segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Still Alice - 2014




Richard Glatzer e Wash Westmorelan estão juntos em mais uma direção, Still Alice, estrelado por Julianne Moore como Dr. Alice Howland, uma professora de Linguística da Universidade de Columbia que recebe um diagnóstico precoce e raro de Alzheimer. Baseada no livro de Lisa Genova, a adaptação narra o drama irreversível da perda de memória e da linguagem, desde a descoberta da doença, os impactos na carreira até o relacionamento com a família e a evolução do quadro clínico. Com uma atuação sensível e madura de Moore, é um filme comovente e coloca a atriz como uma das favoritas ao Oscar.


É um filme que emociona pelo tipo de doença e como Alice perde o controle sobre si mesma por mais forte e brilhante que ela seja. Perder o controle e não poder cuidar de si mesma, essa é a reflexão do ponto nevrálgico do Alzheimer. Em variadas cenas, nos é dada a oportunidade de se conectar com o drama que demonstram que ela é uma mulher fascinante, ciente de seu estado e que enfrenta a doença com coragem. O longa depende totalmente de Juliane Moore para estabelecer essa conexão com o público e se apoia bastante na experiência da atriz que soube equilibrar muito bem a fragilidade de Alice  sem cair no hiper dramático, sentimentalista. Pode-se dizer que Juliane Moore incorporou a personagem com empatia e respeito por quem sofre do Alzheimer e seus familiares, o que coopera para a humanidade do longa. Para completar o destaque no elenco, Alec Baldwin que interpreta Dr. John, o marido de Alice, e Kristen Stewart como Lydia, uma das filhas do casal, realizam  um trabalho bem eficiente. Kristen mostra que tem escolhido bons papéis e amadurecido na atuação.




Julianne Moore: Maturidade, preparo e precisão na atuação



Still Alice é um daqueles filmes que têm a intenção de envolver o público como um engajamento emocional. É necessário conectar-se ao drama de forma madura e aberta para extrair o melhor dele. Mesmo que as lágrimas apareçam e nos deixem vulneráveis por instantes ou dias, ele dá uma lição de vida muito pautada no Amor. A família de Alice tem suas diferenças mas é uma família unida, o que facilita o trabalho de adaptação para uma história no qual o apoio emocional é necessário, principalmente em um quadro de grave enfermidade. Durante a projeção, a família é uma personagem relevante para compreender como as pessoas mais próximas reagem à doença de um familiar.



Muito mais do que a seriedade do Alzheimer que, por si só, é uma doença degenerativa que incapacita quem a tem e consome a família, Still Alice tem virtudes interessantes que estão relacionadas à biografia da protagonista, que torna a história bem mais dramática. Como uma professora de Linguística, seu expertise é a Linguagem, o signo e o seu significado, a semiótica etc. Ter uma protagonista com esse background educacional e de carreira é muito trágico pois, se nos colocarmos no lugar de Alice, a palavra,  a linguagem, a memória são como a própria vida. Com a ausência das palavras e como estabelecer inter-relações entre elas e a memória,  a comunicação é comprometida. De maneira acertada nesse contexto, a intenção não é colocar Alice como uma vítima da doença mas muito mais como uma sobrevivente que é apoiada pela família e encara a doença de cabeça em pé. Alice usa de algumas estratégias para conseguir ter uma melhor qualidade de vida, mesmo com o avance do Alzheimer.



Kristen Stewart: Incorporou bem a função dramatúrgica da família.
Ótima coadjuvante.



Com relação à família, ela é um importante componente da narrativa, que foi construída com muito foco e direção de atores para não cair no sentimentalismo. Todos estão próximos e têm seus compromissos como trabalhar, ter filhos etc mas têm um papel a cumprir na dramaturgia ao relacionar-se com Alice: o de não tornar o sofrimento mais sofrido. Para quem já teve familiar com doença séria como câncer, Alzheimer etc, poderão compreender bem a construção desses personagens familiares.  As pessoas tendem a segurar a emoção, ou por não acreditarem que isso está ocorrendo em suas famílias (como se estivessem em um estado contínuo de negação), por ter alguma esperança ou porque precisam ser fortes o suficiente para reagir ao cenário da doença e prover o apoio e o amor que o ente querido precisa, entre outros. É natural ocorrer esse "desapego" das fortes e visíveis emoções durante a doença de um familiar.  Aqui ocorre o mesmo. A família é retratada com mais seriedade. Estão ali por perto e as emoções não são dilaceradas e expressas claramente, somente nos pontos estratégicos da narrativa. O desfecho mostra o poder das emoções que evoluíram pouco a pouco e é um dos mais bonitos no roteiro.


O ciclo do Alzheimer, que apaga a memória e  fragiliza Alice  tem um efeito devastador mas existe uma dignidade na forma como a história é narrada, tanto no enfoque dado à Alice como nos familiares, o que demonstra que houve um cuidadoso trabalho de pesquisa. Um dos grandes acertos da direção foi humanizar ao máximo a experiência cinematográfica com foco redobrado na maturidade de Juliane Moore para performar o papel. O filme é a atriz do começo ao fim, que tem responsabilidade clara de expressar o Alzheimer de verdade. Poucas atrizes em Hollywood seriam capazes de realizar esse drama, provavelmente somente do calibre de Meryl Streep e Kate Winslet, por exemplo. Dessa forma, o engajamento emocional com Alice se dá de uma maneira espontânea  e suas limitações são mais facilmente percebidas  resultando em sentir na pele a sua perda de linguagem e incapacidades. No geral, o filme nos ajuda a perceber que a comunicação é também exercer o direito da nossa identidade e, portanto, ver Alice definhar na sua capacidade de comunicar-se é bastante doloroso. Apesar do Alzheimer e a falta de esperança que o cerca, ali ainda está Alice, uma grande mulher.








Ficha técnica do filme ImDB Still Alice 

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