domingo, 17 de abril de 2011

Quando Partimos (Die Fremde/ When we leave) - 2010



No Cinema Alemão, a atriz Sibel Kekili (de Contra a Parede,de Faith Akin) parece predestinada a atuar em papéis de mulheres que, pertencentes à uma estrutura familiar Turca, têm a ânsia de romper com o aprisonamento dos costumes e mentalidade tradicionais da família e aproveitar a vida ao máximo, sendo protagonista das próprias escolhas e destino. Após interpretar Sibel, uma filha de turcos, suicida e louca para curtir a vida adoidado na visceral história de amor dirigida por Akin, em Quando Partimos, o primeiro filme da diretora Feo Aladag, ela é Umay, uma mulher que sofre violência doméstica no casamento e decide abandonar o marido e tomar um novo rumo ao lado do filho Cem (Nizam Schiller) partindo para Berlin. Ao tomar essa decisão, ela dá início a uma jornada de rejeição e humilhação provenientes de sua convencional e opressora família.





Nessa realista e comovente história, tomar a decisão de não sofrer maus tratos e de não viver um casamento de aparências com um homem autoritário e violento é uma afronta para a família de Umay. Por mais que as culturas do mundo sejam diferentes e que devam ser respeitadas pelas suas peculiaridades, a premissa dos "bons" costumes alicerçados muito mais na ignorância coletiva do que no bem estar de cada individuo é a de que Umay não tem o direito a questionar a sua própria felicidade conjugal e muito menos o de envergonhar a família por conta de seus desejos de liberdade. Ela não encontra nem no pai, nem na mãe e muito menos nos irmãos o apoio que precisa e, nesse contexto, sofrerá de violência psicológica a física. É interessante observar na película que alguns padrões se repetem como a mãe submissa que se cala perante o sofrimento da filha mas também se vê dividida pelo sentimento de mãe cuidadora e pelo de mulher das tradições, o pai machista, orgulhoso e preocupado com a opinião alheia, que tem vergonha de que amigos, parentes e conhecidos, os ditos conterrâneos, testemunhem que a filha dele se rebela contra a autoridade dele e os costumes turcos, o que acaba colocando em questionamento se a educação dada por ele foi eficaz, o irmão violento que não respeita a irmã, não cede ao diálogo e prefere usar de brutalidade física, de ameaças aterrorizantes.



A sensação para quem contempla esse triste retrato da vida de Umay é a de que ela está destinada ao sofrimento e não sabe exatamente como lidar com ele porque o olhar diretivo enfoca mais as constantes humilhações do que necessariamente uma reação mais construtiva de Umay a tanta ignorância, além disso leva à reflexão de que, sair de um lar e abandonar um marido violento, não é um escape ao sofrimento, pelo contrário, tal iniciativa de Umay em um contexto familiar tão tradicional traz a ela mais sofrimento. Rejeição e solidão são constantes, ela é uma rebelde e uma incompreendida. O que se vê é que cada povo tem a sua tradição e os seus costumes, e a família de Umay se originou a partir de uma tradição que é como um beco sem saída, ou no mínimo, um beco com uma saída trágica. O bem da verdade é que nem mesmo a família dela sabe como lidar com a situação porque foram aculturados a serem como são, assim como tantas outras culturas que maltratam mulheres e crianças e colocam a família como a instituição a ser a primeira a subjugá-las.





É evidente que, na seara dos direitos humanos, o argumento não é novo. A própria cineasta é uma mulher engajada na defesa das mulheres, porém Quando Partimos é muito mais contemplativo, documental e menos militante, ou seja, o espectador toma contato com uma das realidades dessa população feminina, na qual o que importa é a temática de mulheres que sofrem com a negação de suas liberdades e violentadas em sua intimidade, sem direito ao livre arbítrio. Embora a comunidade Turca não tem como escapar à péssima pintura que é mostrada sobre os seus costumes orientais na Alemanha ao retratar a família de Umay, o filme não tem o tom de condená-la mesmo que corra o risco de ser mal interpretado. O fato é que existem famílias assim e elas estão em várias regiões do mundo, fazendo o bem e fazendo o mal, basta mencionar que a violência contra a mulher é uma das que mais crescem no mundo e, por diversas razões, sejam elas culturais, religiosas, afetivas, etc, mulheres são intimidadas. A direção e roteiro da estreante de Feo Aladag são muito mais pautados em expor essa jornada de violência contra Umay. Os tapas, olhares, silêncios a tornam mais angustiante, poderosamente tocante. O ótimo trabalho de fotografia com focos e desfocos de lente tornam essa história mais realista, mais cotidiana. A excelente atuação de Sibel colabora para o realismo da condição de Umay: sozinha e humilhada mas sem deixar de lado a necessária resiliência para suportar tanta intolerância.



Lembrando de um fato verídico, o da Hatun Sürücü, de 23 anos que foi morta em 2003 após mando da família, Quando Partimos toma umas proporções dramáticas que, de tão inaceitáveis, levam à uma angustiante reflexão: Porque alguns costumes tão enraizados que jazem na ignorância e na violência parecem estar acima do amor de uma família por seus filhos? Que tipo de cultura é essa que reduz suas mulheres a uma condição de que elas perdem o valor à medida que buscam valorizar quem são e o que desejam na vida? A postura da família de Umay é tão mais violenta do que a própria violência que ela provoca, afinal, virar as costas para ela e Cem em plena moderna Alemanha demonstra que há uma distância clara entre a mentalidade de algumas famílias imigrantes orientais e a constante busca de liberdade e vívidas vivências que existem nas grandes metrópoles.





Avaliação MaDame Lumière



Título original: Die Fremde Origem: Alemanha Gênero(s): Drama Duração: 119 min Diretor: Feo Aladag Roteirista: Feo Aladag Elenco: Sibel Kekili, Nizam Schiller, Florian Lukas, etc.

4 comentários:

  1. Não conhecia esse filme, mas esse texto me deixou mega curiosa para conferir a obra.

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  2. Oi Darling...
    você me despertou um interesse por este filme. Vou procurá-lo. O Contra a Parede eu não achei tão impressionante assim, mas gosto do Birol Ünel na fita (preciso achar tempo pra rever). Você aponta muito bem a Sibel Kekili, outro mérito.
    O cinema alemão tem ótimas pedidas. Gosto de um ator chamado Alexander Fehling (que além de ter feito Bastardos do Tarantino) fez um filme que vi ano passado e gostei muito chamado: 'Am Ende Kommen Touristen' - não tem tradução para o portuga!

    Vou porcurar assistir este. Bjs!

    RODRIGO

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  3. Poxa, nunca ouvi falar desse filme, fiquei curiosa...

    Beijos! ;)

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  4. Já tinha ouvido falar, mas de fato, não sabia muita coisa a respeito. O tema que o filme aborda é curioso, como sempre. Pelo visto, vale muito a pena. Vou conferir!

    abs :D

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