quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett – The Trial of Viviane Amsalem - 2014), de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz)



Por Cristiane Costa


O que fazer quando o direito de uma mulher pela sua liberdade esbarra no conservadorismo da tradição de Israel e nas regras judaicas ortodoxas que minam a evolução de qualquer processo judicial por um divórcio?  O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett - the trial of Viviane Amsalem) é o terceiro filme da trilogia composta por Ve'Lakhta Lehe Isha (2004) e Shiva (2008), dirigidos e roteirizados pelos irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz que retratam os conflitos familiares e o encarceramento social da mulher. Nele, a liberdade feminina é um direito a ser perseguido em um contexto aprisionante.

Indicado na categoria de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro de 2015 e selecionado para a Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2014, essa dramática história nos joga no ambiente claustrofóbico e opressor  de um tribunal formado por rabinos, no qual Viviane (Ronit Elkabetz) luta pelo divórcio durante 5 anos  diante do intransigente marido Elisha Amsalem (Simon Abkarian). 






Por que o julgamento não é simples? Não há leis civis para o casamento e nem para o divórcio em Israel, portanto, Viviane depende do consentimento do marido para obter o divórcio. Mesmo após muitos anos de casamento, ter criado os filhos e seguido as tradições, tentar ser amada e respeitada, tudo em vão, ela está em um processo doloroso de exigir um direito que é inerente ao individuo (ou pelo menos, deveria ser: a liberdade). Porém, Elisha comanda mais a situação do que os próprios juízes e tem uma postura física e moral extremamente pesada e inflexível.


Toda a construção da narrativa é realizada para dificultar ao máximo o processo, enclausurando ela, o marido, os advogados, testemunhas e os rabinos em um espaço físico reduzido e em um jogo de confissões, desabafos e punições que trazem os componentes culturais, sociais e religiosos de Israel que moldam a forma como a mulher tem que ser tratada. A mulher não tem muita voz, logo, por mais que Viviane destaca-se como uma libertária dessas amarras, ela está implorando pelo divórcio e os argumentos da parte do marido são realizados para desmoralizá-la, cercá-la de todos os lados, fazê-la desistir. 





A diretora, e também, excelente atriz Ronit Elkabetz conduz a sequência de planos em que Viviane aparece com a maestria de quem vivencia essa cultura e sabe abordar esse tipo de opressão.  Posicionamentos de câmera rígidos como se não houvesse nem mesmo espaço para a câmera testemunhar o julgamento, ainda assim, ali está ela nos colocando para acompanhar o processo. Ela tem uma mensagem contundente a transmitir ao público, dessa forma, somos convidados a ser como um júri que espia pela lente da câmera. Os enquadramentos próximos, seja focalizando os personagens de frente como close ups e planos médios, seja pelo lado ou com a câmera no fundo, intensificam o drama  do casal e deixam mais transparente que não há mais afeto e nem diálogo na relação, não o amor do companheirismo e da confiança.  


Na verdade, ambos estão presos a uma regra que não suporta a resolução do conflito em igualdade de condições e direito. Essa é a grande ironia! Eles não querem nem mesmo conversar, logo, por que manter um casamento de aparências? O comportamento de Elisha é um efeito colateral da tradição machista que trata a mulher como objeto de posse.  Eles se entreolham com desprezo e raiva, assim, na visão do marido, sua esposa lhe pertence custe o que custar, nem que seja para serem eternamente infelizes. É como dar poder a quem não sabe lidar com ele.  Ele tem por ela um "amor" estranho e possessivo. Moralmente, Elisha não quer ser envergonhado como o homem divorciado em sua comunidade. De alguma forma, sabemos que sua rigidez é uma consequência do seu papel como marido na instituição familiar nesse país.






Uma das grandes forças narrativas é a interpretação de Ronit Elkabetz. Ela é como uma mulher bela, inspiradora e corajosa que desafia o status quoA postura de Viviane em cena nunca é de uma mulher fraca, mas, a de alguém que está encarando o problema de frente, ainda que há momentos nos quais o desespero e o cansaço querem vencê-la e ela tem que se humilhar e ter uma paciência maior que a de Jó. No mais, um dos maiores incômodos provocados pela história é que não há um motivo realmente sensato para prendê-la a esse casamento.  Como a liberdade de alguém depende do outro e justamente de um marido arrogante? 


Para nós, que pertencemos a uma sociedade ocidental que tem leis civis para a dissolução de um  casamento, assistir ao julgamento opressivo provoca tensão e riso nervoso, um inconformismo que transita entre a comédia e o drama, um incômodo que nos compele a querer dizer algo ou agir para favorecer a liberdade individual, o direito de se ligar a uma instituição como o casamento e também sair dele quando todas as tentativas de felicidade não dão mais certo. Sob a perspectiva do humor, o roteiro ridiculariza os próprios argumentos usados pelo advogado de Elisha e testemunhas, portanto, o filme tem uma boa dose de efeito cômico, ainda que seja bastante opressivo como experiência cinematográfica, em especial, para espectadoras mulheres que jamais concordariam em ingressar em um casamento dessa natureza e, muito menos, em levar 5 anos ou mais para uma concessão de divórcio.




O longa funciona como um grito pela liberdade. Intenso, exaustivo, sufocante, necessário.  Sua natureza narrativa é tão forte que chega a incomodar o aprisionamento de Viviane a um casamento falido e perante um tribunal que pouco lhe ajuda. Os rabinos ortodoxos são representantes de uma instituição falha que nada pode fazer por ela e ainda se acha no direito de intervir e mediar o conflito. Sendo assim, chega a ser cômico como esses rabinos realizam perguntas e se comportam como autoridade. Parecem fantoches a cumprir um ritual. No fundo, é como rir do absurdo de uma situação que, em sua essência, é trágica. Uma triste situação que precisa ser exposta globalmente para ser ouvida e haver uma evolução nas leis judaicas para a tratativa do assunto. 




Ficha técnica do filme no ImDB O julgamento de Viviane Amsalem
Distribuição Imovision





 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière