sexta-feira, 9 de abril de 2010

Um Filme, uma canção: O Desprezo (Le Mépris - 1963, de Jean-Luc Godard , Theme de Camille de Georges Delerue

Um filme, uma canção por Madame Lumière
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção





O belíssimo O Desprezo (Le Mépris) é um dos filmes mais expressivos do aclamado Jean-Luc Godard e ideal para se refletir não somente sobre o Cinema, mas também para refletir sobre os fantasmas que separam um casal que se ama, e de como uma mulher se sente ao ser deixada em segundo plano; por isso que a evocativa e triste música Camille composta pelo brilhante Georges Delerue e tema da personagem Camille Javal interpretada pela vintage "blonde" musa Brigitte Bardot em tempos aúreos de sedutora e exuberante beleza se alinha tão bem ao drama dessa mulher, dividida entre a dúvida e o desprezo na crise de seu casamento.





Em viagem à Itália, com o seu marido Paul Javal (Michel Picoli), Camille começa a alimentar seus pensamentos com um dos principais fantasmas que devastam a alma e o coração de uma mulher apaixonada: o desprezo. Enquanto seu marido, contratado pelo produtor Prokosh (Jack Palance), trabalha como roteirista na obra Odisséia a qual, no enredo, será dirigida por Fritz Lang, a relação do casal começa a desabar em um jogo passional que os move à destruição impregnada de ciúmes, desprezo, amor e paixão. Camille se sente abandonada e desprezada pelo marido e ele, focado no novo trabalho, também não dá a devida atenção à esposa e nem se importa em ver a aproximação entre Prokosh e Camille. Aqueles velhos dramas de um casamento são reavivados arrasando a vida desse intenso e apaixonado casal.








De fato, para uma mulher, o desprezo ou qualquer brecha de desprezo corróe qualquer sentimento intenso e é acompanhado por uma boa dose de insegurança e baixa auto estima, sendo canalizado ou não para atitudes destrutivas e nada conciliatórias. No caso de Camille e Paul, a relação deles é muito forte, então assim como o fogo da paixão é intenso, o extremo negativo da relação tem todo o potencial de aflorar consequências dolorosas. Camille ama tanto Michel que o deseja intensamente. Qualquer ausência é como ser assombrada pelo fantasma do desprezo. Quantas vezes, casadas(os) ou não, somos assombradas (os) por este sentimento, verdadeiro ou fantasioso, do desprezo do ser amado(a)? MaDame já foi assombrada por isso e, quando a paixão é devastadora, o solitário sentimento do desprezo é elevado à máxima potência. Em momentos como esse, a bela música Camille se torna uma dramática trilha sonora.





O tema de Camille é perfeito para O Desprezo porque a música, composta magnificamente com um acorde amoroso, e ao mesmo tempo, deprimente funciona como um prólogo trágico. Ao pensarmos em como uma pessoa pode ficar devastada pelo sentimento de insegurança sentimental em meio à dúvida e ao desprezo e, também nutrir por alguém uma intensa paixão, não há como não se emocionar com esta memorável canção de Delerue; e muito mais, se emocionar com esse filme típico da estética godardiana, a começar, porque, ao enfocar o drama de um casal, Godard estabelece também um diálogo metalinguístico sobre o próprio Cinema e não somente com a obra de Homero e as personagens de Ulisses e Penélope; um diálogo que é capaz de conduzir a audiência ao universo dos amantes e de suas relações dentro e fora do Cinema. Mais uma odisséia dramática com um dos mestres mais ilustres da Sétima Arte, Godard, o que nunca será desprezado.







2 comentários:

  1. Uma escolha inspirada e inspiradora. Apesar de achar Godard superestimado (particularmente, prefiro Truffaut), aqui ele tem um de seus melhores momentos como criador. Cinema em sua máxima potência.
    Bjs

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  2. Oi Reinaldo,
    Sim! Adoro esta canção, triste, sensível. Gosto dessa obra por usar literatura épica e cinema para falar sobre o próprio cinema.Muito bacana! Não conheço tanto Truffaut.
    Bjs,

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