sexta-feira, 22 de abril de 2011

Especial Cinema Filme Amor? Bate Papo com atriz Julia Lemmertz


" A idéia não é atuar, é ser"



O elenco de Amor? é muito competente na veracidade e na emoção dos depoimentos que mergulham em histórias de amor e violência, principalmente considerando que a premissa não era realizar um laboratório prévio e sim vestir a pele da pessoa que viveu aquela passional e dolorosa história, vestir aquela verdade, aquela história. Formado por Lilia Cabral, Du Moscovis, Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Julia Lemmertz, o elenco merece o reconhecimento do público porque relatar a história de uma pessoa que sofreu e/ou provocou a violência na relação amorosa não é fácil assim como não o é realizar uma atuação dessas em um excepcional híbrido documentário e ficção, que tem que ter uma sinceridade com o público e com as reais pessoas que viveram aquelas histórias. Na entrevista abaixo selecionada para esse especial, contamos com uma das mais talentosas atrizes do Brasil, Julia Lemmertz, que fez um trabalho muito especial em Amor? como Alice, uma mulher apaixonada para a qual a violência no amor despertou-a para um novo recomeço. Sua história é comovente e inclue a mistura bombástica que é a paixão, a traição, o sexo, o alcool e as drogas.


Do ponto de vista do trabalho do ator, o que esta experiência trouxe de novo, de diferente das outras?

Julia Lemmertz - É uma experiência desconcertante, você se despe para vestir outra pele que não é sua, bem cruamente, sem construir muito, são histórias já construídas e vividas. Então, é entrar naquela corrente, se deixar conduzir por aquele depoimento. A história, a memória, as palavras têm a força. É real e não é ao mesmo tempo. Não sei precisar, mas é tudo muito diferente. A ideia é não atuar; é ser.

No processo de construção do personagem, que desafios se impuseram? O que foi mais difícil?

Julia Lemmertz - O mais difícil foi tornar aquele pensamento fluido meu, com idas e voltas, a mistura que a memória faz quando se conta o que passou há muito tempo, decorar o depoimento todo foi muito difícil e um pouco doloroso também.

Impossível, imagino, levar a cabo esse trabalho sem empreender uma reflexão sobre o tema. Feita a reflexão, ainda acredita que você e as pessoas da sua esfera de relacionamento estão livres de viver uma relação de amor que degringole para algum tipo de violência?


Julia Lemmertz - Acho que tudo na vida tende a degringolar em algum momento, por algum motivo, com diferentes intensidades. É da vida. Mas o que pode a cabeça das pessoas é que é assustador. O amor pode ser belo, harmonioso num momento e equivocado, violento, no seguinte. Em nome dele se faz loucuras. E tudo pode? Tudo de atroz que se faz em nome do amor é válido, tem direito de ser chamado de amor? Eu não sei o que acontece com os outros realmente, intimamente, cada um tem as suas loucuras e dá vazão a elas ou não. O negócio é escolher para onde você que ir. Permitir que o amor seja vivido plenamente onde ele realmente deveria estar, no prazer, no tesão, na construção de vidas bacanas, criativas, generosas. Pra mim, amor é isso. Mas é uma escolha.

Alice, a sua personagem no filme, vive durante muitos anos com um homem que, desde os primórdios do relacionamento, a expõe a situações de humilhação e apresenta rompantes severos de violência contra ela. A seu ver, o que faz com que uma pessoa se submeta por tanto tempo a esse tipo de dominação?


Julia Lemmertz - No depoimento, ela diz que é uma forma de dominação, de subjugar o outro, de acabar com a autoestima da pessoa, enfraquecê-la, torná-la dependente psicologicamente. Eu tentei não julgar e me colocar nessa situação, mas é aquela história: o sádico não existe sem o masoquista. Você permite que esse relacionamento se instaure, e fica refém dele. É muito doloroso e complicado, acho que só quem viveu coisa parecida pode falar.

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