sábado, 5 de junho de 2010

Tudo pode dar certo (Whatever Works) - 2009



O mais recente projeto da filmografia de Woody Allen é o seu retorno à Nova York e a contínua evocação de algumas referências cinematográficas muito próprias de seus geniais roteiros, sintonizados com a angustiante vida moderna do homem neurótico. Desta vez, o renomado diretor entrega ao expectador um filme bem autoral da forma como ele enfoca as neuroses contemporâneas, neuroses que são recorrentes mas nem sempre facéis de encarar e aceitar. Servindo-se de um tipo de alter-ego bastante rabugento, Woody Allen coloca um protagonista idoso em foco, o Sr. Boris Yellnikoff, que simplesmente odeia o mundo e faz críticas bem pertinentes que detonam, com uma negra ironia, da religião à política, passando pelos já costumeiros relacionamentos afetivos. Quem interpreta Boris é o hilário Larry David, criador da série Seinfield, um papel que lhe caiu como uma luva porque ele incorpora o típico coroa ranziza "ame ou odeie", sua língua cortante e sem limites reproduz com veracidade e genialidade a "modern big picture" que é bem própria de Woody Allen.


Boris é um idoso separado, suicida, quase indicado ao Nobel de Física, que vive sozinho em um espelunquinha de Nova York e dá aulas de xadrez para crianças. Ele também tem problemas hipocôndricos e certas neuras como ataques de pânico e cantar "Parabéns para você" quando lava as mãos no banheiro. Certo dia, conhece uma jovem loira, bonita e "tolinha", Melody (Evan Rachel Wood) advinda do sul, sem lugar para morar, sem um tostão nem para se alimentar. Ela implora para que ele a ajude. Por um milagre, Boris oferece espaço para Melody em sua casa até que ela arrume um emprego. Aos poucos se conhecem, se apaixonam e se casam,
até o dia que há outros desdobramentos na vida do casal: Melody recebe a visita de sua religiosa e conservadora mãe Marietta (Patricia Clarkson, em ótima atuação), recém abandonada pelo marido. Marietta odeia Boris, mas dá conta de cuidar da própria vida, se torna uma artista e se envolve em um relacionamento bem "moderninho" com dois amigos de Boris. Melody conhece um atrativo e jovem ator, Randy (Henry Cavill) que desperta inesperados sentimentos na jovem, e o pai de Melody, John( Ed Begley Jr) aparece na tentativa de reatar o seu casamento com Marietta. Todas estas relações reforçam a mensagem final da película.





Tudo pode dar certo é filmado para ser divertido e convidativo, entrar na realidade de Boris e demais personagens e não deixar nenhuma piada passar desapercebida, afinal o humor é uma das mais perfeitas formas de criticar afiadamente. Todas as atuações são boas, verossímeis, mas quem brilha é o divertidíssimo azedume de Larry David. C
om opiniões bem negativas a respeito do mundo e da humanidade, Boris é o âncora do filme, o interlocutor da mensagem Woodyalleniana. Ele é um velho chato e grosseiro, mas cheio de razão por isso cria empatia. Nada escapa à sua crítica e, até quando recebe palavras gentis, Boris tem um comportamento de se isolar das pessoas, mas ao mesmo tempo é dirigido por Woody Allen com o recurso de falar diretamente ao espectador, ou seja, Boris se dirige à câmera e diz :"Você quer saber da minha história, vou contar-lhes", " E vocês que estão aí nos olhando?". Sem dúvidas, um recurso que não só colabora para uma maior intimidade com a obra como também um processo de identificação com as ácidas declarações do protagonista.




Neste contexto, o relacionamento de Boris e Melody tem o toque autobiográfico de Woody Allen que aprecia selecionar jovens e bonitas atrizes no Cinema e casou-se com a jovem filha de sua ex-mulher, mas este traço não é o que importa aqui, embora ele adore retomá-lo. O que importa é o título do filme, Whatever Works (melhor traduzido como "Qualquer coisa que funcione") que se torna a base do longa-metragem, é muito útil para uma reflexão da existência humana e que transmite uma idéia que normalmente o ser humano não aceita fácil porque há muita cobrança individual/social: Nem tudo funciona(rá) como desejamos, então que venha "qualquer coisa que funcione." Whatever works é como um mantra, uma filosofia para
Boris Yellnikoffs que, mesmo sendo um homem bem negativo, sua rabugenta racionalidade não é tão equivocada porque seu ceticismo é como aceitar o que a vida se propõe a entregar a cada um dos homens, sem divagações otimistas. Sabe aquele momento que a vida é tão tratante e que ficamos tão céticos com ela que o melhor a fazer é esperar o que ela tem a nos oferecer? É por aí...esperar "qualquer coisa que funcione". Boris é um homem que teve o casamento destruído e um suicídio mal sucedido ( ficou manco por conta disso), além de "quase" ser indicado a um prêmio Nobel, então mesmo que ele se intitule um mente brilhante, acima de qualquer outra inteligência, ele tem uma vida frustrante, neurótica, fracassada. Faz todo o sentido ele encarar a vida assim e há prós em encará-la assim. Menos chance de se frustar, por exemplo.





