sábado, 19 de junho de 2010

Um Filme, uma canção: Ilha do Medo (2010), Symphony #3: Passacaglia - Allegro Moderato de Krzysztof Penderecki




Não é de hoje que o magnífico mestre Krzysztof Penderecki tem um talento excepcional e uma musicalidade incomum para filmes de suspense, de horror. Ambos se atraem como um imã, e naturalmente o público é atraído por eles e se divide entre um ambíguo sentimento de encantamento e medo. O gênio polônes já havia composto para filmes como o insano O Iluminado (The Shinning, de Stanley Kubrick) no qual Jack Nicholson faz o papel do surtado Jack Torrance e O Exorcita (The Exorcist, de William Friedkin ) no qual uma garota é possúida por um demônio mais louco do que ela. Desta vez, Penderecki alcança sua máxima potência musical com a formidável Symphony #3: Passacaglia - Allegro Moderato que, em filme do experiente Martin Scorsese representa a canção aterradora de um complexo thriller psicológico e é, sem sombra de dúvidas, uma canção perfeita para Ilha do Medo que transmite absolutamente a obscura atmosfera e tensa emoção da película, além de provocar muito medo, só de ouví-la.








No "must read book" Os Grandes Diretores de Cinema de Laurent Tirard, de forma fascinante, Martin Scorsese abre a primeira entrevista da obra e diz: "o dever de um diretor é saber do que está falando. No mínimo, acho que ele deve conhecer os sentimentos ou as emoções que tenta comunicar". Esta sábia citação do mestre está muito relacionada à minha percepção sobre a relação entre Ilha do medo e vários elementos que o cineasta usa ao dirigir sua câmera neste suspense claustrofóbico no nebuloso e enfermo psíquico de um ser humano, e um destes elementos é esta canção. Scorsese consegue transmitir esta emoção aprisionante que é o medo e, ao adentrar a Shutter Island, não há volta. O expectador é consumido pelo thriller como se fosse um dos insanos hospitalizados. Bom planejador que é, Scorsese aprovou a canção certa porque Symphony #3: Passacaglia - Allegro Moderato dá o assustador tom inicial do filme, quando Leonardo di Caprio e Mark Ruffalo chegam aos portões da clínica. A loucura começa ali ao som de Penderecki, e a cada nota desta sinfonia, é como cair no abismo da insanidade, como se um ser humano estivesse perdendo o controle de si mesmo e não soubesse o provável aterrorizante passo na jornada por este hospital psiquiátrico. A canção alterna momentos em suspenso que são muito primorosos e muito claros na evolução e, magnificamente, há um clima hitchcockiano neste desenvolvimento que parece ter sido solicitado propositalmente por Scorsese, o qual é um grande fã do mestre do suspense e usa diversas referências de Hitchcock. Ilha do Medo com a obra prima de Penderecki invade a mente da audiência com terror, amedronta a cada cena, porém também exerce uma atração irresistível de que é necessário descobrir a verdade, investigá-la assim como o detetive Teddy Daniels o faz. É preciso investigar a própria loucura... vê-la, ouví-la e sentí-la. A Ilha do Medo é o que está isolado na mente humana, a insanidade a qual cada indivíduo não quer aceitar.


Um comentário:

  1. Gostei muito do texto, principalmente dessa parte: " é como cair no abismo da insanidade, como se um ser humano estivesse perdendo o controle de si mesmo e não soubesse o provável aterrorizante passo na jornada por este hospital psiquiátrico"- achei muito bem escrita.

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