domingo, 27 de junho de 2010

A Bela da Tarde (Belle de Jour) - 1967



A década de 60 testemunhou o aflorar do Erotismo no Cinema com filmes que escandalizaram os mais pudicos, quebraram as barreiras da austera tradição, do hipócrita puritanismo e contribuíram para compor um legado expressivo da sexualidade e do desejo contado através das imagens. Fantasias e taras sexuais se tornaram mais controversas à medida que eram registradas com elementos do fetichismo, da emancipação sexual da mulher, da crítica à religião, da morte e da obsessão e da quebra de tabus sexuais, e havia o desejo de viver os impulsos sufocados em uma época de repressão, o desejo de satisfação emocional e sexual, logo, filmes como O último Tango em Paris (1972, de Bernardo Bertolucci), Império dos Sentidos (1976, de Nagisa Oshima) sofreram direta ou indiretamente a influência de cineastas como François Truffaut e Luis Buñuel que nos anos 60, respectivamente, já haviam entregado obras excepcionais (e sensuais) como Jules e Jim (1962) e a Bela da Tarde (1967). Este último baseado no romance de Joseph Kessel e estrelado pela diva Francesa de elegante beleza, Catherine Deneuve, foi um marco no erotismo feminino, obra genial de Buñuel e um clássico do Cinema Francês ao retratar a atriz no papel da burguesa Séverine Serizy, esposa frígida do médico Pierre(Jean Sorel) e prostituta de luxo no bordel da Madame Anais (Geniviève Page) pelas tardes. Com a Bela da Tarde, Buñuel revelou a vida dupla de uma mulher, suas fantasias sexuais secretas e reprimidas, seus desejos de ser uma lady para o marido e uma puta para estranhos homens, uma fantasia que faz parte do imaginário de muitas mulheres.







O cineasta Espanhol Luis Buñuel, o gênio por trás de obras primas como O cão Andaluz (1928) e O Anjo Exterminador (1962) sempre foi um homem das controvérsias, e foi com seu comportamento polêmico e cômico que ele se consagrou com uma filmografia única, subversiva, audaz; não a toa Buñuel é uma das inspirações do grandioso Pedro Almódovar. Exilado por um período no México após ter chocado Paris, curtiu a vida adoidado como se estivesse em um mundo surreal próprio, criado a partir de seus sonhos, tanto que ele era amigo pessoal do pai do Surrealismo, Salvador Dalí e há elementos psicanalíticos, surreais em seus filmes, o que o torna um diretor exato para conciliar estudos de Cinema com a Psicanálise, sua simbologia e a interpretação dos sonhos como uma manifestação dos desejos sexuais inconscientes, repreendidos. Em A Bela da Tarde, uma obra magistral, libidinosa e libertária, Séverine persegue a realização do seu tesão sufocado, transitando entre a realidade e a imaginação de primorosas e delirantes cenas by Buñuel. A bela esposa que tem uma vida entendiante e traumas da infância se permite viver o sexo desenfreadamente, não importa se aqueles eróticos prazeres fazem parte de seu mundo real ou surreal. Séverine rompe a barreira dos bons modos e costumes religiosos e burgueses, é amarrada, humilhada, chicoteada, beijada e desejada por vários homens dando vazão aos seus desejos masoquistas por trás da fina costura de suas impecáveis roupas.






Magnificamente,
Buñuel expõe elementos autorais que estão em linha com a forma como ele pensa e como ele é. Com sua postura antiburguesa, ele dirige uma mulher requintada que usa Pierre Cardin, grande estilista da época, e usa perfumes caros, que tem uma delicada e 'aparente' ingênua beleza, porém tem devaneios no qual está sendo humilhada sentindo prazer com lama na cara e sendo chamada de 'vagabunda' pelo marido, ou seja, esta é a burguesa segundo os olhos de Buñuel, colocada como uma prostituta de bordel, um corpo em libidinosa libertação, não para o mal de uma mulher ( e aí está a ironia) mas para não ter o seu feminino psíquico assolado por desejos amortecidos, proibitivos pela hipocrisia social. O bom e ridicularizado marido 'burguês' não tem a esposa burguesa em sua cama, nem para o sexo e nem como companhia já que dormem em camas separadas e, no desenvolvimento da película, ele sofrerá as consequências da traição, mas a infidelidade foi tão ruim para o marido traído? Foi ruim para a esposa adúltera? A cena final deixa em suspenso se a ' a vida dupla de Severine' foi bom para a família burguesa ou não. Depende da perspectiva do marido ou da esposa (e porque não da perspectiva do espectador), ou talvez, a película não passou de um sonho. Definitivamente, Buñuel brinca com a burguesia, a cutuca neste complexo e denso drama erótico, fetichista e deixa para o espectador a eterna dúvida que somente bons roteiros são capazes de imortalizar, este aqui escrito magistralmente por Jean-Claude Carrière.








