sexta-feira, 16 de julho de 2010

Brilho de uma Paixão (Bright Star) - 2009


"Não há no mundo nada tão brilhante e delicado.
Você tem me absorvido"


Reconhecida como uma diretora e roteirista que enfoca os dramas de costumes nos quais as mulheres são protagonistas, a Neozelandesa Jane Campion, cineasta de Brilho de uma paixão, foi um marco em Cannes ao ganhar a Palma de Ouro e, no Oscar, o prêmio de melhor argumentista por seu magnífico trabalho em O Piano (1993). Eram tempos aúreos para Campion não somente pela qualidade do longa-metragem em si e as estatuetas de Oscar para ela e as atrizes Holly Hunter e Anna Paquin, mas pelo pioneiro reconhecimento : Jane Campion foi a primeira mulher a receber o valioso 'Palm D'Or', repercutindo esplendidamente na mídia cinematográfica e na desbravadora história das mulheres do Cinema, assim como o recente reconhecimento de Kathryn Bigelow (de Guerra ao Terror), a primeira mulher a receber o Oscar de Melhor Direção (2010). Após o sucesso de Piano, Campion não conseguiu emplacar um grande trabalho, transformou-se em uma cineasta de uma obra-prima só, pelo menos, até provar o contrário.




"Quase desejo que fôssemos borboletas e vivéssemos somente três dias de Verão".



Com o lançamento do drama romântico do século XIX, Brilho de uma paixão, inspirado na história de amor entre o poeta John Keats (Ben Whishaw) e Fanny Brawne (Annie Cornish), Jane Campion explora poeticamente o amor que encanta os corações, e cuja plena realização é afetada pelo dinheiro, pela doença, pela morte, pelo preconceito, etc. Fanny Brawne é uma jovem que cria e costura seus figurinos, já demostra ser à frente de seu tempo com opinião formada e curiosidade em crescente evolução. Sua mãe aluga quartos para John Keats e seu melhor amigo, Brown (Paul Scheider) e, a partir deste cenário, Fanny e Keats se aproximam, ela se interessa por sua poesia, eles começam a amizade e o cortejo. Keats é um poeta que ainda não é reconhecido e é perseguido por uma aura de fracasso já que não tem dinheiro para propor um dote a Fanny e pedí-la em casamento. Pouco a pouco, Fanny se encanta por Keats e se torna sua musa inspiradora, tudo com discrição mas com o desejo da descoberta. Ambos trocam olhares, toques, palavras e gentilezas até alcançarem o clímax do envolvimento amoroso e, com ele, as dificuldades que surgem ainda mais, provando que o amor é uma das (im)possibilidades da vida.





"Boa noite"


O roteiro de Jane Campion segue a base do gênero de romances de época como os adaptados da obra de Jane Austen, por exemplo, basta recordar de histórias de amor como Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. O prazer visual e auditivo da película torna-se, respectivamente, a sutileza do flerte e o romantismo do discurso. Ainda que Fanny dê o tom da conquista, da aproximação mais intensa, demonstrando que ela tem um comportamento emancipado e passional e está perdidamente apaixonada por Keats, o relacionamento amoroso nasce com delicadeza e vivencia as resistências das convenções sociais, logo, os enamorados desejam um ao outro e lidam com o amor vivaz que não pode ser expresso em gestos ardentes e impulsivas ações, então as palavras são transformadas em toques corporais para o gozo dos amantes e o diálogo cria espaço para o flerte; o desenvolvimento do apaixonante relacionamento é absorvido por uma insinuante tensão afetiva que transita entre o desejo e o amor, entre o corpo e a alma. Não faltam encontros e desencontros entre eles, com cenas de românticos beijos e olhares, incontrolável ciúmes e sofrimentos advindos da solidão e da saudade, porém tudo é muito bem articulado pelo roteiro de Campion a fim de evitar que o nascimento do primeiro amor leve a película a um dramalhão cheio de clichês culminando em um tipo de "morte" narrativa.




"Como era horrível a possibilidade de descer à sepultura,
em vez de estar em seus braços"


O elenco se compromete a não pôr abaixo a qualidade da obra, mas não supera o diferencial da película que é como ela traduz o sentimento amoroso a partir das imagens, com a excelência da fotografia, da direção de arte, do figurino e do background literário de Keats (que cria imagens mentais através da sua poesia). Annie Cornish e Ben Whishaw têm uma razoável química, não brilham tanto aos olhos do espectador como outros casais românticos do Cinema, falta ainda carisma e sexy appeal entre eles. Há determinados momentos que o romance poderia ser mais intenso e tocante a partir da combinação química dos atores e neste contexto sensível de dramático do amor. Por outro lado, se a direção do elenco selecionasse um casal muito bonito, impregnado de sensualidade e visualmente mais maduro, o resultado final seria inverossímil com a biografia desta paixão, e poderia devastar o tom inocente do primeiro amor. Cabe à ótima interpretação 'inconveniente' de Paul Scheider dar o tom dinâmico que problematiza o relacionamento já que ele é bem chato e não suporta Fanny, sendo contra o envolvimento do casal. Inclusive, sob o ponto de vista social, Brown é um relevante personagem porque ele é aquele intelectual que 'aponta o dedo' a Fanny e a critica como a tola que 'costura e flerta nos bailes', ele se torna a expressão crítica da sociedade que marginaliza as mulheres; mais adiante ele se torna aquele que "critica mas não olha o próprio umbigo" e tem péssimos comportamentos. Nas irônicas cenas de embate entre Fanny e Brown, o filme expõe um ritmo menos parado porque traz a variável do conflito que gera uma resistência ao amor de Keats e Fanny.






