quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mostra 2014 : A Luneta do Tempo (2014)







O cantor e compositor Alceu Valença estreia na direção de Cinema com A Luneta do Tempo, um drama musical com diversas referências culturais Brasileiras como o cangaço, a literatura de cordel,  a música nordestina, o circo itinerante etc. Filmado no Agreste Pernambucano, o longa traz  Irandhir Santos e Hermila Guedes, dois dos melhores atores da atual safra do Cinema Brasileiro como o casal icônico de cangaceiros  Lampião Virgulino e Maria Bonita e agrega um elenco bastante regional com atores e figurantes locais que contribuem para compor uma bela e autêntica homenagem ao Nordeste e sua importância cultural para o Brasil.


A narrativa ocorre em uma cidadezinha chamada São Bento e seus arredores com estradinhas de terra e vegetação seca, típicas da região. Ela tem diferentes tempos narrativos, mesclando passado, presente e  um tipo de purgatório  que juntos nos levam a essa atmosfera onírica. Seu início indica que assisti-lo será como  ler um fábula, um livro de ficção ou histórias com poesia e cordel. No roteiro, a história não é centrada em Lampião e Maria Bonita embora beba da fonte da sua influência. Com diferentes planos que misturam a rixa entre a polícia do General Antero e os cangaceiros liderados por Lampião e seu amigo Severino Brilhante (Evair Bahia), a narrativa cria uma especie de faroeste do Cangaço no qual essa tensão permeia os outros conflitos e desdobramentos da história e inclui um elenco  grande com destaque para o ator coadjuvante Tito Lívio (como poeta Severino Castilho) e a especial participação de Alceu Valença como o palhaço Véio Quiabo que ilumina a tela com sua maravilhosa presença no circo.


O projeto cinematográfico de Alceu Valença demorou bastante para ser realizado e o resultado é positivo considerando sua ousadia autoral, o tipo de narrativa selecionada e os desafios para a montagem, a mistura das linguagens da imagem com a música e a Literatura de cordel e principalmente a sua falta de experiência. Ele se saiu bem e nos entrega um trabalho com lirismo e expressiva riqueza linguística, principalmente com o uso marcante do cordel que traz emoção e lirismo à narrativa. Nesse sentido, seu filme deve ser prestigiado pelos seus aspectos de subversão às narrativas mais padronizadas do Cinema e a utilização de poesia rimada e música regional. Também é uma boa oportunidade para ver a versatilidade do ator Irandhir Santos. 



Por outro lado, o expectador mais experiente e exigente  estranhará como a narrativa foi dirigida e todas as dificuldades de direção e montagem que ela traz, principalmente o uso exagerado de fade outs que  impactam na qualidade final da transição entre planos. Há situações nas quais um roteiro mais convencional, uma montagem mais fluída ou uma acentuada virada dramática seria a saída mais fácil para um diretor experiente. No geral, Alceu pode ser considerado como um diretor e roteirista muito corajoso em sua primeira aventura na direção cinematográfica, exatamente por causa do roteiro e da edição assim como na escolha por uma narrativa audaciosa impregnada de fusões linguísticas com música, teatro, poesia, ficção etc. Todos esses aspectos técnicos e desafios narrativos provocam vulnerabilidades ao longo do longa.


Não podemos esquecer que Alceu é um grande poeta e entende de sua cultura, certamente isso o ajudou na escolha por um drama musical apoiado na música e poesia. Ele é uma artista completo e autêntico, logo seu filme é como um presente  para o público sem aquela pretensão de ser o cineasta, além disso quem tiver origem ou família nordestina ou admirar essa cultura tão linda se identificará bastante com o lugarejo, o sotaque e todas as delícias de amar o Nordeste.  A Luneta do Tempo tem uma característica muito regional e lírica de valorização dessas referências e vai além dos personagens de Lampião e Maria Bonita, trabalhando com planos que expõem comportamentos enraizados que ajudam a dar leveza e humor ao longa como os amores, os ciúmes, as traições, a vingança, o linguajar espontâneo, as artes circenses, a religiosidade e a simplicidade do povo. Esses traços marcantes do filme o tornam uma experiência única e uma celebração ao trabalho de Alceu Valença e sua essencial contribuição à Cultura Brasileira. 












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