domingo, 7 de fevereiro de 2010

Breves Reflexões, Profundos Aprendizados: Cidade Baixa (2005)

Breves Reflexões, Profundos Aprendizados
através do Cinema


Breves reflexões, Profundos Aprendizados através do Cinema,
uma única dose para curar algo de nós, talvez o coração, reduto de dores além de sua própria ou, simplesmente, dar espaço a uma nova forma de olhar a vida aprendendo com o Cinema. Sempre um filme com uma rápida dica para reflexão, consequentemente, o recomendando. Sugestões de Filmes e Sessões de Cinema à parte, prometo voltar aqui para explorar bem melhor os longas integrantes desta série, como de costume.



Dentre os filmes nacionais, Cidade Baixa sob a direção de Sérgio Machado foi um dos mais visceralmente marcantes em minha experiência cinéfila. Está longe de ser o meu preferido no cinema nacional, porém é um filme que se adequa bem a este espírito da Cidade Baixa de Salvador, e não me refiro a estigmas sobre a parte pobre da capital baiana, mas pelo espírito de viver intensamente o desejo da carne que também é alimentado pela cultura local carnavalesca e pela pobreza da região. Digo isso com propriedade, eu contemplei esta aura sexualizada de Salvador quando morei na cidade por um período e viajei por anos consecutivos à Bahia, logo embora não tenha morado na Cidade Baixa, não a tenha visitado com frequência e muito menos tive tempo o suficiente para ser uma antropóloga especialista a observar os hábitos baianos, acho único a forma como eles exalam sexualidade e lidam com o sexo de forma muito natural, carnal. Isso não quer dizer que toda a população seja assim e não quero alimentar um pre(conceito) pois sou aversa a idéias pré-concebidas, mas existe este tesão coletivo no ar soteropolitano, de viver a vida como ela é , de ser feliz em meio aos problemas sociais da cidade com pequenos prazeres, de ser desbocadamente pele e desejo, de se permitir o gozo. Neste ponto, Cidade Baixa dá conta de mostrar uma faceta desta passionalidade sexual e, embora muita gente ache o filme ruim e apelativamente com muito erotismo descarado e gratuito, sabemos bem que é clássico ver muito sexo na vida de personagens do Cinema quando a vida deles estão com profundos problemas, neste contexto, o sexo é o playground existencial e aqui não seria diferente. Realmente eu respeito e aprecio o filme não pelo sexo selvagem à flor da pele em um complicado triângulo amoroso entre dois amigos Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) e a prostituta Karinna (Alice Braga), mas pela autenticidade de mostrar quem realmente somos em nossos mais vulgares desejos, em nossas podres vísceras.





Na época de lançamento de Cidade Baixa, fiquei fascinada pela verdade das palavras do diretor Sérgio Machado e isso contribuiu para que eu apreciasse mais ainda o revelar deste longa-metragem - " Eu me interesso por filmes que falam de gente e não de grandes eventos – essa história não é uma denúncia sobre as condições de vida das prostitutas ou dos malandros do cais do porto. É uma história de gente como nós, que deseja, sente, ama, sofre, tem tesão, tem medo, chora, tem raiva, goza, é boa e é ruim, é violenta e é plácida...". Que autenticidade a de Sérgio Machado e como ela se encontra com a minha própria a respeito deste filme! Ao assistir Cidade Baixa, concluo que é um filme visceral em toda a sua plasticidade e sensibilidade com ótimas atuações e uma fotografia nua e crua. Percebo que realmente ele reforça o quão somos viscerais por excelência. Tão viscerais que plasticamente chegamos a ser orgânicos. Fedemos, gozamos, choramos, gritamos, enlouquecemos. Somos baixos, a vida também é baixa. Caímos em lugares vazios, sombrios, profundos e escuros. Sabemos que no poço mais fundo do ser reside o desejo de realização e de encontrar uma vida plena e não há plenitude sem se esquartejar em pedaços, não há vida sem sentir a dor e as feridas que sangram por dentro, sem sentir o prazer do gozo e a desilusão da paixão, sem sentir a decepção com uma amizade e o desejo do perdão. No mais baixo dos mundos somos testados em nossos limites; provados naquele ponto mais alto onde já não mais resistimos e precisamos nos ajoelhar para, depois, continuar a viver, sonhando alto mas com os pés no chão. Bom Filme e saudações cinéfilas da MaDame Lumière.

