quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Corrente do Mal (It Follows - 2014), de David Robert Mitchell

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!


Estreia nos cinemas Brasileiros: 27 de Agosto



Por Cristiane Costa



Na tradição de filmes de terror e seus subgêneros, o público engajado com esse tipo de produção está acostumado às suas fórmulas desgastadas de roteiros e direção. Ainda assim, apreciam essa seara cinematográfica mesmo que seja para criticar os filmes depois. Quando realizadores lançam um longa-metragem de terror que propõe uma mudança de clima na narrativa, mais emocional e enigmática, e com planos bem decupados e fotografados por uma direção que mantém uma integridade no tom atmosférico,  podemos considerar que esse novo projeto é atrativo, vale a pena ser visto e, potencialmente, tem amplas condições de agradar mais pela direção do que pelo roteiro.  É o que acontece com o primeiro filme de terror do jovem diretor e roteirista David Robert Mitchell, que traz uma proposta narrativa contemporânea e intrigante, inspirada em um pesadelo quando ele era criança e facilmente aberta a variadas interpretações metafóricas. 







A história apresenta um grupo de amigos adolescentes que frequentam a casa das irmãs Jay Height (Maika Monroe) e Kelly Height (Lili Sepe). Jay é a jovem loira, bonita e desejada pelos rapazes, entre eles, seu leal e recatado amigo de infância Paul (Keir Gilchrist) pelo qual ela não se interessa sexualmente. Na flor da idade e com a libido em alta, ela começa a desabrochar sua sexualidade. Após uma transa com um dos seus paqueras, ela começa a ser perseguida por forças sobrenaturais mortais que somente ela e os outros amaldiçoados da história conseguem enxergar.  O foco central da narrativa é Jay, a perseguição e o medo devastador que toma conta de sua rotina. Sua beleza e sex appeal lhe trarão mais problemas que soluções. Sua vida praticamente acabou. Vive uma maldição. Não há paz. As pessoas estranhas que a perseguem não se comunicam, não tem um passado, nada é dito de onde elas são e por que estão ali, apenas perseguem-na como uma assustadora e incontrolável corrente do mal. Nesse cenário misterioso, o grande acerto do roteiro é a ideia do "it follows", da perseguição misteriosa, do conceito moderno de Stalker  e da paranoia, medo e aprisionamento da jovem. 






Não é uma temática nova e a história é bem simples, porém o  filme propõe um reinvenção na narrativa e pode ser interpretado como cada um desejar. Nesse caso, a forma como Jay passa a ser perseguida por forças ocultas começou com uma relação sexual, portanto, a sexualidade na transição da adolescência para a fase adulta e todo o emaranhado de questões que a acompanham como  medos, angústia,  frustração, doença, insegurança, aceitação, rejeição,  amor e prazer é uma das vias de análise desse filme e há várias cenas que permitem essa interpretação, assim como, existe a possibilidade de concluir que o filme é belo com o seu sensível desdobramento que evoca o amor e o livre arbítrio por uma escolha difícil, e também, achá-lo uma tragédia pessoal como se Jay tivesse sido infectada por um vírus incurável, uma dramática consequência por transar casualmente com caras que não a amam e que agem como canalhas repulsivos. Há espaço para tratar o longa como uma provocação à sociedade contemporânea na qual somos observados e perseguidos de variadas formas, muitas vezes, dissimuladas, desconhecidas e destrutivas.






A base do terror é assustar, provocar medo, repulsa e ansiedade. Todos esses sentimentos acontecem aqui a um nível de tensão máxima. O diretor sabe exatamente como dar o tom de suspense e a atriz Maika Monroe realiza uma crível interpretação, deixando bem evidente a sua vulnerabilidade emocional de lidar com a situação e precisar do apoio dos amigos. Ademais, o grande diferencial de A Corrente do Mal é a combinação  de direção, trilha sonora, design de produção e fotografia, em especial, os dois últimos com uma aproximação artística retrô, uma pegada cult terror anos 70  e 80, porém com mais frescor e uma beleza fotográfica expressiva e moderna assinada por Mike Gioulakis. A excelente trilha sonora do Disasterpeace  está plenamente aderente à composição da mise en scène e coopera para criar o mood nervoso e estressante com batidas em crescente exploração da sensação de suspense e horror psicológico. Há imperdíveis canções como HeelsTitle, Old Maid Company, Lakeward,  Greg e Father que intensificam o medo ou ansiedade. Por suas boas qualidades para o gênero, o filme foi exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, na Seleção Oficial do Festival de Sundance e ganhou as categorias de melhor filme e melhor roteiro do Austin Fantastic Fest.










Assim como acontece em "Goodnight Mommy", aqui o público vê uma proposta de direção sofisticada e sinérgica com os elementos em cena para criar um ambiente  isolado e pouco frequentado. A escolha das locações em uma cidade quase vazia, com um elenco reduzido, bom uso do espaço com tomadas internas na casa e externas na estrada, entre outras, e uma fotografia que realiza excelentes enquadramentos de planos detalhe, plano médio e em close up  para suspender ao máximo qualquer grande ação são estratégias que juntas deixam os nervos à flor da pele. Dessa forma, o longa trabalha mais o drama e o horror psicológico que o terror convencional. A todo instante, podemos se colocar no lugar de Jay : E se eu fosse perseguido como ela? O que eu faria?Jay será morta a qualquer momento ou se suicidará movida pela loucura e paranoia? Ela passará a maldição adiante transando com outro homem? Quem é a próxima vítima? O que farão seus amigos? Há alguma escapatória? Só sabemos que as forças do mal não vão deixar de perseguí-la e o medo está em todo o canto agindo como um stalker do além.





Ficha técnica do filme ImDB Corrente do Mal
Distribuição: Califórnia Filmes

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