quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Paixão Selvagem (Je t'aime, moi non plus) - 1974


Paixão Selvagem, dirigido pelo francês Serge Gainsbourg foi um filme muito cult e controverso na década de 70 mesmo para os padrões libertinos dos amantes franceses, decerto por conta da popularidade de Gainsbourg, um convicto e polêmico músico e compositor que apreciava o carpe diem destrutivo regado a álcool, mulheres e muito sexo. Estrelado por sua ex-esposa, a bela Jane Birkin (com a qual teve a cantora Charlotte Gainsbourg, filha do casal), Joe Dalessandro, Hugues Quester e Reinhard Kolldehoff, Je t'aime, moi non plus apresenta além da famosa erótica canção homônima francesa a temática homossexual entrelaçada a questões dramáticas como o amor, a paixão, o desejo, o sexo e a desilusão afetiva. Neste enredo, Krassky (Joe Dalessandro) e Padovan (Hugues Quester) vivem e trabalham juntos e são caminhoneiros. Ambos têm exatamente o estereótipo homossexual insinuado em grande parte dos filmes, ou seja, eles não têm relações sexuais no vídeo e, muito menos se beijam mas os olhares passionais os denunciam, além disso são bonitos, sarados, usam calças jeans apertadas e estão em um ambiente rústico e entediante. Krassky acaba entrando em um bar de beira de estrada e conhece Johnny (Jane Birkin), uma jovem mulher com aparência masculinizada, cabelos curtos, quase sem seios e nádegas. De imediato, ela o atrae, o desejo desabrocha de forma evidente e ele não tira os olhos dela. Johnny(que recebeu este nome exatamente porque parece um menino de corpo esguio) também se sente atraída por Krassky, começa a fitar a pele e o braço bem definido dele e, sem hesitação, o convida para uma festa no bar mais tarde. Na ocasião da festa, eles dançam juntos e se beijam ao som da clássica música Je t'aime, moi non plus, garantindo à audiência a única cena poeticamente decente do filme. Por outro lado, o começo desta paixão é observada pelo ciúmes do pobre infeliz Padovan e dos comentários reativos de Boris (Reinhard Kolldehoff), o asqueroso chefe de Johnny que tenta avisá-la de que Krassky é gay e ela se decepcionará com o rapaz. O ator Gerárd Depardieu também faz uma participação especial (e dispensável), cuja fala foi uma das mais comicamente ridículas e desnecessárias de todo o longa metragem (ele, sendo um homem cavalgante que nem nome tem, ao encontrar Padovan sofrendo de ciúmes, lhe diz: "Não vou transar com você porque meu pênis é muito grande e já enviei vários ao hospital"). Agora, caro leitor, me diga o que isso tem a ver com o filme e qual a relevância de tal fala para o drama? Serge Gainsbourg podia saber escrever canções, mas texto para cinema, nem pensar.





Johnny e Krassky acabam se envolvendo sexualmente, o que é previsível porque o enredo é baseado nesta tensa paixão entre uma mulher hetero e um homem gay que, particulamente, não achei tão tensa porque é uma das relações mais egoístas que eu já vi na história do cinema, e que ficou bem pior por conta do enredo sem tato e sem sensualidade. Por que é uma relação egoísta? Eu explico-lhes a seguir. Primeiramente, quando eles se conhecem no bar, ainda há uma esperança de que Paixão Selvagem será realmente intenso e potencialmente bem consolidado por este interessante viés passional: início do desejo na contra-mão das preferências sexuais de um deles, olhares marcantes e com o tesão aflorado e a esperada consumação do sexo. Ótimo! Mas alegria de cinéfilo pode durar pouco. Quando eles decidem transar, ele não consegue ficar excitado. Até este momento, é compreensível porque o objeto de desejo sexual de Krassky é primordialmente o sexo masculino, no entanto, dado o desejo de Johnny e sua tolerância e entrega à paixão por ele, ela oferece a si mesmo como um menino, ou seja, oferece o seu corpo para uma relação anal e, então, Krassky consegue transar (e ele só a possuirá desta maneira em todo o transcorrer do filme). Embora eu compreenda que, Krassky, sendo gay ativo, gosta deste tipo de relação, em nenhum momento, ele está disposto a amá-la de uma forma diferente, cedendo também aos desejos dela, ele não faz o mínimo esforço, por isso além das transas serem dolorosas para ela, Johnny praticamente se anulou para viver esta paixão masoquista. Infelizmente, o enredo não se predispõe a valorizá-la enquanto mulher que o deseja e que tem desejos sexuais próprios, logo além de Krassky ser um homem sem qualquer conteúdo sensível e intelectual (só sabe chamar o que e quem ele não gosta de "pedaço de merda"), ele se mostra um homem bonito mas vazio, que só pensa em satisfazer-se da forma que ele gosta sem qualquer espaço ao desejo do outro; sem assumir de vez sua homossexualidade, afinal, para ele Johnny era uma mulher com jeito de menino e, principalmente, com bunda e sem vagina.





