sábado, 18 de outubro de 2014

Mostra 2014: Entre Mundos (Zwischen Welten) - 2014


38º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 
16 a 29 de Outubro

Acompanhe a Seleção de filmes da Madame







Uma das premissas básicas e interessantes para assistir ao filmes de Feo Aladag, cineasta de origem austríaca em sua segunda participação  na Mostra, é o fato de ela abordar questões nevrálgicas sobre diferenças culturais, étnicas e religiosas que colocam indivíduos em choque com realidades de países de origem muçulmana. Por se dedicar ao Cinema Alemão, seus filmes costumam inserir em momentos narrativos, seja em tempo, em lugar ou em dilemas morais, personagens alemães ou dessas origens orientais que vivenciam o pensamento ocidental ou tem visões menos convencionais e mais libertárias, consequentemente, há um claro conflito com a forma de costumes, normas e condutas das culturas, mas também uma tentativa de conciliação, ainda que frustrante.  Desta vez, a diretora traz Entre Mundos (Zwischen Welten), seu segundo longa após a boa recepção  de Quando Partimos (Die Fremde).


No longa, Jesper (Ronald Zehrfeld) é um soldado alemão que após perder o irmão, morto no Afeganistão, decide voltar ao local com sua unidade para proteger uma aldeia no Talibã e se unir como aliado com o comandante Hanoor (Salam Yousefzai), chefe de uma milícia local. Para acompanhá-lo, ele leva Tarik (Mohsin Ahmady), jovem afegão e seu interprete . Tarik sofre ameaças de morte e vive com a irmã, também amedrontada com a possibilidade de ser morta a qualquer momento. Os irmãos representam o Afeganistão jovem e com o ideal de viver em paz, trabalhar, estudar e fazer uma História diferente.  À medida que a narrativa evolui, Jesper e Tarik desenvolvem respeito mutuo e amizade, o que levará à história a dimensão humana das diferenças entre culturas e do impacto dramático das decisões nesse contexto. 



O filme tem um cenário de conflito bélico. O cenário é mais inóspito e bruto. Tem o suspense da eclosão de uma tragédia a qualquer momento, porém é bem diferente da tensão e dos recursos narrativos de Guerra ao Terror, ainda que use de um ambiente no Oriente Médio. Pela narrativa, percebe-se que a diretora não tinha a intenção de fazer as escolhas de Kathryn Bigelow mas trabalhar muito mais no conflito pessoal de Jesper: o de ter perdido o irmão em uma guerra, tomar a decisão de voltar ao campo inimigo e demonstrar a humanidade de sua escolha. As melhores cenas nascem dos diálogos entre Jesper e Tarik e, também, da escolha bem acertada do roteiro ao criar um laço de afeto e de dependência do idioma entre o soldado e o interprete, fato que aproxima Tarik, jovem civil e do povo, mas já afetado por uma guerra ao perder o pai e ser perseguido por inimigos. Certamente, sem Tarik, o filme não teria o mesmo efeito, principalmente na carga emocional.


Entre Mundos tem um excelente trabalho de fotografia e uma direção bem realista, comum no trabalho da cineasta; porém, é diferente de Quando Partimos ao não entregar a mesma qualidade dramática. Ele poderia ter sido melhor desenvolvido na complexidade dos personagens e de como eles reagem àquele lugar. Há tentativas de aprofundar os conflitos que deixam um rastro de perguntas sem respostas ao expectador e que indicam que, provavelmente, essa foi a intenção da diretora. No geral, embora provoque um choque claro de como a realidade afegã é de aprisionamento e como os cidadãos com pensamentos de união, esperança e liberdade de ir e vir e de ser feliz em sua pátria sofrem as consequências dessa brutalidade, o filme deixa a brecha de que talvez caiba a nós perceber que as coisas são como são e que o filme não poderia ter entregue nada diferente a não ser essa contínua reflexão sem respostas claras e a de que há certa fatalidade na vida dos civis em conflitos do Oriente Médio.






Ficha técnica do filme: ImDB Entre Mundos

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