sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Mostra 2014 : O Retorno de Antígona (Na Kathese kai na koitas / Standing Aside, Watching) - 2014





Com produção da Grécia, O Retorno de Antígona é o segundo longa do diretor Yorgos Servetas, que neste filme possibilita um olhar contemporâneo de como a violência aumentou  dos anos 80 para os dias atuais no país. Na história, Antígona (Marina Symeou) é uma mulher de meia idade que retorna à sua pacata cidade grega após ficar um longo tempo fora. Ao chegar ao local, encontra os amigos, arranja um emprego de professora de inglês e inicia um namoro com o jovem Nikos (Giorgos Kafetzopoulos). A triste realidade começa a surgir: ela se confronta com a onda de violência na região, principalmente a submissão e  humilhação  sofridas por sua amiga Eleni (Marianthi Pantelopoulou), amante do tirano local Nodas (Nikos Georgakis), um homem excessivamente violento, misógino e controlador das vidas locais, inclusive a de Nikos, um dos seus empregados.


O longa é um filme frio e deprimente. Ele demonstra uma perspectiva muito pessimista sobre a violência, que é a que submete a pessoa à uma prisão social, a uma aceitação das regras de um homem violento e que catalisa outros comportamentos destrutivos como cúmplices dessa violência, tanto que outros personagens praticam delitos ou agem de forma violenta. Isso fica muito evidente em Nodas, que é dono de um negócio local e o 'animal' da cidade. Ele gosta de bater em mulher e essas cenas serão recorrentes. Também costuma verbalizar que todas as mulheres são putas e há uma forte característica machista no personagem a ponto de que, se ele morrer, não fará falta. Ele também não permite que nem Eleni e nem Nikos tenham vida própria e personifica aquele que sufoca vidas.  Ele impõe suas  regras nem que para isso use de força física ou de manipulação. Jamais aceita um não como resposta, o que sedimenta mais ainda aquele entorno violento. Ele é a personificação da violência no filme . Por outro lado, Antígona é a personificação do mito grego ao retornar à sua cidade, demonstrar sabedoria, afeto, lealdade e coragem e se impor contra essa violência. Consequentemente, ela começa a incomodar Nodas, que começará a atrapalhar sua permanência na cidade.


Na narrativa, a protagonista é o que tem de melhor, apesar de que poderia ter sido melhor desenvolvida em sua complexidade. Marina Symeou se destaca porque ela representa a geração nascida nos anos 80 e que reconhece que a Grécia mudou e se tornou mais violenta. A atriz demonstra bem como Antígona é forte e corajosa mas também amiga. Mais interessante é notar que, mesmo sendo contra a violência local, Antígona também precisa agir com agressividade para enfrentar esse meio, logo ela também tem que agir como uma heroína.  Esse contraponto de ser afetuosa e violenta é positivo porque será ela a que enfrentará o status quo da violência, mesmo que corra riscos e tenha perdas. Outro aspecto interessante é como as individualidades são impactadas pela violência ao  analisar os comportamentos de quem sofre a violência, principalmente Eleni e Nikos. Eles se tornam pessoas moralmente fracas ou fragilizadas e parecem não ter personalidade alguma para qualquer enfrentamento. Há situações em que o público pensará: como é possível se submeter à essa violência? Como é possível ceder ao perpetrador? Sim, é possível e esse é um problema muito mais que individual, é um problema social. 





Ficha técnica do filme . ImDB O Retorno de Antígona




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