Considerando que a idéia do filme fosse somente expor a frieza carnal de
Krassky e o desejo libidinoso dele por só transar com ela somente através de sexo anal, entendo perfeitamente este ponto se o filme tivesse o propósito de manter este foco investigativo do desejo homossexual porque o problema de Paixão Selvagem não é fundamentalmente este; o problema é que o filme não é sexy nem sensivelmente dramático e o diretor foi péssimo em não aproveitar este rico tema controverso para fazer a película brilhar e se tornar excepcional. Muito mais do que uma história complicada de paixão entre um mulher heterossexual e um homem homossexual, o longa metragem é um culto à fixação anal e, por isso, se apresenta como um filme sem nenhum tato por parte do diretor e roteirista para tratar um tema ainda tabu como este, enfocado de uma forma totalmente inverossímil com a sensibilidade tanto do público heterossexual quanto do público gay, infelizmente, um filme vulgar até mesmo para tratar a questão do desejo anal que se tivesse sido bem enfocado poderia ter rendido cenas mais bem sucedidas e impregnadas de um erotismo valoroso. Serge Gainsbourg monopolizou o filme com referências anais enfocadas de forma tosca, desde uso de vasos sanitários na caçamba de um caminhão e de falas de mal gosto, passando por transas cheias de dor nas quais Johnny gritava escandalosamente alto em vários motéis fazendo com que ambos fossem expulsos ("eu não sabia se eu ria ou chorava considerando a falta de tato deste roteiro"), até a implícita citação sobre a bunda do cachorro de Johnny e minutos e minutos de foco nas nádegas de Krassky e Johnny durante um banho em um lago, ou seja, não houve uma elevação do tema a algo mais sensual, mais pulsante das tensões do desejo, delicadamente bem enquadrado pela câmera ainda que pudesse, obviamente, colocar uma forte carga erótica na relação sexual em si. Definitivamente, faltou percepção aguda a Serge Gainsbourg e, honestamente, penso que este filme é de mau gosto, direção precária com uso exagerado de câmera a partir do ponto alto, bird eye) e não dignifica o desejo nem mesmo homossexual, pois tenho alguns amigos gays e jamais eles são medíocres como o filme, pelo contrário, são inteligentes, poéticos e até mesmo em temas sobre o desejo eles conseguem ser sensíveis e de fino trato principalmente cinéfilo, prova disso é alguns deles admirarem O Segredo de Brokeback Mountain que, embora tenha um outro tipo de relação em foco, consegue ter muito mais sensibilidade e desejo à flor da pele e ilustrar verdadeiramente o drama dos sentimentos em pauta através notáveis direção e roteiro. Paixão selvagem trata o tema amoroso e sexual com uma selvageria total e o desfecho só reforça isso. Mesmo se o intuito do roteiro fosse mostrar que uma relação desta é fadada ao fracasso, um pouco de sexo com sensualidade não faria mal a ninguém. Convém salientar que o filme só chama a atenção por conta da presença de Jane Birkin, que foi diva francesa clássica, símbolo cool fashion style sexual de toda uma geração e da canção título que virou trilha sonora até de motéis. Só lamento que o filme seja tão descartável, perdeu a oportunidade de ser uma obra prima verdadeiramente e eroticamente poética do Cinema Francês.


Avaliação Madame Lumière






Título original: Je t'aime, moi non plus
Origem: França
Gênero: Drama
Duração: 90 min
Diretor(a): Serge Gainsbourg
Roteirista(s): Serge Gainsbourg
Elenco: Jane Birkin, Joe Dalessandro, Hugues Quester e Reinhard Kolldehoff

9 comentários:

  1. caramba madame... um review bem inspirado!!!
    desconheço totalmente esse filme, mas me chamou muito a atenção....

    tenho que conferir um dia.