No final das contas, o que importa não é a nossa relação como o mundo, com a morte, com a doença, com o amor, com a vida como um todo e nossas enlouquecedoras neuroses sobre as quais nem sempre temos controle, o que importa é "qualquer coisa que funcione" ( e que é imprevisível), é estar aberto a isso e recebê-lo, então, de certa forma, dentro do negativismo de Boris há uma nuance otimista, pelo menos, um realismo de colocar nossos pés nos chãos mesmo com o alto nível de exigência e insatisfação da vida moderna e urbana e, Woody Allen reúne uma miscelânea de assuntos que nos afligem os expondo muito rapidamente mas soltando o "verbo" exatamente para que possamos pensar sobre eles, nossas neuras. Convém mencionar que, avaliando os diálogos precisos de Woody Allen, o "whatever works" é tão perfeitamente intríseco na trama a partir do que ocorre nos relacionamentos entre Boris e Melody, Melody e Randy, Marietta e seu "menage a trois", Marietta e John e Jonn e seu novo amor. Todos recebem "o que está funcionando naquele momento", vivem o que tem que viver e quebram repetidos tabus sociais que ainda são perseguidos por preconceitos como os relacionamentos matrimonial a três, amoroso entre um(a) idoso(a) e um(a) parceir(a) mais jovem e o homossexual.
Com um texto fluído, rápido, objetivo, sarcástico, inteligente e divertido, Tudo pode dar certo é um deleite para quem gosta e acompanha o trabalho do diretor, especialmente, a forma como ele resume as pirações do homem contemporâneo e como há muitos fracassos na vida que também trazem o tal do ceticismo de Boris, porém a vida continua, não é mesmo? Certamente, não é o seu melhor longa-metragem que tem uma filmografia excelente com obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Match Point e Vicky Cristina Barcelona, mas é uma comédia dramática exata para pessoas que se identificam com o riso mais cético, cheio de sarcasmo que, com praticidade, revela como é a relação dramática do homem em crescente sentimento de insatisfação e decepção que habita a neurótica e cosmopolita selva.



Avaliação MaDame Lumière


Título Original: Whatever Works
Origem: Estados Unidos
Gênero(s): Comédia Dramática
Duração: 92 min
Diretor(a): Woody Allen
Roteirista(s): Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill, Ed Begley Jr, etc.

13 comentários:

  1. Acabei de assistir e amei o filme! Estava com saudades desse tom sarcástico do Woody Allen.

    http://cinemasemfirulas.blogspot.com/

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  2. como assim? você só viu esse agora?! e só 4 estrelas?!?!?!?!??

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  3. Ah, adoro Woody - estou louco para ver este.

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  4. Ahh Madame, esse é mais um filme que estou na espera de assistir, mas como sempre, ELE NÃO ESTREIA AQUI. Tô quase tendo que comprar um cinema particular, nada estreia aqui, rs
    Ótima crítica. Abs =)

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  5. Mais uma ótima opinião sobre um filme que eu quero muito conferir!

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  6. S: Obrigada pela visita. Eu adoro o sarcasmo, principalmente quando ele é inteligente e nos faz refletir sobre o mundo que a gente vive.
    abs!

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  7. Genes: YES! Só vi recentemente, e felizmente ainda está em cartaz em SP. Eu dei 4 estrelas porque 5 estrelas tem que ser muito obra prima. Acho que Woody Allen tem filmes melhores, provavelmente eu dê 5 estrelas para Annie Hall.
    abs!

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  8. Wally: Assista-o. Tenho certeza que você vai gostar porque acho que você adora um humor irônico..rs!

    Alan e Kamila: Tenho certeza que vão rir muito e acharão o azedume de Woody Allen bem pertinente, ácido e fun!

    bjs!

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  9. Bela crítica madame. E belo paralelo sobre o gosto de Allen por musas jovens. Havia passado ao largo dessa sutileza. Concordo massivamente com sua crítica, muito bem formulada por sinal.
    bjs

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  10. Toc! Toc! Sou eu vizinha e faz tempo que não faço uma visita, rs!

    Bela resenha. O que é dizer sobre um filme do genial Woody Allen? Com a Madame Tudo é certo!
    Pontos de vista ótimos e um texto que me deixou curioso. É muito bom experimentar assim, ler uma resenha adorável e depois conferir ao filme.

    Sabe, eu acabei de comprar em DVD o filme 'Celebridades'. Woody Allen sempre afiado e de bom humor. Depois de muitas travessuras na Europa, ele volta para a sua terra natal yorquina.

    AMO TBM; Anie Hall (já fiz uma resenha), A Rosa Púrpura do Cairo (IDEM); Poderosa Afrodite; Misterioso Assassinato em Manhattan, A Era do Rádio..enfim..Tudo o que vc sempeew quis saber sobre sexo.., Dorminhoco, Bananas..uma obra rica!

    Sem dúvida Tudo pode dar certo nesta película e tem um elenco interessante.

    Jazz, Nova York, o gênio judeu esta de volta! rs!

    Bjs Diva Amiga!

    P.s. Adoro o método Woody de olhar pra gente e conversar, rs!

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  11. Reinaldo,

    Obrigada pelo elogio. Pretendo conhecer mais ainda sobre Woody Allen. Percebi que tenho muito em comum com ele, inclusive na forma racional de ver as neuras da modernidade. bjs!

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  12. Oi vizinho,

    Adorei este Toc! Toc!
    Adoro quando vem me visitar e me dá o prazer de oferecer-me meu adoçante zero cal, rs!

    Woody Allen tem uma forma muito honesta de falar com a gente, né? Em um mundo cada vez mais mascarado socialmente, nem todo mundo aprecia o Woody, mas eu adoro a mente genial dele e a forma como ele expõe falas que normalmente outros roteiristas não teriam coragem.

    Hmm, vou conferir o "celebridades" do Woody. E bem que ele deveria ser de São Paulo, não acha? Seria hilário ele falar desta selva de pedra paulistana.


    Bjs, amigo muso!

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  13. CRISSSS amigo,

    Obrigada! Eu adoro a ironia de Allen, o azedume com humor sarcástico é uma bombástica e sofisticada combinação. Não há melhor forma de cutucar como esta.

    bjs!

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