sábado, 12 de junho de 2010

Um Filme, uma canção: Volver (2006, de Pedro Almodóvar), Volver (de Estrella Morente)

Um filme, uma canção por Madame Lumière
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção




"Viver...
com o alma aferrada a uma doce lembrança
que choro outra vez"



Assim como Quentin Tarantino que busca referências na Arte, no Cinema, na Música, entre outros para compor sua linguagem cinematográfica de uma forma singular, única, o estimado diretor espanhol Pedro Almodóvar é um típico titã cultural em termos de cultura pop bem colorida que dialoga com outras referências artísticas, principalmente as de sua pátria e da cinematografia noir. Com o espírito apaixonantemente passional da Espanha que tem um primoroso legado da Arte Flamenca a qual estabelece inúmeros diálogos com as culturas orientais, desta vez, Pedro Almódovar faz justiça ao Flamenco, e ao lançar sua película Volver, estrelado por sua diva Penélope Cruz, ele a dirige na performance da homônima canção Volver, música de Estrella Morente, uma das cantoras icônes do Flamenco Espanhol.

Tarantino já havia utilizado a tradicional riqueza melódica e emotiva do Flamenco em Kill Bill 2 que tem a canção de Lole y Manuel tocada enquanto Uma Thurman dirige seu carro, tomada por um espírito determinado e vingativo evidente em seu "Mirar". Pedro Almódovar se aprofunda mais em Volver considerando o argumento deste filme, o conteúdo poético musical da musicografia de Estrella Morente e a base tradicional do Flamenco, raiz bem familiar da cultura Espanhola, tudo isso porque Volver é um filme sobre mulheres e sobre uma geração delas em uma família Espanhola. Os olhos de Almodóvar "vuelven"/voltam para o sexo feminino, herança de seus filmes e celebra a força de mulheres que lidam com a natureza vida-morte, elemento tão peculiar no Feminino.





A comovente canção é como uma protagonista que testemunha a história das irmãs Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas) que reencontram o fantasma de sua mãe Irene (Carmen Maura). O aparecimento de um fantasma maternal traz conforto às filhas e neta, esta última vítima de abuso sexual causado pelo próprio pai. Saber do abuso sexual fez com que Raimunda se vingasse do pedófilo e o matasse, escondendo seu corpo em uma situação bizarra. A chegada de Irene é reconfortante, porém o enredo lida com opostos dramáticos: uma família destruída por um abuso sexual x uma família que se reconstrói e se aproxima com o aparecimento de um fantasma; a dicotomia vida x morte com um fantasma que surge no cotidiano e um morto que é escondido dentro de um freezer; os opostos entre presente x passado dos quais afloram mágoas como a de Raimunda com relação à sua mãe Irene que tem um desafeto com a filha e deseja ser perdoada por Raimunda. Enfim, Volver é como voltar à história destas mulheres, envolver-se profundamente na trama, comover-se com elas.





A canção foi feita sob medida para ser a canção tema e faz todo o sentido que ela seja flamenca porque encontra eco em uma forte base das tradicões familiares da Espanha. O Flamenco é um gênero musical que é pura alma Espanhola e alma é identidade, é ser tocada(o) por aquilo que lhe é familiar. Além disso, Estrella Morente é filha de um dos cantores flamencos mais respeitados no mundo, Enrique Morente, advindo do berço gitano flamenco que simboliza a Andalúcia, logo, não poderia haver melhor escolha musical para evocar a história destas mulheres tão almodovarianas. Em um dos momentos mais sublimes do filme, Penélope Cruz canta Morente sendo acompanhada pela guitarra e pelas palmas flamencas e, a poesia desta canção é tão evocativamente autobiográfica com relação ao filme que ele se torna um longa mais intimista, mais afetivo, mais obra prima, basta entregar os ouvidos à formidável letra que combina perfeitamente bem com o drama de Raimunda: "Tengo miedo del encuentro con el pasado que vuelve a enfrentarse con mi vida/ Tengo miedo de las noches que pobladas de recuerdos encadenan mi soñar"("Tenho medo do encontro com o passado que volta a enfrentar-se com minha vida/Tenho medo das noites que povoadas de lembranças encadeiam meu sonhar"). Por isso, sempre é bom Volver os ouvidos e os olhos a Volver. Volver o coração a Almodóvar.


4 comentários:

  1. Esse momento arrepia. ô música poderosa! E sobre esse aspecto que vc bem citou de a çanção ter sido feita especialmente para o filme, quem não quer compor para um filme de Almodóvar né?

    bjs

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  2. Um filme prazeroso, ainda mais pela aura interpretativa de Penelope que aqui está bem inspirada - tanto no melodrama, quanto nesta cena!

    Beijos

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  3. Oi Reinaldo,

    Sou super suspeita para falar de Almodóvar, Estrella Morente e o Flamenco porque eu realmente já aprecio os 3 e sou apaixonada pela cultura Flamenca. Este momento é ímpar e a letra da canção é uma magnífica ode a este sensível trabalho.

    Bjs!

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  4. Oi Cris,

    Concordo totalmente contigo. A forma como Penélope interpreta este momento musical é, como dizem os flamencos, muito impregnado de DUENDE que é a mágica energia do sentimento, das emoções dos artistas flamencos.

    AMO!

    Beijos saudosos!

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