terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Dama Dourada (Woman in Gold - 2014), de Simon Curtis




Por Cristiane Costa


Para representar Maria Altmann, uma nobre dama judia que sofreu o comovente drama do Holocausto, apenas uma autêntica dama do Cinema poderia representar esse papel com honra e louvores: Helen Mirren. Em A Dama Dourada (Woman in Gold, EUA/Inglaterra), novo longa de Simon Curtis (de Sete Dias com Marilyn), a atriz interpreta uma mulher inspiradora que se entrega à uma jornada pela busca de justiça para uma restituição legal. Durante a Segunda Guerra Mundial, Maria Altmann, pertencente à uma família patrocinadora de obras de Artes em Viena,  os Bloch - Bauer, foge da Áustria e imigra para Los Angeles. Ela vê sua família em uma dolorosa experiência de ruptura , tanto material como emocional, e testemunha a humilhação que os judeus passaram diante dos nazistas. Já idosa e, em parceria com o jovem advogado Randy Schoenberg (Ryan Reynolds) , ela decide recuperar  os quadros de sua família que foram roubados pelos Nazistas, entre eles o célebre " Retrato de Adele Bloch - Bauer" do pintor Gustav Klimt, obra conhecida como "A Dama Dourada", que teve ADELE, a estimada tia de Maria como musa retratada.





A Dama Dourada: Retrato de Adele Bloch-Bauer



Além da experiente direção de Simon Curtis em escolher filmes com protagonistas femininas, o projeto nasceu a partir de uma parceria entre o diretor e a BBC Films, do qual faz parte experientes profissionais como David M. Thompson, ex-chefe da BBC films e um dos produtores executivos mais influentes e com bons filmes no currículo (Billy Elliot, Coisas belas e sujas, Foi apenas um sonho, Educação, entre outros), além do diretor de fotografia Ross Emery (do recente O Doador de memórias) e Hans Zimmer como compositor. No elenco, também participam Daniel Brühl (reporter Hubertus Czernin), Katie Holmes (Pam Schoenberg, esposa de Randy) e Tatiana Maslany (Jovem Maria Altmann). A responsabilidade pelo roteiro ficou para o grego Alexi Kaye Campbell, cuja experiência vem do teatro com destaque para a peça "The Pride". A escolha por ele foi uma decisão baseada em uma aposta no seu potencial e na confiança de Simon Curtis e dos produtores, considerando que esse é o seu primeiro roteiro para Cinema. 






O mérito inicial do projeto foi trazer para o público uma figura feminina não muito conhecida globalmente e que é uma das filhas do Holocausto. Mesmo com seu anonimato nos Estados Unidos, ela é parte de uma família que valorizava a ARTE na sociedade Austríaca e que injustamente foi roubada. Muitas obras de Arte foram saqueadas por nazistas. Criminosos que invadiam casas alheias e usavam o poder político e a repressão para roubar patrimônios.  O interesse especial de Simon Curtis na notável Maria Altmann é colocar luz e câmera em uma história cheia de humanidade,  como uma jovem perdeu o vínculo com a terra natal em um cenário caótico de guerra, porém, não se esqueceu de suas origens, de honrar o nome da família. Tendo falecido em 2011 aos 94 anos, ela guardou na lembrança as cicatrizes do Holocausto e de uma separação familiar  irreparável. Ainda que o foco do longa seja abordar seu empenho  e o de Randy pela restituição das obras de Arte, o filme tem um valor acima de bens materiais e que o eleva a um belíssimo drama sobre uma mulher que nos mostra sua identidade e a memória de seus pais e tios.  





Para um iniciante em roteiros de Cinema, a história contada por Alexi Kaye Campbell é eficiente e legitima seu potencial para novos longas. Ele não desenvolve  bem a dinâmica de tribunal e as especificidades do processo de restituição dos quadros, porém, isso é compreensível tendo em vista que um dos propósitos desse projeto é dividir os fios narrativos entre passado e presente. Se a história fosse contada apenas no presente ou com poucas cenas da época Nazista, o roteirista teria mais tempo para desenvolver a dinâmica jurídica. Assim, ele não se arrisca a aprofundar muito as mazelas emocionais da protagonista e transformar o filme em um drama pesado ou uma novela. Pelo contrário, o roteirista divide harmoniosamente a narrativa na interação entre as personagens de Helen Mirren e Ryan  Reynolds, a boa energia entre eles e a confiança que vai sendo ganha à medida que o advogado torna-se mais confiante e astuto e leva o caso à Suprema Corte Americana. As lacunas do roteiro estão mais nítidas na participação de coadjuvantes como Daniel Brühl e Katie Holmes que parecem  figurantes e poderiam ser cortados da história, sem riscos para a evolução da narrativa. Eles são pouco aproveitados, ainda que eles tragam componentes mais afetivos, respectivamente, como a de um repórter que quer ajudar na causa de restituição por um motivo pessoal e a de uma mãe de família que apoia o marido em um objetivo mesmo que estejam com dívidas e dificuldades financeiras.





Quanto à direção, Simon Curtis equilibra os tempos narrativos presente e passado com uma descomplicada orquestração entre os planos da atualidade e os flashbacks, transita ações entre 3 locações (Londres, Los Angeles e Viena) e se empenha em lidar com um roteiro que apresenta 2 idiomas (inglês e alemão). Em comparação a Sete Dias com Marilyn, a direção de A Dama Dourada é muito mais inspiradora, agradável. Ao contrário de Marilyn Monroe, que é retratada como uma mulher fraca e problemática no péssimo roteiro de Adrian Hodges em um filme que a subestima, aqui, a história é comovente, empática. É natural torcer por Maria Altmann durante as apelações judiciais para a restituição dos quadros e estar com ela a cada desafio, cada conquista.  O longa tem sentimento e razão, leve humor e lágrimas de tristes lembranças, assim a atuação de Helen Mirren é o carro chefe, a razão de assistir ao filme. É exatamente ela que evoca o significado nobre da palavra DAMA e cria o elo de carisma e empatia com o público, com a história de Maria  Altmann. Gentil, elegante, corajosa, justa,  bem humorada, sensível , humana, todas as virtudes de uma grande senhora estão em Helen Mirren.




Ficha técnica do filme ImDB A DAMA Dourada 
Distribuição: Diamond Films





Confira vídeo com Helen Mirren falando sobre seu papel

Um comentário:

  1. Olá boa tarde. Obrigado por seu trabalho. Acabei de compartilhar este post no meu face. Assisti a pouco o filme A DAMA DOURADA. Gostei e nesse filme uma sequência da "jornada do herói", como contada por Joseph Campbell em suas obras sobre mitologia ( ex: o herói de mil faces ).
    Foi um prazer ter visitado seu blog. Parabéns.
    https://www.facebook.com/vidaafirma.relampagoeluar

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