quinta-feira, 15 de julho de 2010

Em Busca de uma Nova Chance (The Greatest) - 2009


Ao longo de seus 99 minutos, Em Busca de uma Nova Chance da estreante Shana Fest se arrasta como um drama familiar que encontra sua base emocional no melodrama extremista, exagerado. O bem intencionado argumento gira em torno da dor da perda do filho, e como tal abrupta morte reflete nos diversos comportamentos de uma família que pena para lidar com uma inaceitável e dolorosa ausência. Susan Sarandon e Pierce Brosnan são Grace e Allen Brewer, um casal com dois filhos adolescentes Bennett(Aaron Johnson) e Ryan (Johhnny Simmons) que são a materialização de dois opostos. Bennett é o filho bonito, carismático, talentoso e admirado. Ryan é o jovem introspectivo, rebelde, envolvido em drogas e 'quase transparente' aos olhos dos pais. A previsibilidade do filho que morre é evidente: Bennett, o 'maior de todos' (the greatest) como o título original e, por ele ser o adolescente brilhante que morre prematuramente, a intenção da película é tornar o sofrimento ainda maior. A dramatização trágica de um roteiro apelativo começa na morte do jovem. Após perder a virgindade com a namorada Rose (Carey Mulligan, revelação em Educação e indicada ao Oscar 2010), Bennett sofre um acidente de carro bem na hora que declara o 'eu estou apaixonado por você'. Ela escapa da morte, ele não. Tal acidente é tão abrupto e usa como recurso aqueles repentinos acidentes de estrada em filmes de terror que após o susto inicial e entendendo melhor os flashbacks da película, não há como não afirmar que este roteiro foge bastante da genuína intenção de um drama mais denso, menos pautado no dramalhão. O desejo é rir de algumas cenas.





Para complementar a tragédia, Rose engravida e bate à porta dos Brewer como uma sem-teto. Rose é uma garota bacana e, na intepretação da talentosa Carey Mulligan, ela se torna uma das melhores personagens da película, a começar como ela encara a perda, de uma maneira mais madura e não menos relevante. Rose fica por lá porém é ignorada por Grace durante toda a gravidez. Já Grace é a mãe que, independente da compreensível dor, age de forma insanamente egoísta e imatura entregue à dilacerante perda sem ao menos se esforçar em compreender os sentimentos de seu marido e filho. Ela não é a coluna da casa e precisa de um sério tratamento psicológico. Claramente ela deseja saber como foi a morte, qual foi a última palavra dita por Bennett, o que ele estava sentindo enquanto esmagado por um automóvel, ou seja, perguntas a respostas que ela persegue de forma obsessiva. Com o requinte masoquista do roteiro, ela espera o réu do acidente, Jordan Walker (o ótimo Michael Shannon, em uma ponta à altura de seu talento) acordar do coma para saber toda a verdade e está mais disposta a se dedicar a ele do que à sua família, tanto que Grace realiza idas ao hospital e se preocupa com o bem-estar do culpado. Ela ignora os problemas de Ryan que usa drogas e, nitidamente ,sofre com a situação porém o orgulho do garoto fala mais alto já que seu irmão 'perfeito' provoca nele sentimentos dúbios como admiração, saudades, ciúmes. Grace também consome emocionalmente o marido, um matemático que não consegue trabalhar e nem dormir e está ao ponto de ter um ataque cardíaco ou uma crise de stress. Allen se encaixa no papel de pai que está silenciado pela dor a ponto de não querer nem citar o nome do filho e, quando se esforça em sair da depressão, é questionado pela mulher que acha que ele não está sofrendo da 'forma que deveria'. Grace não o ouve e, o fato dele a ter traído em algum momento do casamento, faz com que ele se dedique integralmente a fazer o que ela quer, provavelmente sente-se culpado, com a obrigação de não transtorná-la mais do que ela já está.





