domingo, 24 de abril de 2011

Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans) - 1927






F.W. Murnau foi um dos grandes cineastas do Expressionismo Alemão, reconhecido por antológicos filmes como Nosferatu (1922) e Fausto (1926), em 1927 o diretor alcança o ápice da magnitude e beleza do Cinema Mudo com a obra prima poética Aurora, vencedor do Oscar de melhor filme e estrelado por George O'Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingston. Baseado na obra Die Reise nach Tilsit, de Hermann Sudermann, Aurora conta a história de um fazendeiro casado (o homem, O'Brien) que é seduzido por uma mulher da Cidade (Livingston) em um tórrido affair. A amante quer que ele abandone a bondosa esposa (Gaynor) e o filho pequeno e vá embora com ela para a cidade, "meca" das possibilidades de uma nova vida. A sedutora amante influencia-o a matar a esposa, envenenando sua mente com um diabólico plano: ele tem que afogar a dócil mulher em um passeio de barco. O homem não resisti à tentação da mulher da Cidade e inicia o maquiavélico plano. O filme se desdobra em uma narrativa com um sublime ponto de virada, a reconciliação do amor, impregnada de lirismo cinematográfico, uma magnífica trilha sonora de Willy Schmidt-Gentner e fotografia de Charles Rosher e Karl Struss.









Aurora tem o seu início com o antagonismo das duas mulheres. Enquanto a esposa é a mulher do campo, cuidadora da família e da casa, amorosa mãe e esposa de delicada feição e vida bucólica, a mulher da Cidade é sensual e vaidosa, com um semblante vampírico e provocante, um fumante inveterada com as clássicas femme fatales. As imagens fílmicas habilmente representam esses opostos: A mulher da Cidade penteia o cabelo embelezando-se em frente ao espelho, troca de roupa deixando mostrar a sensual lingerie, aparece com fino vestido e sapatos de salto. A esposa do Campo traja vestimentas bucólicas, cozinha e leva a refeição à mesa, é abandonada no meio da noite pelo marido e chora sobre a cama próxima ao filho. Elas representam a oposição campo e cidade, o rústico e o moderno, a claridade e o obscuro, o amor e a paixão. A dualidade também é representada no homem que incorpora a figura dupla do expressionanista: dual e fantasmagórico. Quando ele se envolve com a mulher da Cidade, cede às suas paixões, transforma-se em um homem passional e ardente, violento e macabro. Quando está com a esposa, entregue à conciliação, à família e ao casamento, seu semblante se ilumina, seus olhos e sorriso se rendem à gentileza do amor.










Esses contrapontos são fundamentais para a expressividade da película e são convertidos em sequências belíssimas como a que o homem saí na calada da noite, deixando a esposa a chorar e se encontra com a amante na escuridão de um campo, iluminada pela lua ao fundo e as cenas são entrecortadas com os beijos e abraços apaixonantes nas quais ela o seduz e o enfeitiça com palavras como: Você é todo meu? Deixe a fazenda e venha para a cidade! Entre um beijo e um olhar fatal, acompanhados por uma sonoridade de assustador suspense, também surgem imagens da cidade e sua agitação em uma atmosfera onírica, assim o homem é encantado por essa mulher narcótica e retorna à casa como que possuído por uma alegórica manifestação de Nosferatu ou qualquer monstro expressionista, claramente evidente em sua deformada aparência soturna de esbugalhados olhos. Mais adiante, a fantástica caracterização e interpretação de George O'Brien ao atacar a esposa em um barco é aterrorizante. Curvado como um monstro corcunda com as mãos prestes a provocar uma violência, ele é a manifestação da deformação humana,; em mais elementos de referência das influências expressionistas de Murnau, além da distorção, há a oposição do escuro com o claro a partir do figurino do casal, do homem violento austero e em pé com a esposa fragilizada quase a cair do barco, até que o repicar dos sinos soa e o homem não consegue nem mesmo seguir adiante escondendo a própria face. Com Aurora, F. W. Murnau conseguiu superar a estética expressionista, criando um mundo de fábula cheio de emoções, um universo dual que é sonho e é realidade, que traduz a psicologia dos personagens em estados de insanidade e traição, mas que também evoca uma bela e atemporal história de amor.










Aurora é uma obra prima como Cinema, é uma linguagem universal assim como o é a própria Sétima Arte e o Amor. Em uma época clássica, de poucos recursos em comparação ao tecnicismo que a indústria de Cinema alcançaria, F. W. Murnau concebeu perfeitamente bem uma obra que inclue uma série de técnicas agregadas a uma miscelânea de emoções. Em um curto espaço de tempo, o da projeção, o público é guiado a se envolver afetivamente com esse casal de camponeses, vivenciar seus estados de tristeza, alegria, amor, decepção, loucura, etc e apaixonar-se pelo Amor que ali é vivido, com seus altos e baixos, com seus erros e acertos. A partir de uma história muito simples que faz uma triangulação não somente amorosa mas de ordem tempo/espaço: campo-cidade-campo, a junção harmônica de elementos cinematográficos como a música, a fotografia, a atuação do elenco, a iluminação artificial, entre outros, além de um roteiro que promove uma liberdade de emoções e pacífica coesão de gêneros: drama, romance, comédia, melodrama, suspense e terror, tudo é muito bem elaborado e dirigido por F. W. Murnau. Tudo coopera para contar ao público uma poesia em forma de película. Todo o elenco é fantástico, com destaque especial para George O'Brien que é um primor na dualidade como reage às suas paixões carnais e à transformação após arrependimento. Sua expressividade que transita entre o desejo feroz aos sentimentos de culpa e perda e de amorosidade é um espelho humano das mais profundas emoções. A música toca como uma canção, a do título: uma canção de duas pessoas, a do homem e de sua esposa, e a experiência cinematográfica se torna uma intersecção dos sentimentos de qualquer espectador sensível ao Cinema: a de que Aurora é uma sinfonia melódica na qual a musicalidade substitui as palavras e convive em dramática e cômica conexão com as expressões dos atores e suas vivências no filme. No mais, é um clássico obrigatório do Cinema Mudo, uma encantadora história, daquelas que não é necessário nenhum texto para se emocionar, daquelas que deixa o espectador sem palavras, tamanha a força narrativa através das imagens líricas, tamanha a emoção do que o Cinema é capaz de produzir.




Avaliação MaDame Lumière











Título original: Sunrise: A song of Two Humans
Origem: USA
Gênero: Romance
Duração: 94 min
Diretor(a): F.W. Murnau
Roteirista(s): Basedo conto Die Reise nach Tilsit.
Elenco: George O'Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingston

3 comentários:

  1. Um clássico absoluto do cinema que ainda não tive a chance de conferir!

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  2. Kamila,
    Aurora é uma obra prima, ultra, master. É cinema em estado puro, é uma jóia amorosa da Sétima Arte. Amo-o muito!

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  3. Agora que me toquei... não vi nenhum dos grandes clássicos do Expressionismo Alemão. Que coisa! Vou correr atrás desse, né? Afinal, depois deste texto tão inspirado :)

    abs.

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