sábado, 22 de agosto de 2015

Jerichow (2008), de Christian Petzold




Por Cristiane Costa



Christian Petzold alcançou credibilidade no Cinema Europeu em festivais como o de Berlim, Veneza, Londres e European Film Awards e destaca-se como um dos melhores cineastas contemporâneos do Cinema Alemão com uma filmografia bem harmônica, regular e em evolução na qual há pequenas grandes jóias como Toter Mann (2002), Yella (2007), Barbara (2012) e o mais recente Phoenix (2014). Admirador do cineasta Rainer Werner Fassbinder, Petzold  traz as influências de sua genialidade, pesquisa e compreensão das questões individuais e coletivas do pós - guerra, da Alemanha separatista e da posterior Unificação  e seus reflexos na identidade, condição social, geográfica, cultural e econômica e relacionamento humano do país, além do mais, ele escreve roteiros com enigmáticas personagens femininas. Assim como Fassbinder que trabalhava de forma recorrente com algumas atrizes como Hanna Schygulla, Petzold tem uma parceria leal com a excepcional Nina Hoss, sua atriz fetiche e protagonista da maioria dos seus filmes.




Jerichow é uma coprodução Alemanha e Turquia, considerado um neo-noir com características bem específicas das rachaduras existencialistas na Alemanha, o filme é inspirado no clássico de James Cain, O Destino bate à sua porta (The Postman always rings twice, 1934), refilmado em 1981 por Bob Rafelson com Jessica Lange e Jack Nicholson como amantes; entretanto são filmes bem diferentes no roteiro e na execução. Em um triângulo amoroso ambientado no vilarejo de Jericó no Nordeste Alemão e com uma estrutura narrativa que remete à uma fábula social moderna, a história apresenta Ali Özkam (Hilmi Sözer), um empresário alemão de origem Turca. Casado com a bela e misteriosa Laura (Nina Hoss) por quem nutre um misto de amor e ciúme incontrolável, ele é um solitário empreendedor que tem enfrentado problemas de fraudes e traição nos negócios e é viciado em álcool. Ao conhecer Thomas (Benno Fürmann), um fracassado soldado veterano da guerra no Afeganistão, ele o contrata como motorista e auxiliar geral. Thomas e Laura sentem uma irresistível atração sexual e afetiva e, inevitavelmente, a história é desenvolvida com um intrigante triângulo amoroso que apresenta variadas nuances comportamentais de cinismo, suspeita, paixão, crime e jogo de interesses.





Esse roteiro escrito por Petzold coloca os amantes em uma prisão existencial, dolorosa e sem uma feliz saída a todos. Cada um, à sua maneira, carrega em si a própria tragédia pessoal e esse é um dos mais interessantes apelos da história. Todos têm de tudo para envolver o público em um sentimento de misericórdia por eles, ainda que a direção mantenha um distanciamento na narrativa e apresente as falhas morais de cada um. Embora não haja um desenvolvimento profundo dos personagens, a narrativa consegue criar um elo de empatia com cada um deles sem fazer com que o público os condene. Ninguém é santo e está plenamente bem. Ali é um homem endinheirado com uma confortável casa em uma bucólica região, tem uma bonita e submissa esposa, um negócio que controla os bares da região e um funcionário que tem sido eficiente e confiável. Aparentemente Ali não tem problemas, porém seu status financeiro e social não lhe eleva à condição de um homem alemão de família feliz. É como uma crise de identidade, assim, apela para a violência, o ciúme, a desconfiança e a bebedeira. Por outro lado, a paixão de Laura por Thomas é fruto da fragilidade do casamento com Ali, que pode ser melhor compreendida no roteiro à medida que o público desvenda o porquê Laura está casada com Ali e como ela se sente nesse relacionamento. 









Ainda que o ótimo ator Benno Fürmann tenha uma atuação mais endurecida por conta do estilo decadente de seu personagem e das pouquíssimas falas que ele tem no roteiro, seu trabalho exige mais uma miscelânea de olhares, gestos e silêncios, agrega bastante valor à natureza da paixão, do adultério e do crime e tem expressivas características dos personagens masculinos do  gênero noir / neo-noir. Ele tem uma boa forma, sedutora e viril aparência e é misterioso. Por ter um histórico duvidoso, um comportamento quieto e que levanta suspeitas de sua moralidade, ele é o amante certo para Laura. Um homem calejado, solitário e apaixonado, ele é o típico fracassado e sem dinheiro, que se deixa seduzir e se apaixonar pela mulher, que não pode oferecer uma vida confortável para ela. De uma forma bem acertada  e sutilmente bem interpretada, Fürmann é um personagem dramático que também desperta piedade. Ele é um completo "loser" que retorna de uma guerra falido  como se não existisse para a sociedade. Como a maioria dos homens fracassados em histórias noir/neo-noir, ele transita entre os lados de bom moço que merece uma segunda chance e o lado cínico e corruptível que, a qualquer momento, pode matar, roubar e trair. Sua interação com Ali garante algumas das melhores cenas do longa, em especial, o vínculo de confiança que, aos poucos, se estabelece entre eles e a difícil encruzilhada de Thomas, dividido entre o fingimento, a traição e a paixão.





Uma das relíquias do Cinema Alemão moderno, a  atriz Nina Hoss dá o tom certo à Laura como uma femme fatale que depende financeiramente do marido e não repreende os seus desejos sexuais. Em uma vizinhança pequena na qual, a qualquer momento, ela pode ser descoberta como uma adúltera e ser expulsa de casa, ela se entrega à paixão e conserva o caráter duvidoso das mulheres do Cinema noir / neo noir com suas mentiras e omissões. Entretanto, existe uma fatalidade atrativa em seu personagem: ela é uma loser como Thomas. Essa outra dimensão econômica e social da mulher nessa sociedade é uma das principais tragédias pessoais da história. Ela não pode vivenciar o amor pleno, a não ser que elimine o marido. Mas ele e Thomas vão viver do que? De vento e de dívidas? Com um leve clima obscuro de thriller, sua personalidade é a da mulher colocada em dúvida.  Assim como seu amante, ela não é confiável, ainda que  eles tenham uma química irresistível nas cenas e demonstrem o desabrochar de um amor que deveria ser vivenciado com alegria e liberdade, eles são capazes de manchar o triângulo amoroso com sangue. 




A cena que Thomas e Laura dançam ao som da bela canção Sen Ağlama, da cantora turca Sezen Aksu:  um sublime e triste momento de uma paixão incontrolável.




Jerichow é uma boa combinação de suspense com drama e é imperdível dentre os presentes na filmografia do cineasta. O mais degustativo na experiência com o longa é observar como Christian Petzold conduz a câmera com um realismo que nos leva à uma valiosa análise dos dramas individuais e  de relacionamentos, bem coerente com seu background como integrante da Berlin School, além de ser um diretor que dá continuidade às influências de Fassbinder sobre a realidade alemã e seus impactos nas individualidades e no coletivo. Ele tem um estilo bem independente e clínico que deixa os conflitos dos personagens falarem por si só, por consequência, o público vê uma porta aberta na narrativa, pode entrar à vontade e tem ampla liberdade de observar, analisar e refletir sobre a história durante e após longos dias terminada a sessão.  Nesse aspecto, ele trabalha bem a direção de atores, inclusive sua musa Nina Hoss, uma força da natureza, que tem um estilo discreto de atuar, porém de forte impacto em cena. Tranquilamente ela dá credibilidade à história com sua madura e fantástica interpretação e é uma das melhores atrizes do Cinema contemporâneo.



Ficha técnica do filme ImDB Jerichow 





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