9 comentários:

  1. 'Cidade Baixa é visceral', acho que resume bem esse ótimo filme brasileiro.

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  2. Madame, realmente, o filme se destaca muito no cinema nacional.

    E a essência do filme se encontra justamente nessa parte: "É uma história de gente como nós, que deseja, sente, ama, sofre, tem tesão, tem medo, chora, tem raiva, goza, é boa e é ruim, é violenta e é plácida."

    Confesso que vi e me surpreendi, pois eu nem dei valor ao mesmo antes do início do filme.

    Eu também já encontrei críticas sobre o suposto exagero, mas não concordo. Acho que tudo ali está de acordo com o dia de hoje, e principalmente no local onde se localiza o filme. Não digo por preconceito, mas essa é a realidade.

    Bjos!

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  3. Oi Luis, que bom que concorda! Este é um bom adjetivo para que as pessoas não julguem o filme como um filme que só mostra sexo e nudez, penso que ele faz uma real alegoria que ultrapassa só a paixão e o prazer da carne. abs!

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  4. Oi Raphael,

    Eu realmente não acho o filme exagerado, talvez uma ou outra cena, mas de maneira geral, a Cidade Baixa real é isso aí mesmo.

    bjs!

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  5. O sexo é o argumento? sim, na verdade é o desejo que serve de base pra todo o conflito do filme...os personagens são intensos, desequibrados e passionais, emotivos e apaixonados, embalados pelo momento da paixão - como todo ser humano.

    Gosto da interpretação verdadeira de Alice Braga - sem falar nos inspirados Moura e Ramos!

    a direção é provocativa, sim!

    Ah, como soteropolitano, eu acho que Salvador é sim uma cidade bem...efervescente sexualmente, mas não é somente ela.

    Um bom filme, sim!

    Beijos!

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  6. Oi Cris
    Penso que o sexo alimenta esta paixão e vice-versa. O desejo está em evidência. Não acho que o filme é só sexo, penso que ele é consequência do desejo. A relação passional em si os coloca em situações que liberam todas estas emoções, de raiva, sofrimento, etc. Só afloramos tanta visceralidade em situações intensas. A paixão louca é uma delas. bjs!

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  7. A propósito, é verdade, Cris, você havia me dito que é soteropolitano e eu sou uma paulistana com coração também baiano, então concordo que Salvador tem efervescência sexual como um traço cultural.


    Sim, com certeza não é a única cidade com esta característica, no entanto eu realmente penso que se o filme fosse rodado em São Paulo ou Belo Horizonte, por exemplo, não teria o mesmo efeito se fosse rodado em Salvador ou Rio. É uma percepção de que o "in loco do filme" tinha que ser em um local que facilitasse a verossimilhança com esta sexualidade visceral. Culturalmente Salvador alimenta muito a questão do sexo, há esta malícia tórrida em boa parte da população que eu, particulamente, não vi igual em muitos lugares pelos quais viajei.

    bjs!

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  8. Acho esse um dos grandes filmes nacionais dos úsltimos anos. Gostei do enfoque que vc deu aqui. No entanto, gostaria de fazer um adendo-sem entregar nada da história para quem não viu: o final desse filme, e a maneira crua como ele é filmado, é um dos melhores momentos do cinema nos últimos tempos.
    Bjs

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  9. Oi Monsieur, obrigada pelo adendo e, o fato é que eu gosto do filme, sou suspeita para falar pois eu AMO Lázaro Ramos e, principalmente, Wagner Moura, estes baianos são massa (um bom adjetivo usado pelos soteropolitanos rsrs), e preciso assistí-lo de novo. Meu post foi baseado em minha memória cinéfila de longa vida útil, quero rever esta cena final. bjs!

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