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Por Cristiane Costa Ventos da liberdade ( The Wind that shakes the Barley ) de Ken Loach , vencedor da Palma de Ouro no Festival de...

Ventos da Liberdade ( The Wind that Shakes the Barley - 2006) , de Ken Loach



Por Cristiane Costa



Ventos da liberdade (The Wind that shakes the Barley) de Ken Loach, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2006, é um filme que vai além do desejo de independência e de liberdade que emerge dos conflitos durante a Guerra de Independência Irlandesa, o longa é um drama que adentra escolhas pessoais que ultrapassam as fronteiras da união familiar e relações interpessoais da infância e juventude e colocam os personagens com um foco central na crença e defesa de suas convicções ideológicas e políticas a qualquer custo. Um terreno perigoso, violento e controverso, no entanto, com a excepcional habilidade de direção de Ken Loach, sua evidente defesa pelo Socialismo e grandes atuações, o drama tem uma beleza ímpar pela luta pela liberdade.





Ambientado em 1920,  a história centraliza dois irmãos, Damian  (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney), unidos por uma causa desafiadora: eles se unem ao exército Republicado Irlandês (IRA) para lutar pela independência contra a Inglaterra. Além de soldados, são cidadãos da pequena comunidade rural desde crianças, e agem armados contra uma violência também armada, a da polícia. Essa adentra a casa da população local para espalhar o terror e o medo. Nos primeiros planos,  o cineasta evidencia a violência brutal e extremamente repressora da polícia a mando das autoridades inglesas. Ken Loach introduz o público em um cenário de violência física e, também, psicológica. Cenas de torturas, prisões, enfrentamentos armados e invasões a domicílios são comuns no roteiro. A abordagem policial é abrupta e sem lógica. Age como um grupo de mensageiros de um governo que deseja calar a população, humilhá-la, logo, nesse contexto não há diálogo entre os inimigos. Por conta desse enfoque da direção, Ventos da liberdade foi considerado anti-Britânico por alguns espectadores.






Porém, independente das questões históricas e suas polêmicas e a função advocatícia de Ken Loach por um mundo justo e livre  das amarras capitalistas, o longa tem dois grandes diferenciais em seu roteiro que o elevam a uma categoria de excelência em dramas sociais: ele aborda como uma guerra une e afasta as pessoas e se converte também em tragédias pessoais, familiares.  Apesar de ter um texto de difícil compreensão e bastante violência repressora, o que vale observar é o núcleo dos dois irmãos. De certa forma, eles mudam com o tempo e as relações ficam frágeis.   Traidores não são perdoados, mesmo que sejam pessoas conhecidas pela comunidade e cresceram juntos. Nisso está a contundente rachadura emocional do drama, que torna-se mais clara nas melhores cenas quando, por um ideal,  Damian e Teddy cruzam a linha entre a defesa por um lado da guerra e suas relações interpessoais. Ninguém está a salvo e, inevitavelmente, esses conflitos entre Irlanda e Inglaterra dilaceraram muitas famílias.






Não é uma abordagem nova em contextos de guerra, porém, no vigoroso Cinema social de Loach, a forma de dirigir os personagens e seus conflitos faz total diferença em comparação às produções Americanas, por exemplo. É um desejo pessoal do diretor, em primeiro lugar, e seus filmes são bem marcados por esta luta social. Ele contextualiza muito mais o coletivo de uma pequena comunidade na luta por seus direitos e, por conseguinte, o drama ganha uma dimensão civil, conduzida com um equilíbrio entre o controle da direção e a liberdade de interpretação dos atores. Tanto que, os conflitos  se agravam à medida que os problemas entre os irmãos se movem de uma guerra de independência Irlandesa para a Guerra Civil, depois do acordo conhecido como Irish Free State.  O cineasta consegue transitar a narrativa entre as esferas individuais e coletivas com excelente habilidade. 



Ken Loach é um diretor incrivelmente sofisticado para dirigir dramas realistas e sociais. É, acima de tudo, um diretor que sabe deixar o seu estilo de direção a partir da própria forma de decupar. A começar pela fotografia, que introduz o público na comunidade rural, em uma região onde o mundo pára por uns instantes e o campo de visão sob aquela realidade fica mais claro para a audiência. Ele coloca muitos personagens em um único plano e joga perfeitamente bem com os enquadramentos para ampliar esta visão coletiva do grupo, suas interações e ações.  A causa pela liberdade não se torna apenas desses irlandeses, mas uma causa que tem de tudo para ganhar a empatia da audiência não pelo seu aspecto político e ideológico, mas porque a liberdade é um valor universal e a repressão não pode ser aceita, de maneira alguma.









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