segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Golpista do Ano (I love you Phillip Morris) - 2009



O Golpista do Ano, primeira direção de Glenn Ficarra e John Requa, é baseado na história real de Steven Jay Russell, um ex-policial e impostor que realizou vários crimes de fraudes, assumiu sua homossexualidade, conheceu e se apaixonou por Phillip Morris na cadeia e tentou diversas vezes fugir da prisão do Texas para reencontrá-lo. Russell ficou conhecido por suas peripécias criativas, sempre impregnadas de muita mentira e engenhosidade para arranjar diferentes ofícios, burlar a lei e enganar, sem querer, aqueles que ele amou. Neste longa-metragem, Jim Carrey volta à cena cinematográfica para encarnar Steven Russell que, após um acidente de carro, tem um momento de epifania e decide viver a vida da forma dele, ou seja, reconhecendo-se como "gay,gay,gay". Jim Carrey adiciona a este papel a excelente interpretação tragicômica que lhe é tão intríseca e a caricatura de um homossexual romântico que é capaz de fazer de tudo para manter o padrão de vida e prover tudo a seu amado. Leslie Mann interpreta Debbie, a religiosa (ex)esposa de Steven, da qual ele se separa assim que assume sua orientação sexual. Rodrigo Santoro faz o papel de Jimmy, o primeiro namorado de Steven, para o qual o impostor começa a dar presentes caros e, para manter estes "amorosos" gastos, começa a atuar em fraudes de seguros.







O bem da verdade é que O Golpista do Ano abre espaço para diferentes percepções e, a depender de cada expectador, elas podem ser positivas e/ou negativas, por isso é necessário dar o mínimo de crédito a este filme , deixando a fita rodar os 40 minutos iniciais e, tomar a precaução de não julgá-lo prematuramente, principalmente o acusando de homofóbico. Inicialmente, a forma "afetada" de interpretar os homossexuais, tanto por parte de Jim Carrey como por parte de Ewan McGregor e Rodrigo Santoro causa um certo incômodo porque é bem caricata, estereotipada, ou seja, a mensagem subliminar é que o jeito gay de ser é este, o que é um grande equívoco. Para aqueles que sabem que o homossexual não é obrigatoriamente uma pessoa afeminada e têm amigos gays, podem vir a achar que o filme se inclina a uma atuação preconceituosa do universo homossexual, isso porque O Golpista do Ano abre espaço para lacunas interpretativas, evidentes em algumas cenas como: quando relaciona que o gay tem um alto padrão de gastos para ser gay, e logo Steven Russell começa a entrar no mundo do crime fácil; quando Jimmy está morrendo de AIDS (como se o gay só morresse disso); quando Steven e Phillip parecem ser mais felizes só na cadeia, um local periférico onde todos tendem a ser iguais e só obtêm benefícios mediante dinheiro(se opondo ao fato do destino deles fora da cadeia ser um pesadelo); e quando Steven não " saí do armário" perante uma festa corporativa na qual ele fala para os convidados que tem uma noiva, mentindo para Phillip Morris e deixando o amado em casa; ao incluir no discurso de Debbie um fervoroso sentimento de beata que é o oposto do discurso anti-religioso de Steven, fato que retoma a questão do conflito de algums denominações religiosas com a homossexualidade.


Apesar destes detalhes que ressaltam a homofobia e podem dar brecha para polêmica, a questão central do filme é muito mais complexa sob o ponto de vista da existência humana e dos malabarismos para manter as aparências, por isso à medida que o filme evolúe, ele toma mais forma e conteúdo e se torna universal, independente de credo, raça e orientação sexual. Steven tem a engenhosidade para mentir e omitir sobre tudo o que faz, e tem uma necessidade de prover todo o bem material que traga o bem estar para aqueles que ele ama, mesmo que ele precise ocultar suas reais intenções, mas Qual é a identidade de Steven Russell? Esta é a complexidade do filme porque ele mesmo não o sabe, o que significa que talvez ele nunca saberá e viva eternamente ocultado pela sua incontrolável mentira. Esta problemática torna O Golpista do Ano um filme muito mais substancial na qualidade do roteiro e na incógnita que os roteiristas colocam nas mentes da audiência mais reflexiva: O ser humano tende a ser mais um tipo de Steven Russell, capaz de ser engenhoso em diversas máscaras sociais e tramóias? O ser humano é inevitavelmente um ser sem identidade, até que se prove o contrário, perdido no teatro trágicômico da vida, atuando frequentemente na dissimulação social que lhe foge ao controle? Pois é isso! Glenn Ficarra e John Requa deixam o território livre para interpretações diversas, mas uma interpretação é fundamental: existem pessoas que mentem, tramoiam e desempenham diversos papéis que as favoreçam na sociedade e, muitas vezes, por incrível que pareça, elas são mais vítimas do que aqueles(as) que elas enganaram, afinal, impostores sofrem com seu desvirtuoso traço de caráter e se dão mal mesmo quando pensam que estão se dando bem. Temos vários exemplos de Stevens em nosso país, um bando de coitados infelizes.