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  2. Oi Bruno, não é um tema muito fácil de falar, principalmente quando o filme é ruim, primeiro porque também sou uma mulher (e claro não gostei da forma que Johnny foi tratada), segundo porque sou heterossexual (e tive que ser sensível à problemática de Krassky e ver o lado dele também), então minha reflexão acabou saindo naturalmente na escrita muito em função de eu ter ficado decepcionada com a falta de sutileza de Serge Serge Gainsbourg. Espero que outros leitores tenham assistido este filme para compartilhar críticas sobre ele. Eu sei que há pessoas que amam este filme, mas eu desgostei total. Tinha tudo pra ser um filme bem feito!

    bjs!

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  3. Ainda não vi esse filme e a julgar por seu olhar não estou perdendo grandes coisas.
    A frase de Depardieu é realmente um achado, ou um perdido rsrs
    * Sobre o cinema francês em especial, gosto muito. Porém, é preciso reconhecer que há uma infinidade de filmes de mediano para baixo que se aproveitam da pecha e sofisticação de serem "produtos franceses". O que poderia ser tomado como propaganda enganosa de berço. rsrs

    Talvez seja o caso desse aí. Têm muita gente que pensa que polemizar e chocar é pretexto e requisito para ser cult...
    Bjs

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  4. Oi Reinaldo, tudo bem? Espero que sim.

    Pelo que eu conheço do seu bom gosto cinéfilo, acho difícil você gostar deste filme.

    A frase de Depardieu é um perdidaço e só ressalta o texto ruim deste filme e o personagem dele, que é um tipo de michê da redondeza chamado de puta na região.rsrs! Acho que esta frase é mais uma apologia anal, ressaltando que se ele transasse com Padovan ele iria machucar a região pra valer haha...eta filminho mais tosco, estou com raiva até agora dos meus minutos cinéfilos perdidos.

    Gosto também do cinema Francês, pra falar a verdade, do europeu em geral principalmente o espanhol e o alemão e, concordo com suas sábias palavras. Muita coisa é vendida como "francesa" mas há muito trash por lá. Mais sábia ainda é sua última frase: Muita gente acha que cult é produto europeu e, principalmente, criar controvérsias e chocar pra se dizer tema intelectual e provocativo. Poupe-me, as pessoas têm que acordar pra realidade, tem muito beleza nesta área mas tem muito lixo sendo vendido com label de cult.

    bjs!

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  5. Madame, me mijei de rir com essa crítica!!

    Aaiaiaiaiiaia, faça mais críticas como essa!!!

    Beijos

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  6. Adorei o review;) Eu também acho o filme um desperdicio total, nada nele funciona corretamente e o torna fraco, e grudento pela ótima música francesa.

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  7. Eri, que legal, eu também ri! Com certeza, avisarei os leitores sobre filmes toscos e comicamente ridículos. bjs!

    Luis, obrigada por ter gostado do review. Que bom que você assistiu(rs, pelo menos pôde dar o veredito aqui de que concorda comigo). Vamos fazer côro: este filme é péssimo! abs!

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  8. Ai ai Madame Dietrich,

    adorei esta sua crítica.

    O filme é GAY SIM!

    Adoro o ator Gerárd Depardieu, em outros trabalhos, óbvio, rs!

    Já transei ouvindo 'Je t'aime', olha estava de BG no ambiente não tive culpa, tava rolando o som de uma rádio e tocou.

    É foi bom! rs!

    Bjs!

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  9. Oi Rodrigo,

    Serei Madame Davis ainda esta semana, mas serei mais malvada que Anne Baxter, mas não tão ordinária quanto ela em All about Eve rsrs...

    Que bom que você adorou. Acho que daria um filmão se Serge não fosse tão bundão! rsrs...

    Também adoro o Gerárd Depardieu. Até que ele era bonitinho quando era novinho, mas este michê dele não me desceu rsrs...


    Sabe que eu nunca tive o privilégio de ter Je T'aime como trilha sonora do sexo. Mas depois deste filme acho que eu não quero mais não. rsrs! Fiquei traumatizada! rsrs

    Beijo,

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