segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sangue Negro (There will be blood) - 2007



O aclamado épico de Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil de Upton Sinclair jorra pela tela o negro poder ganancioso que o petróleo traz à sociedade capitalista, principalmente a Americana e, entrelaça no drama o embate monstruoso entre dois homens com o mesma sede de poder, porém em lados diferentes, separados pela violenta racionalidade x a oportunista religiosidade. Com roteiro adaptado pelo próprio cineasta, um dos mais promissores de sua geração e a consagrada atuação de Daniel Day-Lewis, vencedor do Oscar 2008 por esta atuação, Sangue Negro é um dos melhores trabalhos épicos desta década, magnífico do começo ao fim.


Ambientado no Texas entre os séculos XIX e XX, o filme retrata o emergente e voraz empresário do petróleo Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) que começou a extrair petróleo na Califórnia como um simples mineiro. Sua arrogante ambição, impetuosa persistência e esperto tino para os negócios o tornou um homem rico, e também inescrupuloso já que usa o próprio filho, o pequeno H.W (Dillon Freasier) como manobra propagandista para atrair e sensibilizar novos negociadores. Para explorar um transbordante poço de petróleo em Little Boston, Plainview é obrigado a conhecer e lidar com um líder religioso protestante, o fanático e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano), começando aí um guerra de egos alicerçadas por interesses meramente individuais em uma arena de esplêndidas atuações. Sunday e Plainview, cada um deles medindo forças contra o outro e olhando para seus próprios umbigos, ressaltando a ganância pelo dinheiro, pelo poder influente sobre uma enriquecedora região petrolífera.





A deslumbrante atuação de Daniel Day-Lewis enaltece bastante o valor desta fita, tanto que, se houvesse outro ator neste papel, talvez o filme não teria o mesmo poder de cena, a pertubadora expressividade tão dilacerante como a desgraça existencial do protagonista. A começar porque Daniel Plainview é um homem de difícil e forte personalidade, mortificado pela solidão, embrutecido pela vida e um homem sem família, ele lida com os negócios como a vida lida com ele, impiedosamente. Não há esforço de sua parte em ser um homem mais dócil, logo ele combina muito bem com o aspecto árido da região, a ferocidade do negócio petrolífero. Para confrontá-lo, havia de agregar ao elenco um homem tão insuportável quanto a malvadez de Plainview, eis que surge Paul Dano, que encarna um ávido e fanático aproveitador cujas palavras 'benevolentes e carismáticas' são a verdadeira expressão vil de um pseudo-líder religioso; com a excelente interpretação de Paul Dano, a hipocrisia e ganância humanas tomam o altar de Deus e são desvirtudes bem recorrentes na História da Religião, a propósito, também bem contemporâneas na prática mercantilista de algumas denominações religiosas. Complementam esta dupla estupenda atuação, a fotografia vencedora de Robert Elswit, que é muito bem alinhada à câmera 'paisagista' da ótima direção de Anderson e à direção de Arte desta remota ambientação, que valoriza as nuances de um local seco, rude, brutal.


A estética, o roteiro, a direção e a duração de Sangue Negro podem não agradar a qualquer espectador ainda que sejam orquestrados por um dos cineastas mais promissores neste gênero. O início do filme demonstra exatamente o tipo de direção que permeia boa parte da obra e a projeção de seu contemplativo conjunto: são bem mais de cinco minutos sem nenhuma palavra, somente a força da imagem da região, do ímpeto comportamento de Daniel Day-Lewis como um determinado mineiro, do suspense dramático evocado pela tenebrosa música. O longa-metragem é um épico dirigido por quem tem forte inclinação a filmes pertubadores e projeções longas, basta lembrar de Magnólia (1999) e Paul Thomas Anderson utiliza alguns temas que integram pilares de seu estilo autoral como a religião e a família e a trilha sonora como personagem. Os longos planos, travellings de câmera e focos de rosto, assim como o uso da ótima música de Jonny Greenwood são ressaltados e fundamentais para compor o apelo épico no plano histórico e, dramático no plano individual. Os cenários combinam com a violência das personalidades de Plainview e Sunday. Minas de petróleo, incêndios com explosões, acidentes nos poços, acampamentos mineiros, casas e igreja rústicos pactuam com homens sujos, brutos e interesseiros e a solidão existencial daqueles que, esvaziados e/ou carentes de uma condição (ou personalidade) melhor(es), ora buscam a Deus em cultos impregnados de um fanatismo exorcizante, manipulador, ora buscam a chance de enriquecimento fácil.






Entregando à História do Cinema um dos personagens mais densos e pertubadores representado pela maestria do excepcional Daniel Day-Lewis e com um final emblemático, digno de arena épica, Sangue Negro é um excelente épico moderno e sua atemporalidade está no duelo de interesses egoístas, nos quais a verdadeira religião e o espírito de união familiar ficam em segundo plano em detrimento à avassaladora força destrutiva do dinheiro. Em diversas cenas, é possível aferir como o ego é preponderante e está acima de valores virtuosos, porém cabe analisar que tanto Plainview quanto Sunday são dois solitários, enfermos em seus caracteres logo, em meio à riqueza petrolífera, se afundam na escuridão de suas negras e pobres vidas.



Avaliação Madame Lumière







Título Original: There will be blood
Origem: Estados Unidos
Gênero(s): Drama
Duração: 158 min
Diretor(a): Paul Thomas Anderson
Roteirista(s): Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil de Upton Sinclair
Elenco: Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Kevin J. O'Connor, Jacob Stringer, Matthew Braden Stringer, Ciarán Hinds, Dillon Freasier, Joseph Mussey, Barry Del Sherman, Russell Harvard, Harrison Taylor, Stockton Taylor, Colleen Foy, Paul F. Tompkins, Kevin Breznahan

4 comentários:

  1. Olha 5 estrelas ?
    Deve ser mesmo muito bom!
    Estou com ele em casa para assistir, vou ver esta semana!
    Ótima resenha Madame.
    Bjs.

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  2. Não acho Sangue negro essa maravilha toda. É tecnicamente soberbo sim e tem um Daniel Day Lewis maior que a vida. Mas é um filme pretensioso demais e insurgente de menos, se é que me faço entender.
    bjs

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  3. Pode parecer um pecado cinematográfico, mas eu sou uma das poucas pessoas que não considera "Sangue Negro" a obra-prima que todos dizem ser. A única coisa antológica, para mim, neste filme é a atuação do Daniel Day-Lewis.

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  4. Acho esse filme muito bem filmado e Daniel Day-Lewis está monstruoso. È uma película que mostra onde pode chegar as ambições do homem.

    Beijos, querida! ;)

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