terça-feira, 29 de junho de 2010

Beleza Americana (American Beauty) - 1999

Esta belezura pode conter alguns spoilers



Beleza Americana é um filme impecavelmente bem elaborado, merecidamente premiado e de argumento esplendidamente atual. O primeiro longa-metragem de Sam Mendes é um marco da sua estreia bem sucedida na direção, com direito à honra de ter sido convidado pelo cineasta Steven Spielberg para esta produção, e contar com um dos roteiros mais precisos, profundos e verdadeiros do Cinema assinado por Alan Ball e ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de 2000. Além da excelente qualidade dos elementos intrísecos ao filme como elenco, fotografia, trilha sonora, direção e montagem, Beleza Americana tem sua perfeição em um atemporal roteiro 'dramático-cômico' existencialista, duplamente eficaz o qual transita primorosamente entre o drama individual que é também um drama coletivo e entrega à audiência uma crítica acirrada ao mundo das aparências que é a sociedade americana, uma sociedade que pode ser também a de todos nós, mergulhada em uma vida teatralizada na qual o ser humano é um solitário no vazio palco de sua existência.


Enfocando o cotidiano de uma família suburbana Americana, o longa-metragem apresenta o casal Lester e Carol Burnham (Kevin Spacey e Annette Bening) que convivem em um casamente entediante, de aparências. Lester perde o emprego, atravessa uma crise de meia idade e é abatido por uma depressão, além de ter que lidar com sua incompreensiva e estressada esposa, uma mulher fingida que trabalha como correta de imóveis e que se torna amante de outro corretor, o galanteador Buddy Kane (Peter Gallagher). Carol e Lester tem uma problemática filha adolescente Jane (Thora Birch), rebelde e complexada, que nutre um ódio mortal pelo pai e não tem diálogo com a negligente mãe. Seu estranho e misterioso vizinho, Ricky Fitts(Wes Bentley) admira Jane em secreto, se apaixona por ela e eles começam a namorar. Ricky é traficante de drogas, e ironicamente, vive sob o mesmo teto e mando militar de seu rígido pai, Coronel Frank Fitts(Chris Cooper), um homem bem grosseiro, machista, tradicional. Para completar o contexto, Lester vive um momento 'lobo côroa que gosta de jovens ovelhinhas' e se encanta pela amiga de Jane, Angela Hayes (Mena Suvari), uma loira que segue o insuportável padrão: gostosa, fútil e arrogante que se acha a mais bonita e desejada das garotas, superior a todos.




Sorria, sua vida pode ser uma mentira!



A evolução da projeção é muito inteligente; muito em função da forma como o elenco foi concebido e como suas lamentáveis estórias se cruzam nesta formidável direção, cooperando, então, para ressaltar o melancólico desta sociedade que parece fadada a fracassos, perdas e frustrações. A começar pelo comportamento do 'herói' Lester que, cansado de fingimentos e do nada que a vida lhe proveu, se rebela e decide viver a vida loucamente, apertando a tecla 'dane-se todos'. Muda seu comportamento: dá uma bela resposta ao ex-empregador, daquelas que grande parte das pessoas amargam até a goela por não poder dizer a um chefe, começa a malhar muito e ficar mais atrativo, aceita um trabalho aquém de sua qualificação pessoal, se interessa sexualmente por uma mulher mais jovem e fuma uns baseados. Ele é um autêntico homem maduro em crise, e tais mudanças o tornam mais feliz mesmo que seja com data e hora de expiração. Sua ambiciosa esposa que, aparentemente e tão superficialmente se esforça em ser uma profissional diferenciada, é um tragédia particular cujas escapadas conjugais são acompanhadas de uma boa dose de ingenuidade e fragilidade pessoais. Buddy Kane é o espertalhão, que transa com a mulher alheia, engana-a facilmente e se dá bem. Frank é machão violento e autoritário, que sufoca o filho e sufoca seus próprios desejos.


