quinta-feira, 24 de junho de 2010

Flor do Deserto (WüstenBlume) - 2009






Flor do Deserto é a cinebiografia de uma verdadeira mulher flor cuja beleza está além do seu exterior. O título original do filme alemão 'WünstenBlume' é a essência da modelo e Embaixadora da ONU Africana Waris Dirie, cujo nome em Somali tem dignamente nome de flor, não qualquer uma mas a do deserto, aquela que supera todas as adversidades de uma vida seca, solitária, árdua, hostil, traumática e, de forma única na história de admiráveis mulheres, floresce para a vida, influencia tantas outras com a sua força, brilho e beleza. O longa-metragem dirigido por Sherry Horman, baseado na biografia "Desert Flower" e estrelado pela top model, atriz e Embaixadora da ONU etíope, Liya Kanebe, retrata a jornada de Waris, filha de uma família nômade de tradições somali-muçulmanas e vítima de mutilação genital aos 5 anos. Aos 13 anos, ela fugiu de casa para não se casar com um homem de 60 anos, atravessou o deserto sozinha rumo à capital da Somália, Mogadíscio, e depois seguiu para Londres com o tio diplomata trabalhando como doméstica. Tendo a oportunidade de sair de Londres e voltar à Somália, Waris fugiu do exílio político porque se recusara a voltar ao país que a circundara. De rara e exótica beleza, ela foi descoberta pelo famoso fotográfo Terry Donaldson (Timothy Spall) e se tornou uma modelo de sucesso. Cansada de discursos midiáticos e maniqueístas como 'a pobre modelo africana que atravessou o deserto com os pés descalços e conseguiu uma carreira meteórica subindo nos saltos altos das passarelas de moda', Waris decidiu denunciar ao mundo a atrocidade que foi cometida contra o seu corpo, seu feminino, sua sexualidade: a excisão de seu clitóris. Desta forma, chocou a opinião pública e se tornou uma mulher influente na agenda global de Direitos Humanos, lutando contra a prática de mutilação da genitália feminina, muito recorrente nos países Africanos.










O enfoque na cinebiografia de Waris é dirigido com idas e vindas de sua vida, entrelaçados com flashbacks de sua infância, sua fuga no deserto, seu triste e pobre começo em Londres, sua amizade com Marylin (Sally Hawkins, que faz o papel da londrina que a ajudou quando Waris andava pelas ruas como uma sem teto), seu casamento de fachada com Neil (Craig Parkinson) para obtenção do visto, seu flerte relâmpago com Harold Jackson (Anthony Mackie) e sentimentos como vergonha e timidez por sua condição circuncisada e as dificuldades iniciais para se estabelecer como top model, todos combinados com uma excelente fotografia de Ken Kelsch (principalmente as da paisagem Africana) e uma carismática atuação da bela Liya Kabede que não compromete a veracidade da biografia, principalmente considerando que ela é uma modelo assim como Waris, ainda está começando sua carreira de atriz e é o seu primeiro papel protagonista. Além disso, Liya é uma modelo advinda da Etiópia, um dos países que mais praticam a mutilação genital feminina e ela é atuante como líder Global no pilar 'Mulheres e Crianças' da Organização Mundial da Saúde, então ela consegue lidar bem com o papel, em um processo de entrega e conhecimento dos problemas de afligem as mulheres africanas. A jovem Waris é interpretada por Soraya Omar-Scego, em uma performance rápida, porém sensível e expressiva o suficiente para ganhar a empatia e a sensibilidade do público.











Embora o foco narrativo seja expor a biografia de Waris Dirie e o registro é realizado como a dar forma a toda a jornada da modelo, o tema da mutilação genital feminina é tratado com cuidado e não de forma tão agressiva, aberta e escandalosamente denunciatória. A denúncia está no filme, porém refletida em cada cena a partir de como a mutilação atingiu diretamente os dramas pessoais de Waris. Aqui, os desdobramentos de tal cruel prática ocorrem naturalmente na vida da modelo: ela tem que fugir do seio de sua família, se torna uma menina orfã de uma nação que mutila suas crianças, passa fome no deserto, vive como uma moradora de rua em Londres, tem dores e é hospitalizada por conta dos traumas desta uma mutilação, tem que suportar um casamento sem amor e a vergonha e o receio de se envolver amorosamente com um homem, etc; ou seja, a biografia de Waris é acompanhado pelo fantasma de seu passado e, em momento algum, ela é posta como vítima pelo filme com o intuito de manipular a emoção do expectador, pelo contrário, a direção é mais realista até na dolorosa e comovente cena da excisão feminina, por isso, reserva ao expectador se sensibilizar com o polêmico tema que traz consequências terríveis à vida de uma mulher: a perda da fonte de prazer feminino, problemas psicológicos e físicos, preconceito social, etc. Também, de uma forma bem 'smart', a cineasta soube pisar 'com cuidado no território das relações exteriores que esbarram em tradições cutlurais e religiosas', já que este é um filme que denuncia um traço cultural forte da África e, conta com 2 embaixadoras da ONU, uma organização que preza pela diplomacia entre nações, por isso, a cena final na sede da ONU dá ao filme uma legimitidade ainda maior como se ele mesmo fosse parte de uma campanha patrocinada pelas Nações Unidas em defesa dos Direitos Humanos ou estivesse dentro de um território neutro, imune que "protege" tal polêmica discussão.








