terça-feira, 12 de abril de 2011

Festival Sesc 2011: Breves Reflexões pós Encontro da Crítica Especializada de Cinema


Maria Rosário, Luiz Zanin, Neusa Barbosa e João Carlos Sampaio



Aconteceu em 07 e 08 de Abril no Festival Sesc Melhores Filmes 2011 em São Paulo, um encontro de críticos de Cinema provenientes de vários estados do Brasil, mediado pela pesquisadora e jornalista da Revista de Cinema, Maria do Rosário Caetano. No primeiro dia, houve a presença de Ana Paula Souza da Folha de São Paulo André Miranda de O Globo (RJ), Miguel Barbieri da Veja São Paulo, Marcelo Miranda de O Tempo (MG). No segundo dia, Luiz Zanin do Estado de São Paulo, Neusa Barbosa da Revista Bravo e da Revista Eletrônica Cineweb, João Carlos Sampaio (BA) e Luiz Joaquim da Folha de Pernambuco. A diversidade de experiências e opiniões de quem ama e escreve sobre Cinema tomou lugar a uma debate sobre qual o papel e os rumos da crítica cinematográfica especializada.



"Não dá para ter um diálogo profundo em três parágrafos"

(André Miranda, O Globo)


Esse encontro foi uma excelente iniciativa da organização do SESC-SP que muito vem a agregar para criar um espaço de discussão sobre o Cinema e o exercício da crítica. Acima de tudo, um crítico é um cinéfilo e um pensador sobre Cinema que tem que ter repertório de filmes para refletir sobre o mesmo, do contrário, é mais uma opinião como tantas outras que estão proliferadas na internet. Pode parecer redundante e óbvio afirmar isso, mas é importante ressaltar que os críticos de Cinema são pessoas como todos nós, de carne e osso, ainda que tenham background e conhecimento diferenciado sobre Cinema, não há o glamour, só há a boa vontade de falar sobre o Cinema, mesmo que alguns se dividam em outras reportagens; no entanto a credibilidade do crítico não é determinada somente pelo veículo que ele atua e do texto que ele produz, mas depende muito da sua relação com o leitor e o quanto ele se dedica a fazer com que o público pense e sinta Cinema, estabelecendo com ele um diálogo sincero. Não importa se é com uma crítica de um filme Arte de Godard ou de um Blockbuster de James Cameron, o bom crítico de Cinema estabelece um diálogo honesto com o seu público, contextualiza o leitor, desperta o seu interesse em buscar viver mais o Cinema, de forma palatável e também aprofundada.



"Tem que saber separar o joio do trigo... o leitor tem que ver quem é que está falando o que, o que é mais importante nisso tudo é a credibilidade de quem está escrevendo." (Miguel Barbieri, da Vejinha)


Como nem tudo são flores com Cinema, os críticos têm que lidar com a diminuição do espaço para falar da Sétima Arte (como escassas revistas de Cinema e jornais impressos perdendo audiência) e, também, maior velocidade e quantidade de informações pulverizadas na web, o que cria um excesso de críticos de Cinema. Infelizmente, eles têm perdido espaço para seus textos críticos com o advento da internet que, ao mesmo tempo que populariza o acesso à informação, também faz com que os leitores comecem a priorizar somente as críticas pasteurizadas e de poucas linhas que nem sempre agregam um repertório educativo na análise de um filme. A internet tornou muitos leitores preguiçosos e poucos seletivos com relação ao que lê. Muitas vezes, eles nem sabem lidar com o excesso e optam mais por tablóides de celebridades e pseudocelebridades, caindo em um processo de cultura inútil, alienante e descartável. Com um cenário como esse, bons críticos de Cinema tiveram que atender à necessidade editorial de elaborar um texto pequeno e pouco reflexivo, o que reflete também o encurtamento das páginas da mídia impressa para o jornalismo cultural. O que acaba acontecendo é que eles não perdem o ponto de vista de qualquer crítico em grandes veículos de comunicação como os para os quais trabalham, ou seja, eles adequam a sua linguagem e o conteúdo crítico ao seu público e devem seguir as regras para sobreviver no pouco espaço que lhes resta. Essa é a lei da selva.



"Os jornais perderam o interesse na reflexão. Nessa competição com a internet, eles não sabem como se posicionar" (Ana Paula Souza, Folha de São Paulo)



A crítica cinematográfica tem um valor muito importante para a educação e formação de olhar sobre Cinema no público, ainda que as pessoas não parem para refletir sobre isso e muitas ignoram tal relevância como foi o caso recente do cineasta Werner Herzog que, em entrevista à Revista Cult, comenta que a crítica de Cinema acabou. Ele mesmo, conhecido como um workholic de primeira grandeza, comenta que durante sua carreira, mal leu críticas, logo como pode afirmar que a crítica está em extinção? Quanta incoerência! Após esse encontro, umas das reflexões principais é a de que há uma responsabilidade do público que ama Cinema ceder um tempo para valorizar o trabalho da crítica, de alguma forma criar uma demanda para a indústria midíatica e cultural para que o Cinema seja retratado por mentes pensantes, com espaço para aprofundar o diálogo sobre ele. Por outro lado, é fundamental que os críticos de Cinema lutem pelo seu espaço, só assim haverá uma transformação da crítica especializada, com mais paixão, dedicação e oportunidades. Enquanto o público não exigir uma reflexão sobre Cinema mais inteligente e continuar buscando notícias das celebridades, ultravalorizando os blockbusters e se satisfazendo com críticas de Cinema rasas, menos chances teremos para possuir um espaço impresso e online para ler sobre Cinema, de uma forma profunda e agregadora.




"A gente vive um outro tempo... a internet dá visibilidade para que conheçamos outros textos " (Marcelo Miranda, O Tempo)


É claro que nem sempre alguns críticos se reciclam em suas análises sobre os filmes e, muito menos, cativam os leitores, além disso é sabido que gostar de Cinema e ler sobre ele não implica ser alvo apenas de uma crítica complexa. Porém há Cinema para todos os tipos de gostos, assim como há críticas para todos os públicos. O mais importante não é só o trabalho do crítico, mas termos essa variedade de críticas sobre Cinema e, principalmente, mais espaço para aprender sobre a Sétima Arte, sentí-la em sua plenitude e compartilhar dessa experiência com outros amantes da Cinefilia.

Um comentário:

  1. Poxa, participar de um evento desses deve ser muito legal. Obrigada por ter compartilhado dessa experiência conosco! :)

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière