domingo, 13 de junho de 2010

Sex and the City 2 - 2010


Para quem é um(a) verdadeiro(a) fã de Sex and the City, o inevitável sentimento de "orfandade" é sempre recorrente, afinal desde que a famosa e glamurosa minissérie baseada na obra de Candance Bushell terminou em 2004, os fãs tiveram que esperar 4 anos para que ela ganhasse uma adaptação para a tela "grande". Agora, dois anos depois do lançamento de Sex and the City 1, as inseparáveis amigas Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Charlotte York (Kristin Davis), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon), Samantha Jones(Kim Catrall) estão de volta, mais experientes em novos contextos que já haviam sido iniciados no primeiro filme: maternidade, casamento, envelhecimento, carreira e toda a sorte de um "enfrentamento" existencial que tais temas trazem à vida da mulher contemporânea. Além disso, há que ressaltar que Sex and the City é uma franquia rentável, uma poderosa marca bem comercial, é impregnada por uma abordagem consumista que está muito relacionada à ambição de Sarah Jessica Parker, tanto que ela lançou recentemente até mesmo uma fragrância inspirada em Nova York e os tablóides comentam que há rixas financeiras, brigas de egos nos bastidores e por "holofotes" entre ela e as outras atrizes da série. Logo, ao se avaliar o filme, os críticos mais intolerantes têm que analisá-lo muito mais como um produto de consumo do que um produto de Cinema, artístico. Triste, mas é a pura realidade... e como um produto de consumo ele é muito mais eficaz.


Nesta filmagem, cada uma das protagonistas deve ser observada a partir do seu dilema principal, ou seja, cada uma delas enfoca um tipo de desdobramento da vida da mulher a partir de seus evolutivos ciclos femininos, consequentemente, os ciclos trazem consigo as dores e os amores de todo processo de descoberta. Carrie Bradshaw se casou Mr. Big (Chris Noth) e, como boa parte dos casais, eles caíram no ostracismo da rotina. Já não sáem mais para badalar, costumam jantar a comida chinesa do delivery, tem discussões por causa da TV e do controle remoto que se colocam entre os dois. Charlotte York encarna a dona de casa com duas filhas que consomem seu tempo e seu psicológico, principalmente uma bebê que não pára de chorar e que só se acalma com a bela babá cujos belos seios são um par tentador aos olhos do marido de Charlotte, Harry (Evan Handler). Miranda Hobbes, uma típica profissional ambiciosa e dedicada que ultravaloriza a sua carreira como tantas outras mulheres modernas, já não tem tempo nem para participar das atividades educacionais do filho. Até o dia que ela toma uma decisão extrema: Saí do emprego. Samantha Jones, a mais velha de todas e em processo de menopausa, se preocupa em não perder sua jovialidade e nem o seu pique ninfomaníaco. Ela começa a se empaturrar de pílulas e toda a tecnologia em favor da beleza, o que se torna um reflexo da necessidade atual de envelhecer bem e não deixar de ser sexualmente "interessante e ativa".





À parte do entretenimento e do apelo afetivo de Sex and the city, o novo filme tem a vantagem de iniciar um tipo de "fórum existencial" no qual as mulheres reflitam sobre suas próprias trajetórias cambiantes e os dramas que as acompanham à medida que elas amadurecem, assim como possibilita aos homens se sensibilizarem com como é difícil ser mulher e aceitar estes novos papéis de mãe, esposa, filha, profissional, e como eles também podem contribuir para que este processo possa ser vivenciado facilmente por suas companheiras. Obviamente, o filme está aquém de qualquer chance de discutir estas questões profundas e somente pulveriza estas reflexões superficialmente, cabe a cada expectador aproveitar a lacuna servindo-se do cinema blockbusteriano para tirar algum aprendizado útil. Por outro lado, há alguns pecados infames no longa a começar por uma boa parte dos micos pagos pelas protagonistas que forçam um humor pasteurizado e inclinado a arrancar risadas custe o que custar, assim como algumas desastrosas peças de figurino selecionadas por Patricia Field que, desde o primeiro filme, já havia exagerado bastante nas suas escolhas de figurinista, prezando muito mais por uma moda estilosa calcada em uma miscelânea de cores e combinações forçadas e muito menos no quesito elegância. Embora o roteiro se extenda por mais de duas horas e meia (infelizmente) para entreter platéia e criar situações de riso em uma aventura das 4 amigas em uma viagem à uma emergente cidade bilionária, fashionista e luxuosa nos Emirados Árabes: Abu Dhabi, Sex and the City 2 garante um momento nostálgico e intimista para os fãs muito fieis da série porque é como se encontrar com elas de novo, ter uma prosinha sobre o que está acontecendo em suas vidas, como elas estão se sentindo com relação ao casamento, a maternidade, a carreira e o envelhecimento. Este laço afetivo com elas sempre será o diferencial do filme porque é como testemunhar mais uma vez a jornada destas mulheres, ser parte disso como se cada expectador(a) fosse o(a) 5°(ª) amigo(a), logo, mesmo com os pecados das filmagens, algumas piadas fake e a crítica dos anti-Sex and the City, o novo filme desta franquia tende a agradar quem realmente acompanha, tolera e ama toda a trajetória destas 4 amigas.