"E em uma estranha linguagem, ela disse: Eu te amo de verdade"


O próprio senso artístico e sensibilidade da Jane Campion agregados ao primor estético, ao lirismo literário dos romances de época e ao foco argumentativo do primeiro amor das discretas descobertas embaladas por contidos desejos faz de Brilho de uma Paixão uma ode cinematográfica a um amor da juventude, uma poesia em imagens que é desenhada através da sublime fotografia de Greig Fraser e um texto que valoriza o lirismo do desabrochar para o amor. O deleite cinematográfico nesta película é exatamente voltar ao renascer de um amor jovial, romântico e poético, o amor de época, o amor dos cadernos de Literatura, o amor passional dos poetas pobres e das nobres moçoilas, e observar como a cineasta dirige a câmera nos detalhes da paisagem, nas atitudes dos amantes, nos objetos que guardam os segredos da paixão, tudo com o propósito de vivermos a amorosidade do período. Ao assistí-lo, perceba as cenas dos passeios na floresta, das brincadeiras no jardim com as borboletas, dos presentinhos a Keats, das belas flores, do primeiro beijo, do sofrimento da distância, tudo é liricamente dirigido com a intenção de versar um poema através das imagens fílmicas, assim como a delicada sedução dos gestos enquanto os amantes criam suas próprias obras: Quando ela costura com a precisão dos pontos da agulha; quando ele recita as cartas de amor e combina novos versos.





"Nunca conheci antes o tipo de amor que você me fez sentir"


No geral, o longa-metragem ganha a audiência pelo romance de época e pela apreciação contemplativa da obra. Quem gosta de dramas românticos que resgatam a aristocracia Britânica, têm mais chances de se encantar pelo filme porque aqui, o amor é terno, supremo, a Fanny, não lhe importa se Keats não tem dinheiro e está enfermo, ela o ama profundamente, lealmente. No mais, Bright Star não é um trabalho formidável, mas também tem a agradabilidade visual do trabalho de Jane Campion e da poesia de John Keats, um dos grandes expoentes do Romantismo Inglês. Vale ressaltar que, para o filme ser desfrutado nas suas virtudes técnica, biográfica e literária e no belo contexto amoroso, é importante que o expectador compreenda que este é um romance do século XIX, um amor que foi interrompido pela morte prematura de um poeta pobre aos 25 anos; que é dirigido por uma mulher que domina este tipo de estética mais sensível, lírica bem voltada para o universo aristocrático e feminino e, primordialmente, ter em mente que é essencial apreciar Brilho de uma paixão em um romântico estado de espírito, do contrário, o brilho da película será ofuscado por um olhar turvo e pouco inspirado que fatalmente subestimará o retorno de Jane Campion e seu novo romance.




Avaliação MaDame Lumière




Título Original: Bright Star
Origem: Inglaterra, Austrália,França
Gênero(s): Drama, Romance
Duração: 119 min
Diretor(a):
Jane Campion

Roteirista(s):
Jane Campion
Elenco: Abbie Cornish, Thomas Sangster, Ben Whishaw, Paul Schneider, Samuel Barnett, Kerry Fox, Roger Ashton-Griffiths, Samuel Roukin, Antonia Campbell-Hughes, Sebastian Armesto, Olly Alexander, Jonathan Aris, Adrian Schiller, Alfred Harmsworth, Joyia Fitch

5 comentários:

  1. Este é o tipo de filme que eu gosto e tenho tudo para amar "Bright Star". Espero poder conferir em breve!

    ResponderExcluir
  2. Estou doido pra ver este filme (novidade, né?)..
    Adoro filmes britânicos e este me parece mesmo ser muito bom!

    ResponderExcluir
  3. Dietrich,

    Eu gostei muito do 'Piano' e faz tempo que não vejo a Holly Hunter tão bem num filme, só recentemente naquele 'Aos 13' da diretora de Crepúsculo enfim....rs! O assunto aqui é outro...

    Quanto a nova direção da Jane, creio que um dia ela vai receber um prêmio Oscar, como a Bigelow.
    Apesar de algumas derrapadinhas, seus filmes não chegam a ser totalmente irregulares.

    O Ben Whishaw, acho um ótimo ator desde 'Perfume' e como na história de um assassino, vejo que neste filme, ele também faz um personagem trágico.

    O que era o amor?

    Só naquela época?

    Apesar da quase tragédia grega e morte prematura, eu curto este estilo de época. Me cativa...eu respiro ar puro, rs!

    "Quando ela costura com a precisão dos pontos da agulha; quando ele recita as cartas de amor e combina novos versos". Nossa! Deve ser muito romântico. ♥!!

    Vou conferir o filme. Com certeza! Mas agora só no DVD.

    Bjs,

    ResponderExcluir
  4. Confesso que estava entusiasmado para ver este filme quando debutou em Cannes ano passado, agora esse turpor já se esvaiu. Devo assisti-lo apenas na tv por assinatura. Sua crítica foi bastante contemplativa, dá para perceber que vc "sentiu" o filme.
    bjs

    ResponderExcluir
  5. A melhor crítica que já li sobre este filme, pois capta bem a essência poética e imagética que o filme tem. É, de fato, um apurado filme que demonstra a noção de romantismo das antigas, amor juvenil, laços de cumplicidade e só Jane Campion poderia propor isso, um filme que é lento sim...que tem o desenvolvimento sutil, nada é exagerado, mas que se manteve como um bom espetáculo denso ao fim...e achei a direção cuidadosa mesmo, não esperava tanto.

    Beijo!

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière