segunda-feira, 18 de abril de 2011

Especial Cinema: Filme Amor? Entrevista do Diretor João Jardim

O mais irritante no amor é que se trata do tipo de crime que exige um cúmplice. (Charles Baudelaire)






Amor? Novo longa metragem de João Jardim, realizador de Janela da Alma, Pro Dia nascer feliz e Lixo Extraordinário, é um híbrido entre documentário e ficção que traz um elenco de primeira, dentre os quais, Lilian Cabral, Eduardo Moscovis, Julia Lemmertz. É um filme, como bem define o diretor, “sobre eu você e todos nós.” O tema, e foco, de Amor? são as relações amorosas que são pautadas pela violência, seja qual a forma em que ela se apresenta. Entremeado por cenas poéticas de um mergulho no mar, um banho despretensioso, corpos que se procuram e se tocam, o filme traz relatos verdadeiros e surpreendentes quem já viveu relacionamentos em que a violência era parte de um cotidiano muitas vezes doentio e outras vezes foi a pedra de toque para o despertar de uma nova fase. No entanto, devido à delicadeza do tema, em vez de revelar as identidades de seus entrevistados, Amor? traz atores e atrizes interpretando estes depoimentos. “São relatos muito sinceros de pessoas que viveram situações que envolvem ciúmes, culpa, paixão e poder". Nessa entrevista especial, temos o bel prazer de conferir a palavra de João Jardim, um dos melhores realizadores do Cinema na atualidade, e também refletir através da Sétima Arte sobre esse tema tão intenso e delicado. Amor? é imperdível, assim como essa entrevista.









O que o levou a eleger como tema do seu filme relações amorosas que se degeneram e evoluem para algum tipo de violência?






João Jardim - Eu estou o tempo todo procurando assuntos que possam render bons filmes. Temáticas ricas de pesquisar, e que tenham, ao mesmo tempo, um aspecto cinematográfico interessante. E esse projeto nasceu disso: lendo sobre esse assunto, o que me chamou atenção é sempre as pessoas envolvidas relatam que se amavam muito. Quando a violência acontece dentro da relação sempre é por amor. Pelo menos do ponto de vista delas. Então o que me interessou foi procurar entender e lidar com esses aspectos subjetivos da relação amorosa. Em que momento a violência começa a entrar no meio e em nome do quê? Que ingredientes são esses que vão fazendo com que a coisa evolua pra algum tipo de opressão ou violência? Eu percebia que essa era uma lacuna na discussão do tema, tratado sempre do ponto de vista político, da violência contra a mulher, sem levar em conta o aspecto subjetivo. E procurei abordar o lado transcendente da questão. Fazer um trabalho de construção e questionamento em torno do tema, capaz de lançar um novo olhar sobre ele.




O filme é quase uma instalação pra mim. Pensei o tempo todo na interatividade. No que ele provoca. A provocação já está no título. Eu queria provocar a reflexão.






Definido como “uma mistura poética de documentário com ficção”, Amor? é um mosaico de depoimentos verídicos, interpretados por atores. O que o levou a fazer essa escolha?






João Jardim - Eu queria fazer um documentário sobre o tema. Mas logo no início do processo, eu percebi que, quando eu conseguia, conversando com as pessoas, tirar delas coisas muito interessantes, eticamente talvez não fosse justo usar aquilo. Porque eu poderia de alguma forma prejudicá-las; a elas ou ao parceiro delas. Mesmo se dispondo a falar, podia ser que, seis meses depois, com o filme pronto, que elas se arrependessem. E parceiro, filhos, outras pessoas implicadas no depoimento poderiam também não permitir. E eu teria que respeitar. É muita arrogância você achar que pode fazer o que quiser com a vida das pessoas. Eu não penso assim. E tem aí uma questão jurídica também. Então, logo ficou claro pra mim que não podia ser um documentário. Tinha que ser um filme com atores, mesmo que fosse um filme de depoimentos.