Ainda que Sex and the City 2 tenha alguns exageros como a participação da botoxiana Liza Minelli cantando Single Ladies de Beyoncé em um casamento gay e com evidentes dificuldades de mover seus joelhos, a presença dispensável da "teen celebrity" Miley Cyrus posando no carpete vermelho com Samantha Jones e uma aventura engraçada, porém desastrosa no Oriente Médio que tira a saudosa New York de cena, este longa-metragem é honesto com relação ao que estas mulheres vivenciam e é possível aferir isso nos momentos chave nos quais elas abrem o coração e dizem o que sentem sobre suas angústias pessoais. Dentre estes momentos, a questão da maternidade e o sentimento dúbio (até de culpa) que isso traz é bem encenada em uma conversa mimética entre Charlotte e Miranda, afinal ambas são mães, sendo que uma delas ama suas filhas mas tem vontade de se trancar dentro do quarto toda vez que as crianças choram e/ou a acessam, e a outra vive o dilema da carreira x a maternidade, o que é muito recorrente hoje em fase da própria necessidade da mulher trabalhar para colaborar no orçamento doméstico e também ser valorizada pela sua competência profissional. Do outro lado, Carrie Bradshaw não deseja ter filhos, porém (in)diretamente deve saber muito bem que, não tê-los, envolve criar uma dependência maior dela com Big e a expectativa de que o casamento funcione bem no "somente nós dois até que a morte nos separe". Além disso, convém comentar que,
após realizar a via crucis durante temporadas e temporadas de minissérie para ter Mr.Big em seus braços, Carrie Bradshaw vive o drama da mulher que ama o seu marido mas não quer que seu casamento seja um tédio que desgasta a relação, há que ter uma harmonia entre a liberdade do casal e a liberdade individual . Ela quer romance e diversão e, ao encontrar seu antigo namorado Aidan (John Corbett) em Abu Dhabi, fica evidente que ela gosta de flertar, de se divertir, de não perder a sua própria essência de uma mulher que equilibra o casamento e o entretenimento. A diferença é que ela quer fazer isso com o Mr. Big e está disposta a ter um diálogo bem aberto com o marido, inclusive contar-lhe sobre alguma "pulada de cerca" e o quão desagradável é vê-lo apegado à nova e moderna TV de quarto. Lamentavelmente, na prática o texto não evoluiu no drama de Carrie Bradshaw e, mais uma vez, ela só fez drama com Mr. Big e se mostrou uma mulher emocionalmente confusa, traço que lhe é bem próprio.






Com isso, embora recheado de clichês dos dilemas femininos, em especial os tão intrísecos ao casamento, Sex and the City 2 é divertido sem se afastar de uma certa "responsabilidade com as mulheres", tanto que se esforça em colocar dois mundos distintos, o Ocidente e o Oriente e até pincela de forma muito superficial (e, penosamente muito estereotipada) como a mulher é tratada no Oriente Médio, além disso filma um casamento homossexual aproveitando-se do fato que o mundo está se tornando cada vez mais gay, desta forma,o longa arranja uma forma de levantar mais ainda a bandeira liberal de Sex and the City. De maneira geral, o filme tem uma receita previsível baseada em todo o background da série, e para trazer algo diferente, inventou uma viagem aventura com a trupe no qual elas convivem com o luxo do luxo em um hotel 6 estrelas: o que não falta é moda, amor, sexo, balada, amizade e o culto à mulher cosmopolita, de mente aberta e com uma boa dose de drama show existencial que ainda tem muito a resolver sobre sua própria vida, inclusive aquelas que são solteiras terão a oportunidade de pensar melhor se desejam casar e ter filhos.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: Sex and the city 2
Origem: EUA
Gênero: Comédia
Duração:
146 min