O filme é dirigido de forma bem convencional, então não há grandiosas interpretações e nem ações que impulsionam grandiosas reviravoltas, no entanto, o fato dele ser realista e de ser uma cinebiografia possibilita que Flor do Deserto seja contemplativo, inspiracional, reflexivo e capaz de mostrar à audiência como há tradições mortais em alguns países que impactam no bem estar físico, emocional, social e futuro de qualquer indivíduo, tradições que podem até matá-lo. De maneira geral, o filme tem uma história triste porém de bonita superação e isso já é naturalmente um modelo de que é possível dizer 'NÃO' a estas práticas abomináveis. Waris, a exemplo de outras africanas como a modelo Somali Ayaan Hirsi, foi hostilizada por seu próprio povo ao decidir denunciar que havia sido submetida a uma mutilação genital, inclusive despertando a fúria de radicais religiosos, que as queriam mais mortas que vivas, então ao final do filme, é perceptível avaliar que esta é a história particular de Waris Dirie e o momento dela dizer que ama o seu povo Africano e continua amando ser mulher mesmo que não aprove tal prática. Além disso, Flor do Deserto é uma película que remete à audiência uma mensagem chave: esta é a vida de uma mulher que sobreviveu em meio a tantas outras que já morreram, porém ela passou por um processo de circuncisão feminina na Somália e sofreu as consequências de uma atrocidade que tenta buscar motivações no Islamismo, porém não há citações no Alcorão que digam: abusem sexualmente de uma mulher, amputando seu clitóris, cortando seus grandes e pequenos lábios, retalhando sua genitália sem anestesia e com imundos instrumentos, e deixando sequelas irreparáveis em sua vida. Esta é mais uma prática resultante da ignorante interpretação de homens que usam a religião e as tradições de um país para subjugar vidas de pessoas inocentes, principalmente, agredir mulheres e crianças, as escravizando em uma situação sem saída, as matando instantaneamente ou pouco a pouco na traumatizante vida que lhes resta Atualmente, estima-se que mais de 150 milhões de mulheres já sofreram e sofrem esta violência física e tortura psicológica. Os números já tiveram um decréscimo, inclusive após a luta de Waris à frente deste tema, porém, ainda há muito a ser feito. Esta vil ignorância não pode continuar contra a mulher e nem contra nenhum ser humano que tem livre direito sobre o seu corpo, seu prazer, sua vida.



Avaliação MaDame Lumière




Título original: WünstenBlume
Origem: Inglaterra, Alemanha, Áustria
Gênero: Drama, Biografia
Duração: 120 min
Diretor(a): Sherry Horman
Roteirista: Smita Bhide, Waris Dirie, Sherry Horman
Elenco: Liya Kebede, Sally Hawkins, Craig Parkinson, Meera Syal, Anthony Mackie, Juliet Stevenson, Timothy Spall, Soraya Omar-Scego, Teresa Churcher, Eckart Friz, Anna Hilgedieck, Matt Kaufman, Emma Kay, Eliezer Meyer, Prashant Prabhakar

4 comentários:

  1. O seu texto não me deixou tão empolgada assim com o filme, mas o tema dele é interessante e eu veria a obra por causa disso.

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  2. É um filme simples, mais contemplativo mesmo, não há como elogiá-lo mais do que isso em meu texto, porém, tomando este tema controverso como base, você não irá se frustar, não deixa de ser uma denúncia ou, no mínimo, uma reflexão sobre tal atrocidade.abs!

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  3. Fiquei interessado, mesmo que não aparente ser um "grande filme".

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  4. Nossa Madame, que estória. Ter o clitóris cortado, é fogo!
    Cruzes!
    Ótima resenha, fiquei tentado a conferir o filme!
    Abs.

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