terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dúvida (Doubt) - 2008


O poder da dúvida é um dos mais desgastantes que existem. Desgastante para quem duvida de alguém, desgastante para quem é posto em dúvida. De fato, tal processo pressiona o indivíduo com uma acusação que pode ser sentenciada ou não, mas não é a sentença em si que desgasta mais, o que desgasta é o processo da dúvida, o que está suspenso no ar e reforça mais ainda o conflito. Em Dúvida, filme baseado na peça Doubt, vencedor do Pulitzer e roteirizado e dirigido por John Patrick Shanley é a dúvida que persiste, e ironicamente, é retroalimentada por uma certeza muito cega evocada por uma freira contra um padre. No enredo Meryl Streep é Aloysius Beauvier, freira diretora de uma escola Católica Americana no Bronx, uma mulher tradicionalmente insuportável, opressora, autoritária, ou seja, exerce seu cargo de uma forma anti-carismática, ortodoxamente com vilania, o que evidencia, a olhos nus, que ela contraria até o bom exemplo da benevolência do Evangelho. Ao dar ouvidos a uma suspeita da irmã James (Amy Adams) de que o padre da diocese, Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman, perfeito como sempre) tem um relacionamento mais próximo com o único aluno negro da escola, o que sinaliza que pode haver uma relação de abuso sexual ao menor. Irmã Beauvier vira o próprio démon com tal suspeita e atormenta Padre Flynn passando por cima até do comportamento esperado de um subordinado já que ela se reporta hierarquicamente ao padre. A dúvida dela é tão cega e tão baseada em uma fé absoluta de que há algo errado com o liberal Flynn que é como se ela defendesse a própria religião com uma certeza convertida em fé.





O roteiro de Shanley materializa a arena de dois titãs : Streep e Hoffman, em diálogos longos e inteligentes, magnificamente bem interpretados que coloca em pauta a dúvida. E a dúvida em si torna-se uma manifestação muito mais demoníaca na performance de Streep. Ela chega a fazê-lo de uma forma tão convicente, reforçada pelas expressões nos rostos do elenco principal que sugerem um ponto de interrogação e detalhes no ambiente que abrilhantam a atmosfera dramática que é impossível não se reunir ao time de Dúvida. O espectador é levado a esta arena e Hoffman rebate Streep com tanta sabedoria que não sabemos quem é o errado da história. O padre é um pedófilo ou não? Ele é inocente ou culpado? Qual a fronteira entre o pastoreio De um padre sobre uma criança carente que vê nesse padre um grande amigo? A maldade está na cabeça de Irmã Beauvier ou não? Dúvida é um filme complexo porque o ato de julgar e/ou sugerir uma culpa em outro alguém é uma faca de dois gumes, ou seja, o mesmo que julga pode enforcar o próprio pescoço e ser culpado por julgar, ou seja, a sua dúvida é uma dúvida, principalmente quando se está julgando um padre, o intermediário entre Deus e o povo na fé Católica, tal ação se torna controversa, por isso não há dúvidas de que Dúvida é um grande espetáculo polêmico que deixa o espectador com dúvidas do começo ao fim. Dado os escandâlos que já colocaram padres como réus em crimes de pedofilia, parece que sempre há uma suspeita natural sobre esse público, um pré-julgamento que, independente do filme, já permite previamente afirmar que Irmã Beauvier pode estar certa. Mas Irmã Beauvier é uma beata perigosa maledicente ou somente vítima de sua própria fé cega? Mais uma questão para reflexão, afinal, ela também evidencia um sofrimento ao expressar sua dúvida mesmo que mantenha o pulso firme em desconfiar do padre. Talvez ela não tenha tanta certeza, só não tem coragem de assumir sua incerteza. Por isso, Dúvida é uma película que coloca em pauta certezas e incertezas, bem e mal, e formidavelmente, a aproximação entre a dúvida e a certeza que são como imãs, como co-dependentes um do outro nesse processo de julgamentos e interpretações.