Mas a rebelde crítica 'autoral' de Buñuel não pará somente nas cenas nas quais Sevérine está se divertindo no bordel de Anais ou libertando suas perversões recalcadas no surreal onde tudo é possível; há alguns planos que reforçam os desafetos de Buñuel, um deles com a igreja e a religião católica, posição contrária que ele também expôs em filmes como Viridiana (1961) e Tristana (1970) . A bela e jovem burguesa já não gostava nem de participar da Eucaristia quando criança e, em uma das cenas, Severine se recusa a aceitar a hóstia. Por que ela se recusa? Como ateu, Buñuel se vinga da religiosidade nesta cena que, aliás, se torna comicamente mordaz. É sabido que a religião poda a realização de desejos carnais, obscuros, pervertidos e, tomando como base que o sagrado sacramento do casamento tem que ser respeitado, Severine põe em prática tudo que a igreja condena. Ela é uma afronta aos bons costumes de uma esposa fiel mas ela não é qualquer mulher, ela é a bela de Buñuel, a heroína da tarde. Por outro lado, o amigo de seu marido, o galanteador Henri Huddson ( Michel Pìccoli) tem uma tara irresistível por Sèverine (enquanto ela finge ser uma boa moça). De maneira muito aberta e cafajeste, ele flerta com ela, mas ela não dá a mínima porque, por mais sem vergonha que ele seja, a premissa básica da libertação sexual de Severine é embrenhar-se no desconhecido, no inusitado, no mercado 'informal' da prostituição de luxo no qual ninguém pode reconhecê-la, controlá-la, repreendê-la. A prostituição se torna um campo livre, secreto, paralelo. Mais adiante, Buñuel agrega à película uma abordagem de ação e suspense embalados pelo perigo da vida dupla. Como alegria de 'bitch lady' dura pouco, Severine se envolve com Marcel (Pierre Clémenti), um dos seus clientes e um homem estranho, obsessivo, ligado à atividades ilegais que se apaixona por ela e começa a perseguí-la. É possível observar que Severine se encanta por este fora da lei, nitidamente um pertubado, o que sinaliza que ela gosta do perigo e da emoção do prazer com um homem atraente, temeroso e totalmente diferente do seu afetuoso e tolo marido. A característica 'bad boy' de Marcel é totalmente coerente com o perfil masoquista de Severine nas quais o homem é autoritário, destemido, quase nocivo.









Bela da tarde é um belo clássico porque não se trata somente da liberdade do Erotismo feminino, a presença consagrada de Catherine Deneuve em uma atuação memorável, a formidável combinação de elenco, fotografia, roteiro e direção, mas pela forma como Buñuel combina bem com seu próprio filme, reunindo um olhar fílmico que lhe é muito particular em um fluidez narrativa na qual até os cortes são magníficos. Ele é um provocador porém, em A Bela da Tarde, ele o faz de uma forma sublime que, ambiguamente, choca sem chocar afinal Severine não se torna odiosa, mesmo que haja uma crítica social que a acompanha. Ela traí e não se arrepende . Cinismo? Não; provavelmente ela está sendo autêntica como os tradicionalistas deveriam ser e, desta forma, mais uma vez um ponto positivo para Buñuel porque ele faz com que a infidelidade não tenha status de traição e sim de liberação dos desejos repreendidos. Para ajudar neste ponto, a estonteante Catherine Deneuve ganha a simpatia do público e suas escapadas conjugais são perdoadas porque, verdadeiramente, o público se deleita como voyeur desta vida dupla, e muito provavelmente a fantasia da Belle de Jour é uma das mais populares. Severine é dócil, educada, refinada que aparenta ser mais a mulher traída do que a esposa infiel e, por isso, A Bela da Tarde tem sua veia cômica, muito bem impregnada no conjunto geral da obra.