Por parte da juventude da película, Jane é a encarnação da adolescente alienada, imatura, insegura que tem devaneios homicidas e desejo de fugas que só complementam sua condição lamentável de não encarar a realidade dos fatos, propor um diálogo com os pais e ter autoestima. Ricky é um introspectivo jovem garoto cujo sistema de repressão paterna não funcionou(e nunca funciona), facilitando seu envolvimento com atividades ilegais, secretas e sua habilidade em mentir, ocultar. É um solitário, um ser esquisito, periférico para o mundo convencional e, com sua câmera na mão, Ricky filma o mundo como ele o enxerga, como ele o deseja, tanto que a beleza está em um saco plástico que palpita ao vento. Angela é um estereótipo da garota que a mídia valoriza: bonita e gostosa, porém desprovida de qualquer conteúdo inteligente, mergulhada na aparência de conquistadora e bem amada que oculta uma triste insegurança pessoal. Este é o retrato da família americana, esta é a irônica 'Beleza Americana', título original traduzido ao pé da letra e que é bem pertinente para dizer que esta é a sociedade que vive de aparências, que mostra uma 'pseudobeleza' por fora e seu interior é detonado, com isso, o brilhante tagline de Look Closer/Olhe mais de perto é uma mensagem clara à audiência para uma profunda e útil reflexão.



Está olhando o que?
Acredite...nem tudo é o que parece!




Sam Mendes é um ótimo diretor e ele parece destinado a filmar, em algum momento, alguma aparência do indivíduo que precisa ser revelada e um descontentamento com esta sociedade. Em Estrada da Perdição (Road to Perdition, 2002), um filho descobre que o pai não é um herói, mas um criminoso. Em Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road,2008), ele também coloca o 'sonho americano de família perfeita' em xeque e mate, enfocando momentos de aparências e crises famliares e existenciais nas quais o indivíduo que tenta se desprender destas amarras sociais acaba se dando mal, basta lembrar da Sra April Wheeler (interpretada por sua ex-esposa Kate Winslet), uma sonhadora da liberdade que teve um fim trágico. Sob a direção de Sam Mendes Beleza Americana tem uma orquestração inteligente, bem alinhada ao roteiro porque ele usa bons recursos para transmitir sua mensagem direta, sua 'voz visual': ele usa os personagens para denunciar tal realidade, colocando esta co-responsabilidade nas narrativas em off de Lester e na câmera de Ricky, desta forma aproximando o realismo e o intimismo do drama ao expectador para que ele 'olhe mais de perto' sob o ponto de vista destes personagens. Há um ótimo trabalho de edição nesta película, entrelaçando bem os planos narrativos com ação e reflexão, e toda a dramaticidade que cada um do elenco contribue, logo o trabalho de montagem cresce junto com a trama. A trilha sonora de Thomas Newman e fotografia de Conrad Hall são muito bem combinadas com a atmosfera do filme, inclusive a fotografia merece créditos por expressar este cotidiano suburbano, divididos entre cores neutras, vivas e escuras; basta lembrar daquela cena emblemática das pétalas de rosas vermelhas ao redor do corpo nu da ninfeta Angela com a qual Lester tem uma fantasia. Estando encantado pela jovem, aquele vermelho paixão dos sonhos eróticos de Lester é o oposto da vida real e cinza dele, um belíssimo e genial contraste visual e até mesmo emotivo na cena. Não é preciso tecer mais elogios à brilhante atuação de Kevin Spacey, que harmoniza perfeitamente bem os apelos sarcástico e trágico de Lester e a Annette Bening, que combina a caricatura de uma mulher dissimulada que, de tão fraca personalidade, merece a piedade do público. De maneira geral, todo o elenco absorve esta faceta do deprimente, frustrante 'American Way of Life', cada um trazendo um elemento doentio da sociedade com uma boa dose de humor negro.




E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R!



O início de Beleza Americana é ressaltado por um roteiro que faz o que a maioria dos roteiros deveriam fazer: Deixa o espectador curioso a respeito do resto do filme. Através da narrativa em off de Lester, deixa a seguinte incógnita: O que aconteceu ao pobre coitado do Lester, cuja vida parece um pesadelo? Ele está realmente morto? Com esta dúvida o espectador é guiado por uma série de situações muito cômicas, porém muito trágicas que só reforçam o quanto o ser humano finge ser o que não é, é alienado, é frustado e, imerso em seu triste e solitário drama, bastando a cada um rir de si mesmo e praticamente enlouquecer como Lester, aceitar sua autenticidade doa a quem doer e viver o que tem vontade de fazer. Mas qual é o preço disso tudo? Qual é o preço de ser autêntico? Qual é o preço de ser um Lester?



