sábado, 27 de dezembro de 2014

Viver é fácil com os olhos fechados (Vivir es fácil con los ojos cerrados) - 2013





Viver com os olhos cerrados é o premiado longa de David Trueba, vencedor de variadas premiações na Espanha, com destaque para melhor filme, diretor, roteiro original, ator principal (Javier Camara), atriz revelação (Natalia de Molina) no Goya Awards, o Oscar Espanhol. Baseado em roteiro escrito pelo próprio diretor, é um road movie contextualizado em 1966 e conta a história de um professor de inglês, Antonio (Javier Cámara) que realiza uma viagem até Alméria (Espanha), onde John Lennon está participando de um filme. O sonho do simpático professor é encontrar o ídolo, conversar com ele, falar sobre seus alunos e como ele usa a música para ensinar inglês. No percurso, ele oferece carona para dois jovens em momentos de fuga: um é Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesco Colomer). Ambos, ainda no desabrochar do amadurecimento, caem na estrada junto com  António. Ali começa uma viagem na qual falam de suas vidas e sonhos  e estabelecem uma boa parceria nessa jornada.






Esse filme tem um plot interessante a começar pelo seu título que tem tudo a ver com o enredo. Viver com os olhos cerrados é uma parte da música Strawberry fields forever que John Lennon compôs em Alméria, enquanto participava do filme How I won a War, de Richard Lester. O cantor levou 6 semanas na composição e a canção faz referência aos tempos nostálgicos dos Beatles em Liverpool, sendo considerada uma das mais intimistas de Lennon. Dessa forma,  a narrativa usa  elementos biográficos do cantor com o Cinema e a Música como uma referência metalinguística para compor esse roteiro. Acrescenta  a admiração de um simples professor por Lennon e por tudo o que a música dos Beatles representa no seu ofício de ensinar, em sua história. É importante considerar que, como argumento sólido, através do estilo das personagens, o filme mostra uma intensa relação nostálgica com Lennon e seu  sentimento de estranhamento nesse mundo. Todos os viajantes têm um jeito esquisito de ser, de não ser compreendidos seja pela família, seja pelo amor etc e a viagem ganha um significado mais inspirador, revigorante e transformador, ainda que sutil nas situações expostas.





O entusiasmo de Antonio por essa história de Alméria, pela música, pela sua devoção à Lennon é  bem envolvente durante toda  a projeção, logo cabe mais à Javier Camara, com sua  sólida experiência no Cinema Espanhol, levar a história até fim e tornar mais interessante os diálogos, em especial, a combinação dramédia considerando que os demais jovens coadjuvantes são talentosos mas ainda juniores na atuação. O evidente destaque é a revelação Natalia de Molina que, além de uma beleza mediterrânea  refrescante, expressiva e delicada, atua com segurança, fato que poderá torná-la uma grande atriz no futuro. Com relação à Javier Camara, ele é fantástico e aderente ao papel. Antonio é uma personagem que encanta em sua aparente introspecção e em sua solidão que não perde o carisma e a audácia de transformar o dia a dia com pequenos gestos. Desde de como fala carinhosamente sobre seus  modestos alunos até como é generosa e experiente companhia aos jovens caroneiros, passando pela coragem de pegar a estrada e ir atrás de um sonho, Antonio é uma daquelas especiais personagens de comédias dramáticas que mostram  genuinamente nossa humanidade, por mais melancólica e solitária que possa ser, há uma graça nisso. 





Vale observar que David Trueba realiza um bom trabalho de direção de atores sem interferir muito na naturalidade de atuação do elenco. Em algumas situações, é perceptível que os atores  não têm muito o que fazer e como agir em relação ao que o roteiro oferece, porém é essencial notar que a intenção aqui é mais leve, descontraída. O roteiro não tem a intenção de criar variadas ações. Ele é mais linear  e existe uma liberdade narrativa como em toda a viagem de estrada. Estamos acompanhando o sonho de Antonio e o seu entusiasmo, sua determinação, por isso o longa tem que ser acompanhado como uma viagem com um destino final de encontrar John Lennon, sem criticá-lo porque não desenvolve incríveis ações. No mais, a direção realiza uma edição fluída que tende a embalar o público com uma diversão despretensiosa, a ouvir o que Antonio tem a dizer e cortando também para momentos da parada e personagens periféricos. Tal direção é positiva para um road movie cuja premissa é deixar as coisas acontecerem mas sem perder o controle da narrativa.  Como vantagem adicional, a fotografia é um deslumbre à parte. Não é uma cinematografia que encanta por virtudes excepcionais mas ela carrega algo solar, otimista. Com boa luz, energia e estilizada pelo visual anos 60 do figurino, a fotografia diz muito sobre o filme e essa liberdade de viajar, de voltar no tempo e vivenciar no Cinema um road movie que carrega um sonho pessoal que poderia ser o sonho de um de nós.







Ficha técnica do filme ImDB Vivir es facil con los ojos cerrados

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