domingo, 30 de agosto de 2015

CREEP (2014), de Patrick Brice

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!




Por Cristiane Costa



Nesta  semana de filmes mais recentes e estilizados no terror / horror que estão sendo abordados aqui, cabe dar espaço a bem intencionados projetos que usam baixo orçamento e resgatam referências clássicas do gênero como, por exemplo, o "Found Footage Horror film", subgênero do horror consagrado em filmes como Bruxa de Blair (1999), Atividade Paranormal (2007) e [REC] (2007) nos quais há uma narrativa documental filmada com câmera na mão com um desconfortável efeito de tremor e descontrole, dá uma sensação aterrorizante de realismo com iminente insegurança e perigo. As filmagens são caseiras com elenco reduzido e, em alguns casos, amador ou em início de carreira. É caso de CREEP (2014), dirigido por Patrick Brice ("The Overnight"), que atua na história ao lado de Mark Duplass e apresenta um filme psicologicamente bizarro, que combina comédia, suspense e um leve toque de horror. 




Mark Duplass:  "Creepy guy"


Aaron (Patrick Brice) é um sujeito com dificuldades financeiras que responde a um anúncio para prestação de serviços de filmagem. O dinheiro e a necessidade dele compensam o sacrifício de subir a serra e se meter em uma casa isolada nas montanhas com um desconhecido. Ele encontra seu cliente, Josef (Mark Duplass), um homem totalmente estranho, com comportamento duvidoso, nitidamente com sérios distúrbios mentais. A princípio, Aaron se sensibiliza com a história dele. Josef está com uma doença terrível e quer gravar um vídeo pessoal para deixar ao filho, porém  à medida que a convivência e as filmagens acontecem, Aaron percebe que Josef é insano.


CREEP é bem distinto dos grandes clássicos "Found Footage" por ser pouco estilizado no horror tradicional. A sua execução abre uma lacuna que faz jus ao título: Ele é "creepy", bem esquisito e, assim, ele não precisa ser levado tão a sério. Não menos, atiça a curiosidade pelo suspense.  É como uma filmagem que, certo dia, um diretor sem grana decidiu realizar com um amigo. É o tipo de projeto  ame-o ou odeie-o, pois ele consegue ter ao mesmo tempo uma história tola e, também, trazer um frescor para o subgênero com uma história tragicômica que mescla sociopatia, solidão e aceitação.


Mas o que o filme tem de bom? Duas virtudes valem ser mencionadas.




Patrick Brice: Com câmera na mão e em cena



A primeira é a sua capacidade  de mostrar o quão bizarro um vilão pode ser e o quão condescendente uma vítima também, com destaque para a atuação cômica de Mark Duplass. A relação entre Aaron e Josef têm uma natureza estranha e um aceita o outro, por mais bizarra que seja a intenção do longa. Pouco a pouco, essa interação contribui com o suspense e dá vontade de saber como todas as bobagens vão acabar. Embora haja uma tolerância de Aaron ao seu sociopata cliente, mais pautada na necessidade da grana e na impotência e/ou insegurança de lidar com uma pessoa assustadora, Josef é um risco à qualquer pessoa por ter um perfil psicológico com severo desiquilíbrio, de difícil convivência social. É um ser isolado, solitário, que pode contar verdades ou mentiras, sumir do mapa ou ser obsessivo e stalker,  dizer que ama ou odeia. Esse uso de máscaras na interação dos dois é interessante pois existe um lado oculto nesse contexto. Não é possível visualizar claramente o que cada um é e sente. A constante sensação de estranhamento é permanente.





Seu segundo aspecto positivo  é  o empreendedorismo do diretor e a sinérgica colaboração entre ele e Mark ao realizar um "Found Footage" apenas com 2 personagens, com pouquíssimos recursos financeiros e uma boa dose de instinto. É uma filmagem muito caseira e minimalista que ainda consegue ter um frescor em um subgênero que já não tem sido muito utilizado e tem aparecido eventualmente em cortes pontuais no processo de decupagem. Não são todos os diretores e nem atores que conseguem criar essa atmosfera "creepy", sendo assim, a dupla funcionou bem e tem potencial para melhores trabalhos. Patrick Brice já tinha experiência em documentários e filmes independentes, o que vem a somar ao projeto. 






O que interessa aqui, sob a perspectiva da direção, é que ele realiza um PVC film (ponto de vista da câmera) com muita liberdade e variedade, usa e abusa de diversos posicionamentos de câmera com diferentes pontos de vista:  filma a si mesmo, filma apenas Mark, coloca a câmera para filmar um espaço vazio ou para filmar ele e Mark juntos etc. Com isso, a todo o momento o espectador é chamado para participar ativamente da história como uma real testemunha dessa relação. O longa começa com um bom ritmo e com momentos hilariantes, depois fica mais sinistro, melancólico, tenso.  O diretor reverencia o gênero em algumas cenas com planos que trazem elementos como a figura do lobisomem, do psicopata em uma floresta,  do machado, da máscara etc. No geral, o filme não perde o seu background cômico até o clímax, por isso, é mais fácil rir com tanta bizarrice do que ficar com medo.








Ficha técnica do filme CREEP

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