Avaliação MaDame Lumière



Título original: American Beauty
Origem: EUA
Gênero: Drama
Duração: 122 min
Diretor(a): Sam Mendes
Roteirista(s): Alan Ball
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Chris Cooper, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards, Barry Del Sherman, Ara Celi, John Cho, Fort Atkinson, Sue Casey

6 comentários:

  1. Oi vizinha,
    eu aqui pronto para dormir, mas antes me deparo com esta resenha incrível.

    Este filme jé é um clássico e acho que o Spielberg fez muito bem em passar o projeto para o Sam Mendes. Se o Spielberg fosse o diretor, provavelmente escalaria o Tom Hanks ou Richard Dreyfuss para ser o patriarca americano, rs!

    O roteiro é inteligente adoro duas cenas: quando a Annette canta "Don´t Rain on My Parade" do Bobby Darin, e achando que se deu bem, rs! Esta combinação na cena mostra o quanto ela é fútil, burra e frígida, achando que teve o melhor sexo com a majestade dos imóveis e a cena, obviamente, do saco plástico dançante que é o ponto alto do filme (o do Lester é uma masturbação matinal, rs).

    O elenco é ótimo. Todos acertam! Em especial Spacey, que é o herói de todo homem.

    Adorei a frase:'lobo côroa que gosta de jovens ovelhinhas' , na verdade o que ele precisava, e que o Alan Ball não escreveu, era de alguém que lhe desse um BOM "bom dia" querido/papai. O filme é uma crítica também,creio, ao "muro familiar"- os jantares da família americana eram tão diplomáticos que dava vontade de vomitar os aspargos!

    É a melhor tragédia/comédia do estilo de vida americano. Acho que Hollywood não vai mais produzir um filme com este quilate.

    A cena antológica da Mena Suvari nua entre as pétalas de rosa, foi filmada de cima para baixo ( o chão foi transformado no teto) em um belo plongée "upside down", rs!

    E com esta imaginação erótica tão delicada, não concorda comigo que o Lester era uma homem bacana? Não era bruto, porco e nem um pouco parecido com o vizinho machão enrustido.

    O preço de ser autêntico é pagar com juros pela sua autencidade. O preço de ser um Lester é viver uma vidinha idiota e creio que com ambas respostas, é o preço disso tudo!!

    Adorei!
    Beautiful, rs!

    Bjs.
    Rodrigo " The boy next door"

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  2. Madame,

    sem sombra de dúvida uma belíssima obra-prima do cinema moderno!

    Satírica crítica aos costumes, dotada de intenso vigor e altamente humana.

    Todo o filme tem um ar puro técnico brilhante, sem falar na narrativa bem inteligente de Alan Ball e o elenco com um timing perfeito.

    E O SACO DE PLÁSTICO BRILHA, PULSA, TEM SENTIDO E VIDA...

    Eis o realismo, a ironia e o simulacro da vida (cruel) moderna...

    "Para termos sucesso é preciso projetar uma imagem de sucesso”, mas em parte é assim que acontece.

    Adoro o fim, as máscaras caem e todos se revelam...filme impecável!

    Bem legal teu texto, eu postei sobre ele tem um bom tempo, depois leia lá...beijão!

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  3. Beleza Americana é um filmaço!
    Acho incrível e o jeito de Sam Mendes em criticar as famílias americanas é muito bacana, ele não faz rodeios apenas mostra tudo aquilo que já sabemos, mas fazemos questão em ocultar.
    Um belo filme!

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  4. O que eu mais gosto, em "Beleza Americana", é que ele critica uma certa hipocrisia da sociedade norte-americana, com o american way of life, seus subúrbios perfeitos. Na realidade, todos temos esqueletos no nosso armário e, um dia, eles podem aparecer. Já diz o ditado: quem não tem teto de vidro, que atire a primeira pedra....

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  5. Um filme absolutamente fantástico. Curto cada aspecto dele. Vencedor do Oscar mais do que merecido.

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  6. Olá, MaDame!

    "Beleza Americana" já nasceu um clássico. é um filme monumental que já entrou para a história do cinema como uma das obras mais poéticas e críticas à ordem social de uma época (veremos como será daqui uns anos). Filme sensacinal! Um dos melhores debuts do cinema. Mendes detém todo o controle de uma história sufocante, protagonizada por um personagem inesquecível - Spacey, como você ressaltou, atuação brilhante.


    Excelente texto para um excelente filme, MaDame! \o/


    Abs!

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