A escalação do elenco, com a participação inclusive de nomes conhecidos do público, foi intencional. Era uma forma de garantir que a atenção ficasse voltada para o tema e, ao mesmo tempo, de tornar aquelas histórias universais. Os atores famosos vieram para criar esse distanciamento. Para que não sobrasse espaço para dúvida de que o que está sendo visto é um ator interpretando uma história. E que essa história pode ser minha, sua ou de quem for.










O processo de pesquisa envolveu a coleta de mais de 60 depoimentos de homens e mulheres que viveram relações amorosas envolvendo algum tipo de violência. Que critérios determinaram a escolha dos oito que figuram no filme?




João Jardim - O filme foge intencionalmente das classes sociais mais baixas, procura mostrar que isso é uma coisa que atinge todas as classes sociais. Não me interessava o caso mais estranho do mundo ou o caso mais estapafúrdio. O que interessava era o sentimento que havia por trás daquelas histórias, e que fazia com que elas se tornassem próximas de mim, de você, de qualquer um. Eu costumo dizer que é um filme sobre mim, você e todos nós. O que guiou muito a gente o tempo todo foi o desejo de universalizar essas histórias.






Há uma tendência a fazer uma leitura simplista da opressão nas relações amorosas e taxar de doentes as pessoas que se envolvem nesse tipo de situação. Mas há um outro aspecto, relevante, que não é levado em conta: é que elas viveram coisas muito intensas com os seus parceiros, mesmo que já tivesse alguma violência lá, desde o princípio.




E eu queria que o filme remetesse ao aspecto lúdico, prazeroso, carinhoso do amor. Porque é isso que faz com que as pessoas não consigam se desligar.




Como foi o processo de trabalho com o elenco?






João Jardim - Eu procurei, antes de mais nada, escalar um elenco de pessoas que eu considerava inteligentes, e capazes de fazer uma leitura interessante e rica daqueles textos. Basicamente o que eu queria é que os atores incorporassem os depoimentos como sendo deles e não que criassem um personagem fora deles.






O primeiro passo era decorar o texto. Depois, a gente ia ensaiando e trabalhando. Sempre a partir do que eles traziam. Não tinha uma visão pré concebida. Como é esse personagem, onde ele mora, de onde ele vem, nada disso importava. O que importava era contar cada uma daquelas histórias como se elas pudessem de fato ter acontecido com eles. Se alguma coisa no texto perdia o sentido quando era falada, ou não funcionava, aquilo era cortado. Foi um trabalho de repetição, a partir das coisas que eles iam fazendo, meu trabalho era provocar as escolhas deles, indicar um caminho.






A grande diferença do trabalho de ator nesse filme, na minha opinião, é que, num filme normal, ele tem que compor um personagem que atua hoje, aí passam-se três dias na vida dele e ele atua mais um pouco, e passam-se mais quatro dias e ele atua mais um pouco. O personagem tem que ter uma continuidade. Em Amor?, os atores tinham que dizer o texto daquela maneira uma única vez, ou fazer diferente todas as vezes, se preferisse, mas ele precisava incorporar o texto de uma tal maneira que parecesse que aquilo está sendo dito pela primeira vez. O mais importante para o trabalho era justamente o frescor. Se fosse uma interpretação cristalizada, pra ser repetida, não funcionava.






Então a gente ensaiava até ficar “quase muito bom”, de forma que quando ficasse muito bom já fosse diante da câmera. Tanto que, na hora de filmar, não tinha ensaio. Rodava a primeira, direto; rodava várias vezes se fosse necessário, mas não tinha ensaio.










Fonte: Entrevista via PressBook - Amor O Filme?


Créditos Fotos: Heloísa Passos




Acompanhe o especial Amor? com informações sobre esse excelente trabalho de João Jardim.


Em breve, resenha do filme por MaDame Lumière

2 comentários:

  1. Já tinha lido essa entrevista, mas foi um prazer ler novamente. O filme provoca sensações mesmo madame. O deslumbramento e o arrepio são contingenciais. A forma como Jardim foi amadurecendo o projeto só reafirma isso.
    Bjs

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  2. A cada novo texto que leio sobre esse filme, mais curiosa eu fico para conferi-lo!

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