Diretor(a): Michael Patrick King
Roteirista: Michael Patrick King, Candace Bushnell, Darren Star
Elenco: Sarah Jessica Parker, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Kim Cattrall, Minglie Chen, Chris Noth, David Eigenberg, Evan Handler, Alexandra Fong, Parker Fong, Mario Cantone, Willie Garson, Noah Mills, Liza Minnelli, Billy Stritch, Penélope Cruz


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4 comentários:

  1. O filme é exatamente isso: uma nostalgia de tentar prolongar o que acabou há seis anos. Entendo que para os fãs é bom rever suas quatro amigas, mas eu acho que acaba desgastando sua imagem se não há um objetivo maior, e nisso falo de um argumento que sustente o longa. O filme fala sobre nada e fica um vazio. E três, das quatro personagens, são o símbolo disso, mulheres que insistem em manter a mesma postura e insegurança de anos atrás. Só Miranda parece ter amadurecido.

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  2. Olá Amanda,

    Pois é, concordo contigo sobre o desgaste, e penso que eles estão preocupados em prolongar um merchandising Sex and the city que entra em um terreno perigoso já que até fãs tendem a se cansar se não houve nada mais a acrescentar na franquia. Tanto que houve poucos momentos melhores neste filme , e estes envolveram muito mais o bom senso da Miranda que, aliás, é minha sex and the city lady favorita. Penso que eles se preocuparam muito em dar o tom piadista e prolongar o filme com a tal da viagem a Abu Dhabi e esqueceram de desenvolver melhor as inseguranças delas, inclusive a de Carrie. O filme acabou se tornando longo com pouca coisa a acrescentar além dos dramas shows que já seguem um padrão.

    De todas as cenas, só me foi relevante o bate papo entre Charlotte e Miranda sobre a maternidade, pois penso que é por aí, é bom ser mãe mas há que lidar com estes fantasmas de culpa e falta de tempo.

    Bjs!

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  3. Nunca acompanhei a série, não vi o primeiro filme e nem penso em ver o segundo, mas tbm nada contra é que o filme não me chama a atenção mesmo..
    Bela resenha.
    Abs.

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  4. Oi Alan, obrigada pelo elogio. Na verdade, a série é superior ao filme. Veja abaixo o que respondi a um cinéfilo sobre o que penso sobre série x filme, talvez possa te mostrar que vale a pena analisar "antropologicamente" a série.

    *********
    Quem acompanhou a série no HBO ou comprou as boxes da série é mais ligado nelas. Também teve o lançamento do livro no Brasil que fez com que algumas garotas mais ligadas a moda e beleza se rendessem a Jessica Parker. Eu, particulamente penso que há alguns dramas femininos nesta série que tem a ver com qq mulher , independente onde ela esteja, então a série é bem superior aos filmes porque permite que , em alguns episódios, seja visto como é difícil encontrar um relacionamento amoroso que se preze, por exemplo, já que Carrie foi para NY para 'se apaixonar" pela cidade e NA cidade.

    Obviamente, elas vivem vários problemas que estão acima da caça sexual que elas fazem em nova York, neste ponto, a série é bem superior, mas não deixa de ser uma série comercial, pautada em uma bandeira feminista liberal que muitas feministas devem odiar já que a série também se esforça em cair em estereótipos muito machistas, a ver o exemplo como elas servem como comidas facéis aos homens de NY.

    Não serei hipócrita, gosto da série pq me divirto, mas a avaliando minuciosamente percebi que a mulher continua send tratada de uma forma machista, só a casca da série que dá o tom de "liberdade feminina", mas ela continua emocionalmente presa ao homem.

    abs!

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