quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings) - 2014






A adaptação bíblica de Êxodo, segundo livro do Antigo Testamento, dirigida por Ridley Scott em Êxodo: Deuses e Reis é um exemplo claro de que trailers podem enganar o público e diretores acomodados não conseguem contar uma grande história à altura de seus melhores trabalhos prévios. Ridley Scott, que dirigiu os excepcionais Blade Runner e O Gladiador, perde a mão e realiza um Êxodo preguiçoso cujo espetáculo visual e a experiência de Christian Bale no papel do líder Moisés não salvam a história, contada com didatismo como se fosse para produtor executivo ver e orçamento ser justificado. Para piorar a situação, o longa se estende por 2 horas e meia com um roteiro problemático no qual as  ações não são desenvolvidas e encadeadas com boa utilização de função dramatúrgica de personagens como Ramsés (Joel Edgerton), o ancião hebreu Nun (Ben Kingsley) e Josué (Aaron Paul).  Por consequência, a subutilização de personagens coadjuvantes coopera para um filme que usa o efeito visual como muleta. Embora Ridley Scott esteja acostumado a sets com alto número de figurantes, ele não realiza eficientemente um dos pilares da direção: a de atores; evidência clara é o quanto Ramsés é um rei patético, secundário e  dispensável para o rumo da história.





Êxodo coloca em cena Mênfis, cidade do Império Egípcio. Ramsés, filho do faraó Seti (John Turturro) e o guerreiro Moisés, adotado pela família, foram criados juntos, porém têm diferentes perfis. Moisés tem uma liderança nata, é corajoso, leal e grandioso em campo de batalha. Ramsés é um  mimado, invejoso e megalomaníaco. Ao ser enviado para a cidade de Phiton para averiguar os atos de corrupção do vice - Rei Hegep (Ben Mendelsohn), Moisés vê o sofrimento da escravidão imposta ao povo hebreu  e conhece o ancião Nun, que lhe conta a sua real origem hebraica e sua missão de libertar os hebreus do Egito e guiá-los à Terra Santa de Canaã. No retorno de Moisés à Mênfis, após a morte de Seti, Ramsés assume o poder, descobertas, intrigas e conflitos relacionados à origem e missão de Moisés iniciam  o confronto entre eles e o desdobramento das profecias proferidas por Deus ao Egito.





Com experiência em épicos, teoricamente, Ridley Scott seria uma boa opção para esse longa baseado em uma história épica e preexistente. Diferente de Darren Aronofsky, um diretor que não está acostumado a épicos, assumiu a direção de Noé e entregou um longa abaixo do nível de qualidade de sua filmografia, Ridley entende muito bem do gênero e consegue conduzir um número elevado de pessoas em um set com a grandiosidade de efeitos visuais de reminiscências míticas, como os ocorridos em O Gladiador. Nesse ponto, ele sabe fazer show épico e Êxodo tem a virtude de recriar cenas emblemáticas como a invasão de pragas no Egito com toda a realista impecabilidade gráfica. O problema é que a imagem não diz tudo quando a história não tem alma e coração. Aqui, ela não incentiva o público a acreditar no que as personagens estão vendo, falando e sentindo, portanto, esse é o principal problema do longa: a construção da narrativa. Sob a perspectiva da eficácia, o diretor somente teria que "comprar a história" e aceitá-la genuinamente como um exímio contador de histórias independente de suas crenças. Entre tantas, a função do diretor é prover um olhar mais narrativo ao drama, atuar como guia e facilitador dos atores a mimetizar emoções verdadeiras  e trabalhar mais as funções de cada personagem do que só o espetáculo visual. Em vários momentos, o  filme dá a ideia de que o diretor não acreditava no que estava filmando e o tratou apenas como um trabalho, o que desperdiça o potencial narrativo da história e a função do diretor.






Dentre as principais evidências problemáticas de Êxodo relacionadas às escolhas narrativas de personagens, existem três que chamam a atenção : a primeira é colocar Deus como uma criança emburrada e bastante antipática que não se conecta ( nem "espiritualmente")  com o responsável por libertar o povo hebreu do Egito. Se a intenção de Ridley Scott foi mostrar um Deus que manda e desmanda como um tirânico, o tiro saiu pela culatra pois essa criança não convence nem o mais ateu dos públicos. É uma criança fria, sem carisma como ator, sem relevante função narrativa  e  que não se comunica adequadamente com Moisés Se o propósito do diretor foi afrontar a religião Cristã ao colocar uma criança chata como Deus, ele desvalorizou o potencial do Cinema como palco de histórias épicas para se conectar com o público leigo (ou não). A segunda evidência é o desperdício de Christian Bale que, com sua experiência tenta tornar Moisés interessante mas que não tem a base de um bom roteiro e de um lúcido diretor de atores para guiá-lo na construção de uma personagem bíblica, por conseguinte, a liderança de Moises é impactada e não exalta a importância da mimésis de um líder. O terceiro aspecto fica por conta de Ramsés, praticamente um figurante, uma bomba recebida por Joel Edgerton . O ator foi incapaz de realizar um papel de tirano e nem mesmo a megalomania do faraó é explorada na elevação do seu ego em cena. É uma personagem fraca de caráter e fraca na ação. Seus confrontos com Moisés não evocam nenhum tipo de vínculo genuinamente exposto através da atuação, seja para o ódio, amor, inveja etc. Com esses problemas narrativos, no geral, Êxodo: Deuses e Reis é um projeto mal concebido e deve ser levado em consideração somente pelo espetáculo visual. Definitivamente, ele é Ridley Scott ligado no piloto automático. 







Ficha técnica do filme no ImDB Êxodo: Deuses e Reis

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