quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Party Girl (2015), de Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis




Por Cristiane Costa



O prêmio Caméra D'Or do Festival de Cannes têm revelado grandes filmes nos últimos anos, com destaque para dramas com consistente combinação de ficção e realidade e uma direção vigorosa que equilibra estas fronteiras narrativas, entre eles: "Quando meus pais não estão em casa" (Ilo Ilo, Cingapura), e o mais recente, Party Girl (França), o primeiro longa-metragem do trio de jovens diretores  Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis,  filme de abertura do Un Certain Regard e vencedor do prêmio de conjunto desta seção em Cannes 2014. Os realizadores estudaram juntos em Paris e a história de Angélique Litzenburger, mãe do co-diretor Samuel Theis, foi a inspiração para o roteiro. No elenco, além de Angélique, Samuel e seus irmãos Cynthia, Séverine e Mario, eles escalaram outros não atores. 




Angélique é a Party Girl, uma hostess de 60 anos que vive em Lorraine, na fronteira franco-germânica. Os primeiros planos nos conduzem aos prazeres de um cabaré da região.  Baixa iluminação, cores quentes e difusas, mulheres seminuas que dançam e entretém clientes. Angélique circula com o charme da experiência e uma ar de proprietária do local. Após uma jornada dedicada à vida noturna, à sedução, à liberdade e aos homens, ela está em uma nova fase: recebeu um pedido de casamento de um cliente que se apaixonou por ela. No auge de sua maturidade e já sentindo os pesados efeitos do tempo na profissão e no corpo, ela deseja dar-se uma chance no amor e arriscar-se nas convenções do casamento.  O que acontecerá à esta fascinante Party Girl?  Observá-la e perceber se há algo de Angélique em nós é o grande prazer deste filme. Para as mulheres que têm espírito livre e autonomia, sem abrir mão do valor da família, Party Girl tem de tudo para ser marcante.




O Cinema é um incrível salão de visitas nos quais conhecemos personagens tão reais e encantadores que muito rapidamente estabelecemos uma conexão intimista com eles. Os mais inesquecíveis são tão universais em suas emoções que seria possível ver parte ou muito de nós ao vê-los refletidos em um espelho. Eles revelam profundas nuances do ego que, em algum momento de mudanças ou de decisões, desabrocha para uma nova perspectiva de vida, ainda que isso seja um desafio pessoal.  Angélique é uma destas pessoas de carne, osso e coração, uma personagem intensa e exuberante, mas também, carregada de falhas, inseguranças e dúvidas comuns em nossa vulnerável humanidade. É impossível não se identificar com ela, ou pelo menos, compreender seus sentimentos e atitudes.


A narrativa é bem desenvolvida com um olhar exploratório que transita entre a ficção e a realidade. Não importa tanto os homens que passaram na vida da protagonista e nem as noitadas sedutoras em um cabaré, mas Angélique e seu olhar para uma mudança pessoal. Como ela se comporta perante o noivo, como ela interage com os filhos e com as colegas de cabaré. O drama é mais intimista e atrativo ao enfocar o quanto custaria para uma mulher que se acostumou à liberdade da vida noturna, ter a oportunidade de ser uma dona de casa e ter que abrir mão de caprichos e rotinas pessoais para conviver com um homem apaixonado. As dúvidas dela estão além de sua vivência em cabarés e do casamento, elas estão universalmente ligadas à questão da liberdade de cada um de nós e como essa liberdade é um valor tão poderoso que costuma esbarrar nas limitações da vida real. Neste sentido, o filme é fascinante. Angélique carrega a essência de muitas das contradições humanas e é um maravilhoso retrato de que  temos a nossa necessidade de estabelecer uma relação de companheirismo e amor com outra pessoa, de estar abertos à felicidade da vida a dois e a todas as suas delícias e pesares, mas também, podemos escolher outros caminhos atípicos. O mais importante é não se boicotar.




De forma muito acertada, o roteiro possibilita que Angélique transite no convívio familiar e entre outras mulheres do cabaré e como estes personagens se colocam diante da nova fase de Angélique. A forma de expor estas relações traz o diferencial do não julgamento moralista. Os filhos conversam com a mãe e o noivo e ninguém está ali para apontar o dedo e dizer: "mãe, você vai se casar após ter tido uma vida de cabaré de longos anos?", "mãe, por que você foi uma hostess de cabaré?", ou perguntar ao futuro noivo: "como é para você se casar com uma mulher tão não convencional?"Sua relação com a família é agradável e todos têm uma conexão afetuosa, cada um à sua maneira são personagens ficcionais e são pessoas reais, demonstrando que o longa tem uma virtuosa adequação da direção de atores à liberdade do elenco. Nenhum preconceito ou julgamento é necessário nesta família. Ela é real como ocorre no bom Cinema independente. O encanto de Party Girl é unir o afeto familiar com a sedução e a liberdade. 




Angélique é envolvente em uma excelente atuação que revela e oculta sua vida, que propicia que o público fique seduzido por ela, sua história, como era sua vida antes do pedido de casamento e como será depois do casamento. Só uma mulher como ela, autêntica Party Girl, poderia caber em uma fantástica música de mesmo nome como a da ChinawomanEla está ali  plenamente de coração aberto em reviver sua história e com sua aura de mulher que aproveitou ao máximo a vida fora dos padrões convencionais, mas também, ela mantém sua integridade, seu mistério.   É uma personagem real que permanece na memória. 




Ficha técnica do filme Party Girl
Distribuição Supo Mungam Films

Um comentário:

  1. Espero poder assistir esse filme logo, fiquei encantada pela sinopse, mas especialmente pela capa... a Angelique me lembra muito a minha primeira professora, chama Ângela...veja só. rs Essa ideia de misturar realidade e ficção! Já me apaixonei!

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