Dúvida tem outras grandes virtudes como filme, muito além de trabalhar estes limites delicados e ter as excelentes atuações de Streep, Hoffman, Adams e Davis (esta última em uma das mais curtas e vibrantes interpretações de uma atriz coadjuvante no cinema, como a mãe do aluno negro e merecidamente indicada ao Oscar). É um Filme que tem a veia teatral de emblemáticos embates de personagens como ocorrido com Streep e Hoffman, mas sem a cara completa de um teatro. Também é um filme que opõe uma freira tradicional e um padre modernizado, o que (in)diretamente, traz uma reflexão mais contemporânea como está a igreja atual. Em meio a dúvidas que incriminam, já em um discurso, a índole de uma autoridade eclesiástica mais “liberal” partindo de uma outra figura tradicional da instituição, tal fato põe em dúvida como os dogmas têm sido exercidos dentro da igreja. O interessante nesse aspecto dogmático é que dogmas já separam o certo do errado e são pregados como verdades inquestionáveis, mas será que Deus julgaria padre Flynn como irmã Beauvier o fez? Que tipo de fé absoluta é essa que é capaz de acusar um líder religioso sem ter provas? Independente se o padre infrigiu a lei ou não, isso será uma dúvida eterna em Dúvida, ele não está sendo defendido afincamente nem por ele próprio.A única certeza aqui é que a convicção da certeza talvez seja o maior erro de qualquer autoridade religiosa (e qualquer pessoa) que se predispõe a apontar o dedo, duvidar e/ou acusar outro alguém que segue uma fé ou conduta diferente, por isso, Dúvida traz outros questionamentos em um plano mais profundo e realista, em especial, como nossa fé e exercício da fé são colocados em dúvida.


Avaliação MaDame Lumière


Título original: Doubt
Origem:
EUA
Gênero:
Drama
Duração:
104 min
Diretor(a):
John Patrick Shanley
Roteirista(s): John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Alice Drummond, Audrie Neenan, Susan Blommaert, Carrie Preston, John Costelloe, Lloyd Clay Brown, Joseph Foster, Bridget Megan Clark, Michael Roukis, Haklar Dezso, Frank Shanley

12 comentários:

  1. Olá Madame!
    como sempre, uma ótima análise.

    Mais do que a dúvida retratada pela trama do filme, mas somos desafiados e colocados à prova durante todo o filme, como vc apontou na crítica. Roteiro afiadíssimo e um elenco eletrizante, com performances arrebatadoras! O que é a cena do confronto de Streep e Seymour Hoffman? Fui invadido por um calafrio que veio de baixo rs.

    Filmaço! Pra mim, um dos melhores do ano passado brincando =)


    ABS!

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  2. Um excelente filme. Um dos melhores que vi ano passado(figurou no m eu top 10 do ano) e uma prova viva de que apesar do triunfo de Quem quer ser um milionário?, o Oscar do ano passado contava com filmes melhores.
    Quanto as questões trabalhadas no filme, e iluminadas por vc em seu texto, não tenho nada a acrescentar. Seria desnecessário.
    Bjs

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  3. Madame, a senhora escreve muito bem!!!
    Espero algum dia fazer criticas tão profundas como a sua... Passei a ver este filme(que julguei chatissimo a principio)de uma outra forma!!
    bjoo

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  4. Oi Madame.
    Mais uma vez estamos em sintonia. Vi nesta semana Dúvida e foi uma experiência inquietante. Além de ter dois dos meus atores favoritos Streep e Hoffman, o filme trata de um assunto tão complexo quanto as "certezas" que temos dentro de nós e o poder da palavra.
    Achei os diálogos soberbos, com os sermões do Padre tocando fundo em mim, fazendo-me refletir sobre o modo como lido com minhas certezas e meus julgamentos. Um filme intimista e reflexivo. Muito bom.
    Bjoss

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  5. Eu adorei Maryl nesse papel. Na verdade, me identifico mais com os vilões, pois as melhores análises psicológicas podem ser feitas a partir deles deles. E com o personagem de Maryl não foi diferente.

    O filme é ambientado em um tema completamente complicado, pois religião sempre foi e sempre será algo de grandes debates, e a idéia do filme em questionar tal fato é muito interessante.

    "São as perguntas que movem o cursor do mundo!"

    ;D

    Beijos, Madame.

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  6. Querida, Madame!!!
    Você sempre trazendo posts deliciosos de filmes importantes, hein? ulalá, este daí tem uma atuação monstra da Meryl Streep! Sinceramente? uma das melhores atuações dela dos últimos 10 anos! E repito a todos: ela merecia o Oscar de Atriz, sua interpretação foi mais voraz que da Kate Winslet, vencedora pelo O Leitor...e tenho dito!

    Este filme é um espetáculo, adorei suas pontuações...um filme que fala, dentre tantas coisas, da fé e do que podemos visualizar ou não...nem tudo que observamos e nem tudo que acreditamos pode ser a verdade única...tudo é duvida, ou não...