O elenco é respeitável mas os papéis dos pais se tornam superficiais com uma emoção que soa fake, tragicômica, forçada demais para expressar a seriedade da perda de um filho. O problema não é nem de Susan Sarandon nem de Pierce Brosnan, o problema é como a narrativa foi elaborada de forma sentimentalista, como o roteiro é clicherizado à dor exaustiva e não se atenta a observar que o drama torna-se uma novela que não trabalha o texto emotivo espontaneamente para falar com a audiência sobre um sentimento tão difícil como a perda. Com um argumento deste, o de uma terrível perda, Shana Fest perde a oportunidade de fazer um filme brilhante, que mimetizasse os dramas pessoais das perdas que ninguém quer enfrentar e nem aceitar. A direção manipula bastante as cenas juntamente com o roteiro para fazer com que o público chegue as últimas assim como os Brewer. Basta perceber as cenas de flashback de Bennett e Rose demonstram que era um casal que já estava apaixonado desde o início do Ensino Médio mas que tardou a se declarar um ao outro e foram vitimados por tal desgraça sem ao menos ter tempo de desenvolver o relacionamento. A forma como Allen Brewer, após uma discussão com Grace, sofre um provável infarto, uma cena que Pierce Brosnan chega a fazê-la de forma a provocar um tragicômico riso na platéia mais observadora e exigente, parecia que o mundo ia desabar junto com ele. A maneira como Ryan fica em segundo plano como filho, e encontra fuga nos baseados e em uma reunião de pessoas que perderam familiares e a qual ele não dá a mínima, e para completar os dramalhões, a cena do casal Brewer no mar, aos prantos e beijos, cena que gerou o dramático e apelativo pôster da divulgação brasileira e que felizmente não foi postado aqui. Mais ao fim, a forma como tudo melhorou só veio a partir da mudança de Grace após conversar com Jordan. A solução foi tão pontual e resolvida rapidamente que qualquer psicólogo acharia um milagre terapêutico surreal; mais uma vez tal cena torna o filme aquém da verossimilhança do drama de uma dor e não desenvolve os personagens em seus psíquicos e como trabalham a superação de uma morte. O final chega a ser engraçado como se todos fossem pedir uma pizza após o nascimento do bebê de Rose.


À parte dos problemas do roteiro e, com muito esforço do expectador, Em Busca de uma Nova Chance é um filme que oferece a vantagem da observação superficial dos comportamentos de uma família problemática e que precisa de terapia para canalizar tal dor. Os problemas que emanam daí são os mais comuns como a falta de diálogo entre pais e filhos, esposas e maridos e, de ser mais ativo e resiliente para superar situações tristes e olhar a dor do outro, por isso, a interpretação mais genuína do filme só veio a partir de duas cenas nas quais, respectivamente, atuam os jovens Carey Mulligan e Johhnny Simmons as quais tiveram o mérito de investir mais na sensibilidade do texto. A forma como eles desabafam sobre o que sentem por Bennett é de uma sinceridade tocante, uma autêntica emoção que deveria ter permeado todo o longa-metragem mas perdeu a chance.


Avaliação MaDame Lumière



Título Original: The Greatest
Origem: EUA
Gênero(s): Drama
Duração: 99 min
Diretor(a): Shana Fest
Roteirista(s): Shana Fest
Elenco: Carey Mulligan, Aaron Johnson, Pierce Brosnan, Susan Sarandon, Johnny Simmons, Kevin Hagan, Miles Robbins, Cara Seymour, Ramsey Faragallah, Colby Minifie, Zoe Kravitz, Portia, Michael Shannon, Dante E. Clark, Ron Scott

3 comentários:

  1. Esse filme ficou em cartaz no cinema da minha cidade apenas 1 semana e teve quase nenhuma repercussão, ou seja, mesmo ele sendo bom, estava fadado ao fracasso, mas pelo filme o filme não se salva em muitos quesitos, mas em breve quero ver, não resisto a Carey Mulingan nem a melodramas baratos! rs

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  2. Ai ai minha Dietrich, rs!

    Eu quase..que quase fui conferir este filme..mas...fui ver Kick Ass com o nosso simpático amigo Aaron Johnson, rs!

    Só em DVD agora com minhas tias e a vovó!
    Ela gosta do James Bond e uma tia minha é fãn da Louise Sawyer, rs!

    Obrigado pela resenha,
    bjs
    Rodrigo neighbor!

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  3. Sério? o.O
    Eu ainda alimentava alguma expectativa para esse filme, visto o elenco (Susan Sarandon está devendo uma boa atuação faz tempo, hein) e a história aparentemente tocante.

    fui enganado =p

    pois é, a falta de delicadeza acaba transformando grandes histórias em melodramas bobos e sustentado de clichés. Quer exemplo melhor do que o recente "Um Sonho Possível", pelo qual Sandra Bullock ganhou o Oscar este ano? Cara, que bela história para se contar, mas é lamentável que tudo foi reduzido a clichés intermináveis de dramas edificantes e chorões. Isso é uma pena!


    MaDame, obrigado pelas suas palavras. Fiquei muito feliz com o seu último comentário. E saiba que o elogio é recíproco! =)
    sucesso pra nós! o/


    Beijos!

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