segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Jogos Vorazes - A Esperança Parte 1 (Hunger Games - Mockingjay - Part 1) - 2014




O terceiro filme da franquia Jogos Vorazes baseada no romance de Suzanne Collins chegou ao Brasil  com a costumeira gula de grandes (e vorazes) blockbusters: ocupação pesada de salas do circuito comercial. A diferença é que a 1ª parte do 3º livro da série entrou no jogo para ganhar a atenção massiva do público e provocou a polêmica de ocupar quase 50% das salas de todo o Brasil, um total de aproximadamente 1310 salas. Sob a direção de Francis Lawrence em sua 2ª colaboração na franquia, Esperança- P1 fez barulho com a esperada estreia porém foi incapaz de valorizar um dos seus aspectos mais atrativos: a ação na luta pela sobrevivência. O resultado é um filme mediano, mais emocional e que subutilizou sua heroina Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence).


Após Katniss sobreviver a dois jogos vorazes  e ver seu distrito natal destruído, ela é resgatada e levada ao 13º distrito. Nesse longa,  ela está  sob a liderança da Presidente Alma Coin (Julianne Moore). Apoiada por ela, o aliado estrategista Plutarch Heavensbeen (Philip Seymour Hoffman) e demais membros da equipe como Haymitch Abernathy (Woody Harrelson) e Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), Katniss participa de um plano de rebelião contra a Capital, faz parte da propaganda política com a inspiradora figura do Tordo, símbolo contra a opressão da Capital e do cruel Snow (Donald Shuterland). Ela também quer libertar Peeta (Josh Hutcherson).




Jennifer Lawrence: a roupa ficou legal mas cadê a guerreira?


No desfecho do segundo filme, o Em Chamas, o roteiro usou um gancho eficaz e inspirador que é baseado na esperança e na sobrevivência.  Para a série, o recurso foi positivo pois além de gerar uma curiosidade natural sobre o futuro de Katniss e Peeta, este viés esperançoso é uma estratégia para uma narrativa baseada em uma guerra contra o terror, na qual emerge uma heroína comum que precisa lidar com sua força interior e sua fragilidade nos sentimentos e escolhas. Essa característica da franquia é um bom material para o grande público, principalmente o juvenil. Porém, na continuação, o potencial narrativo do gancho foi mal usado pelo roteiro escrito por Peter Craig e Danny Strong e, além do mais, ele negligencia melhores diálogos e pontos de virada para apreender o melhor do conflito de uma guerra civil e o foco em Katniss como protagonista.  Ainda que é necessário ter esperança, o longa é morno ao colocar Jennifer Lawrence em poucas ações que demonstrem sua naturalidade para liderar uma rebelião.É como vê-la no limbo, mais chorosa e depressiva que determinada a lutar. As tomadas priorizam a artificial propaganda política e o script arrasta a tensão ao máximo mas não entrega bons planos dramáticos. 



Pode-se dizer que Esperança - P1 é um filme no qual Katniss está fragilizada. Até mesmo como manobra de propaganda política, sua imagem é mal utilizada e interação com o vilão Snow não é explorada. O roteiro não soube criar uma melhor narrativa quando os jogos saíram da ação e só ficou ela, em recuperação e cobrada por uma liderança na qual nem mesmo ela acredita piamente. É mais um problema de roteiro do que de direção. Jennifer Lawrence é boa atriz e tem de tudo para ser melhor explorada nas cenas mas aqui ela não tem muita ação e deve ter sido difícil para ela lidar com essa continuação. Um exemplo disso é colocar um figurino de super herói nela, como uma arqueira impetuosa que fará a diferença na narrativa e, o máximo que ela faz é lançar uma flecha no caça inimigo. No mínimo, é frustrante e incoerente. No geral, a história se apega a momentos emocionais e cria situações que ressaltam essa estratégia de conexão com o público jovem como a relação romântica dela com Peeta  e o seu sofrimento, a versatilidade de Jennifer Lawrence em surpreender  a cena pop/fashion como cantar Hanging Tree (que alcançou notoriedade musical nas paradas), a trilha sonora com hits de Lord e Ariana Grande.  





Julianne Moore como Alma Coin, a presidente do 13º Distrito:  
Experientes como ela, Philip Seymour Hoffman, Jeff Bridges, Meryl Streep 
aparecem em filmes distópicos


Outro apego emocional é observar Katniss mais confusa e preocupada com a vida de Peeta do que com o significado de ser o tordo. Se ela não pode interpretar a importância do Tordo na tela, por que acreditar nesta esperança? Quando as dúvidas de Katniss pairam no livro ( e elas existem, como os sentimentos por Peeta e Gale), fica mais fácil para o leitor entendê-la, porém quando essa obra é adaptada para um produto audiovisual com o apelo marketeiro de Jogos Vorazes, ela tem que ser convincente e o diretor tinha que ter um melhor roteiro para explorar essas questões sem cair no apelo sentimental não muito eficiente ou uso de muito texto e planos sem força dramatúrgica; como por exemplo,  em uma das cenas há um beijo entre Gale e Katniss sem muito efeito na narrativa, por que colocá-lo, então? Vale comentar que Francis Lawrence fez um ótimo trabalho com o ágil Em Chamas, o melhor filme da série até agora, que tinha um roteiro superior. Francis não costuma ser um bom diretor para cenas dramáticas, ele é bem mais visual com sua experiência em vídeo clips e filmes como Sou a Lenda e Constantine, portanto quanto melhor o roteiro, mais facilitado é o trabalho para ele pensar o que fazer. Por outro lado, de positivo, a atuação de Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore dão um peso maduro às cenas mais estratégicas e, em especial, a oportunidade de ver o saudoso Philip na Tela, participação que tem uma bela dedicatória ao final. Os demais coadjuvantes são subutilizados principalmente o excelente Woody Harrelson.




Melhor parte do filme: a homenagem à Philip Seymour Hoffman



Esperança sofre do mesmo mal de Crepúsculo Amanhecer e suas continuações;  é uma adaptação de um livro dividido em dois filmes. Os fãs mais leais entenderão suas falhas e darão crédito por causa da conexão afetiva com a obra, não por causa das escolhas dos produtores, roteiristas e produção.  Por questões comerciais, é importante frisar que eles são obrigados a prolongar a história ao máximo para render dois longas. A depender do livro, é como fazer o milagre da multiplicação dos pães considerando que nem todo best seller é literatura de verdade e não tem a densidade de ações e personagens que  ofereça melhor material para o desenvolvimento dramatúrgico de um roteiro . Também, outra questão recorrente que pode fragilizar a coesa continuidade de uma franquia é a comum mudança de roteiristas entre filmes, com isso, é normal observar que os longas se tornam bem irregulares na comparação de um com o outro.


O melhor a desfrutar em Esperança - P1  é compreender o momento da heroína, importante para propaganda política da rebelião e presa a uma relação com Peeta que é usado como uma arma letal (e também emocional) contra Katniss.  Compreender também o longa sob essa perspectiva amorosa dá espaço para entender a grande jogada do desfecho, dramático para a heroína, e que aparentemente promete muitas emoções para o filme final. Que ele venha, com a esperança de ser um blockbuster mais maduro e imperdível.






Ficha técnica do filme no ImdB Jogos Vorazes - Esperança - parte 1

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