus! rsrs...Apimentá-lo-ei 4EVER!

    bjs saudosos!

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  9. É um filme surpreendente. O desfecho realmente é bastante assombrador. Fiquei semanas com aquilo na cabeça. Bela atuação de Casey. Dou a mesma nota.

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  10. Oi Wally, por isso ele é tão bom. Te desafia a ficar com este desfecho na cabeça. Confesso que até agora ainda penso nele e na atitude que eu teria. Deve ser horrível conviver com esta dúvida (e se eu tivesse tomado uma atitude diferente?). abs!

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