    Belissimo filme!
    Já apimentei ele, tem um tempo, depois veja.

    bjos

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  7. Olá Elton: obrigada pelo carinho!
    Cadê a linha para eu assinar com glamour? rsrs...
    Abs!

    Olá Reinaldo: É um filmaço mesmo.Eu adoro este duelo, tanto o das interpretações quanto o da própria temática em torno da dúvida. bjs!

    Olá Elaine: Obrigada, me dedico a transmitir a reflexão, muito além das letras. Assista-o de novo, aposto que irá desfrutá-lo intensamente. bjs!

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  8. Oi Paty,
    Jura que estamos de novo em sintonia? Oba, que energia boa em tão, junte-se ao clube dos cinéfilos sintonizados (rs).
    É interessante esta dinâmica entre certeza e dúvida. Quando se defende um ponto de vista a ponto de colocar determinada questão em dúvida isso se torna uma certeza inquietante mesmo. Você falou muito bem sobre a questão do julgamento, isso serviu pra mim também pois sou muito crítica principalmente perante a imperfeição do mundo.Normalmente já é da nossa natureza julgar, infelizmente, também erramos e julgamos equivocadamente. bjs!

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  9. Oi Raphael,

    De fato os vilões são mais interessantes. O psíquico mais complexo, e na maioria das vezes, muito doentio abre espaço à reflexão.

    Também penso que a forma como Shanley trata o tema em um ambiente religioso não ofende o catolicismo, por exemplo. Ele soube ser inteligente e tornar a questão da dúvida um tema universal, além das fronteiras religiosas do filme.

    Gostei da frase!

    Bjs!

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  10. Olá Cris,

    Obrigada pelo comentário.

    Então Cris, sinceramente, eu dou crédito para as duas, são enfoques diferentes e difíceis de interpretar, então acho que Winslet mereceu o Oscar assim como Streep também o merecia. Pensando um pouco sobre o papel de Kate Winslet, esse não foi fácil por conta do tema vergonha e do tema de uma mulher mais velha fazendo uma "troca sexual com um garoto", de alguma forma, foi muito bem feito considerando que ela inicia um jovem sexualmente também. Chega a parecer uma "pedófila" aceita pela sociedade pelo próprio drama de analfabetismo que ela tem e a beleza de desejar ouvir grandes histórias literárias através de um leitor.Ainda acho O leitor mais profundo em virtude do drama muito triste que não oferece saída por conta do orgulho, da vergonha e da culpa, arrastado ainda por uma pano de fundo nazista. Enfim, independente de Oscar, ambas arrasam.

    Bjs!

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  11. Um filmaço, fiquei pasmo quando sai da sala de cinema (eu ganhei um par de ingressos numa promoção do Adoro Cinema!!!!) e minha irmã nunca mais foi no cinema comigo!!! rsrsrsr

    Ela ficou super chateada pq ela não gosta de filmes que tratem de abuso sexual. Quando ela chegou na parte do abuso em O Caçador de Pipas desistiu de ler, mas viu o filme porque não ia ter a cena!! hehheheheheh

    A melhor cena é com a Viola Davis... nem tem o que dizer neh Madame?? Que mãe é essa???? Ouso dizer que foi o segundo melhor filme do ano passado! Para mim só perdeu para Benjamin Button!!!

    E Madame, nóticia ruim... vou ter que fechar o Notas...não teve jeito!!! Essa semana vou publicar um post com os motivos (hoje se der) e fico triste mas fazer o que neh?? Vou sentir falta de você, do Reinaldo, dos outros que me seguem ali. Mas é que eu fiquei tão deslumbrado com o blog que não queria saber de outra coisa. E agora a vontade passou sabe??? Não tenho mais aquela expectativa que tinha no começo de janeiro, por exemplo, quando entrava todo dia no blog para ver se alguém respondia um post ou tinha um seguidor novo!!! Coisa de criança sabe?? Mas fui feliz enquanto durou... hehheeh

    Beijos Madame e não fique triste porque sempre que der venho te visitar e comentar!!! No final de semana vou bater ponto aqui!!! rsrsrrs

    Beijos de novo, peço desculpas por qualquer coisa!!! E quando for pra São Paulo vou visitar tu e o Reinaldo!!! hahahhaha Adoro você!!!

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  12. Oi Eri,

    Que sortudo em ganhar ingressos na promoção do Adoro Cinema. Seu pé é quente haha, espero que ele já tenha melhorado :>))))

    A cena com a Viola Davis é intensa, suprema. Amo!

    Beijo!!!!

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