Como um livre pensador, um cineasta subversivo, um amante do Surrealismo, um confesso machista, um antiburguês e anticlero, Buñuel não tinha nada a perder a não ser comunicar a sua visão de uma mulher bonita, elegante e endinheirada que não era feliz sem ter sua vida dupla de esposa e prostituta. No decorrer do tempo que Severine faz os programas, ela se torna uma esposa mais sorridente, mais agradável e mais simpática com o marido e, bravo, o humor negro reside neste tipo de comportamento dela, a ironia de Buñuel tomando conta da família burguesa, dizendo ao espectador: 'Veja esta mulher. Ela está mais feliz, mais realizada e até o marido será favorecido com isso'. Severine é infiel por uma questão de sobrevivência já que ela não suporta nem dormir ao lado do marido, ela não é um ser sexual completo e, psicanaliticamente, repreender tais desejos poderá causar-lhe muito mal e afetar a continuidade de seu casamento. Louco, não? Sim. O gênio Luis Buñuel joga com esta reflexão das pulsões sexuais e a crítica severa à sociedade. Severine está feliz com a vida dupla e, provavelmente continuaria nela, ano após ano descobrindo prazeres diversos, e ainda sendo uma 'adorável e sofisticada' dama, cuidando atenciosamente do marido.



Avaliação MaDame Lumière






Título original: Belle de Jour
Origem: França, Itália
Gênero: Drama
Duração: 101 min
Diretor(a): Luis Buñuel
Roteirista(s): Jean-Claude Carrière baseado em romance de Joseph Kessel
Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clémenti, Françoise Fabian, Macha Méril, Muni, Maria Latour, Claude Cerval, Michel Charrel, Iska Khan, Bernard Musson, Marcel Charvey, François Maistre








7 comentários:

  1. Você apresentou todos os argumentos plausíveis para eu tomar vergonha na cara e assistir logo este filme!
    Ótima resenha, Madame!
    Bjs =D

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  2. Cinco estrelas, é? Interessante.

    Gosto muito do Buñel, mas ainda não vi esse.

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  3. Fabuloso! Buñuel apresenta resquícios de maestria a cada fotograma, "A Bela da Tarde" é um filme extraordinário, que traz uma Catherine Deneuve no auge da beleza e em um trabalho louvável como a protagonista da fita.

    Excelente crítica, MaDame.
    arrebentou, ocmo sempre. Análise profunda e vertical de uma das mais emblemáticas obras da história do cinema.


    grnade abraço!

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  4. Oi Vizinha,

    que belo texto!

    Adoro este cineasta surrealista: 'Discreto Charme da Burguesia" dentre outros.

    Já assistiu " Um Cão Andaluz" filme mudo da fase dele com o Salvador Dali? Nunca esqueço aquela clássica cena em que Buñuel mostra o olho de uma mulher sendo cortado e ele corta a cena para uma lua cheia!

    Acho a Catherine Deneuve bela de dia, de tarde e de noite, rs!

    Adorei este post e o trailer que vc resgatou.

    Au revoir Dietrich!
    Bjs.
    Rodrigo "The boy next Door"

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  5. Já ouvi falar tanto deste filme, mas nunca o assisti!

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  6. Nossa! Estupefado! Que resenha. Sensacional mesmo. Já vi este filme há muito tempo e confesso que foi um prazer reler sua crítica. Realmente Buñuel é um autor muito hermético e, na minha opinião, nem sempre satisfatório, mas aqui ele é genial. E toda a genialidade dele foi dirimida pelo seu olhar.
    Parabéns!
    bjs

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  7. Sensacional este filme é uma obra-prima de Luis Buñuel com excelente atuação de Catherine Deneuve e um clássico histórico do cinema francês.

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