O imperdível da atuação de Jim Carrey e do papel que lhe é proposto é que Steven é um apaixonado, dependente de amor, ele definitivamente "AMA Phillip Morris da forma que ele sabe amar", então o protagonista ganha a sensibilidade do expectador que acha engraçado um criminoso deste estilo e que tem um vazio de identidade, além de contar com a empatia do público para com o humor único de Jim Carrey. Com isso, há também um inevitável sentimento de pena catalisado pela triste existência de Steven, logo, O Golpista do Ano é um longa-metragem que se adequa bem ao estilo comédia dramática, é como rir da desgraça alheia mas chorar pelo infeliz destino do protagonista. Ewan McGregor tem uma boa atuação como um gay bem romântico e afeminado. Apesar de estar muito caricato e classificado por alguns expectadores como um "exemplar de bichice total", combinando um estereótipo de homossexual com cabelos bem artificiais e oxigenados, lentes de contato, coração hiper sensível e a mulher da relação, McGregor cumpre o seu papel e faz ótimas cenas de amor com Jim Carrey. O ator Brasileiro mais internacional que existe, Rodrigo Santoro, cumpre o que lhe é reservado e, apesar de ser um papel menor, na cena na qual Jimmy está doente, ele demonstra bastante maturidade na atuação dramática com Jim Carrey e é responsável por uma das falas mais catárticas do filme; sem dúvidas, uma fala movida por amor e um pouco de lição de moral para o golpista.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: I love you Phillip Morris
Origem: EUA
Gênero: Comédia dramática, Comédia, Drama, Biografia
Duração:
102 min

Diretor(a): Glenn Ficarra, John Requa
Roteirista: Glenn Ficarra, John Requa, Steve McVicker
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Ted Alderman, Nicholas Alexander, Michael Beasley, Tony Bentley, Allen Boudreaux, Sean Boyd, Brennan Brown, Marcus Lyle Brown, Marylouise Burke, Beth Burvant, Trey Burvant

3 comentários:

  1. Oi Madame,

    excelente resenha!

    O Golpista é uma dramédia. O começo é esteriotipado, cômico e há cenas fortíssimas de sexo né? rs!

    Esta provado que o Jim Carrey é um ator de primeira, mas o público habitual dele vai estranhar e na sessão que eu fui, ouvi este tipo de comentários ao término do filme.

    O Ewan também esta fazendo filmes bons, este e 'O Escritor Fantasma' do Polanski (eu quero ler uma resenha sua) e está ótimo como o namorado passivo de Carrey.

    O Rodrigo Santoro faz uma ponta importante e ele tbm está ótimo. Nos EUA os cartazes não dizia o nome dele e lá o filme estreou depois.Problemas de exibição em um país hipócrita. Lá o filme terá um público cult. Aqui tbm de certa forma.

    O fato é que o filme não tem uma classificação, ora é extremamente "funny"/CRAZY, ora melodramático. Não sei, é um DRAMÉDIA mesmo!

    Acho o material do filme muito bom e a proposta até interessante. É muito bem filmado, excelentes planos, narrativa em OFF do Jim contado pra gente os fatos e um ótimo roteiro e diálogos..mas...tudo tem um "mas", rs... o filme fica com 3 estrelas mesmo! EEE concordamos!!

    Eu acredito que para uma cinebiografia, a história deve ser narrada mais seriamente( como: CHAPLIN,GANDHI e tbm com um pouquinho daquela travessura bolada pelo Spielberg em PRENDA-ME SE FOR CAPAZ), seria uma obra prima e teria indicações ao Oscar. Mas a gente Ri muito e sente vontade de chorar. São dois atos no filme díspares que tem dificuldade de se "encontrar", parece que não há uma solução e que o amor deles, está envolto aqueles esteriótipos gays que me incomoda.

    Gostei do filme, acho ele corajoso. Mas no fundo preferia algo mais sério. E veja; daria certo mesmo com a figura do Jim Carrey, que já provou em outros filmes: ' O Show de Truman', 'Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças' e 'Número 23'.

    BJS.

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  2. Gostei do seu olhar para o filme madame. Em linhas gerais se assemelha ao meu. contudo, no que vc qualifica como brecha para polêmicas, é preciso entender que o filme se passa no final dos anos 80, principio dos anos 90. A sociedade era outra naquele momento. Portanto, as opções de registro se justificam. É lógico que em um ou outro momento os diretores pesam a mão (seri até estranho se não pesassem?), mas não vejo nenhum ensejo homofóbico na produção.
    bjs

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  3. MaDame Lumiére?
    Poderia eu postar seu pôster na Wikipédia?
    Assim publicar a todos o pôster no site.
    Libere sua licensa na imagem para LucasMello53 na Wikipédia e assim legalizar a imagem, please?
    Valeu!

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