domingo, 7 de novembro de 2010

Mostra SP 2010: Uma Carta para Elia ( A Letter to Elia) - 2010



Este é o primeiro documentário presente no MaDame Lumière e é uma honra ter tido o privilégio de assistí-lo na Mostra. Coincidentemente dias antes do evento, comprei o DVD Duplo de Uma Rua chamada pecado (1951), de Elia Kazan, baseado na peça Um bonde chamado desejo de Tennessee Williams. Tomada por esse desejo que mais parecia um imã a me atrair a esta atemporal obra prima, fiquei mais ainda fascinada pela tensão psicológica nessa arena dos desejos. Com os deslumbrantes Marlon Brando e Vivien Leigh em atuações pertubadoras, o longa-metragem é reconhecido como uma das obras mais controversas da década de 50, amplamente noticiada como vetada pela censura. Ao contemplar a sua ousadia para a época, o intenso e insano drama dos protagonistas deste 'bonde chamado desejo, o extraordinário e poderoso olhar em cena, concluí que Elia seria um dos meus cineastas para todo o sempre. Por isso, não poderia de deixar de começar este escrito na primeira pessoa do singular, assim como Martin Scorsese, o mestre diretor, roteirista e narrador de Uma Carta para Elia (2010), uma autêntica declaração de amor de Scorsese para o cineasta grego Elia Kazan reconhecido por outras obras primas como Sindicato dos Ladrões, Clamor do Sexo, Vidas Amargas e A Luz é para todos. Ele é o cineasta estrangeiro que conquistou a América.





James Dean em Vidas Amargas



Em apenas 1 hora de duração, legitimamente, Scorsese pensa, respira, fala e sente Kazan. Ele confessa que Kazan foi tão inspiracional à sua carreira que sua obra era capaz de compreender Scorsese no que ele desconhecia de si mesmo. Dá um prazer imensurável ouvir a voz de Scorsese analisando cenas marcantes de Vidas Amargas, no qual James Dean é a ovelha negra da família, e Marlon Brando em Sindicatos dos Ladrões, o bruto que também ama, luta e precisa ser compreendido. Ao fim, a certeira emoção é a da gratidão. Obrigada Martin Scorsese e Kent Jones por enviar-me esta carta. Obrigada Kazan pela sua autenticidade na autoria de sua obra, principalmente a partir de 1950.






A filmografia de Kazan influenciou o jovem Scorsese


Na verdade, qual o valor de um Cineasta? O que torna um homem um Cineasta e não somente mais um diretor de Cinema? O que está por trás do homem Kazan? Para mim, não é só técnica, é o olhar apurado, a sensibilidade latente, o desejo de expressar a verdade e, acima de tudo, a condução das emoções humanas tais que elas sejam as minhas emoções. Elia tem este dom de presentear-me com uma constante admiração a cada filme no qual cada cena dramática me conduz à catarse necessária para compreender o que aquele protagonista tem a ver com o que eu sinto, além disso dirige que é uma beleza. Passou a filmar melhor nos anos 50, logo após delatar partidários comunistas. Ficou com fama de dedo duro, mas seu Cinema ficou mais autoral, ele se libertou das suas infelizes amarras com o passado, mesmo que este insistisse em perseguí-lo até sua morte, em 2003. Ao assistir Marlon Brando, o traíra de Sindicato dos Ladrões, ou a repreendida louca de amor Natalie Wood em O Clamor do Sexo, ou o desequilíbrio psíquico de Vivien Leigh em Uma Rua chamada pecado, percebo que Kazan entende do ser humano na sua essência mais incompreendida.




Com Marlon Brando em Sindicato dos Ladrões


Uma Carta para Elia é um belíssimo documentário, conciso e sensível. Scorsese sabe ser didático, objetivo e sentimental. É uma prosinha com Scorsese, folheando o álbum de Kazan e relembrando seus clássicos, mas também tem o profundo conhecimento de um professor em sala de aula que discorre sobre o começo da carreira de Kazan como ator e diretor de teatro na Broadway, seu reconhecimento na Elite Hollywoodiana, sua relação com a família , e os dissabores em 1954 ao afirmar ter sido comunista e delatado ao Cômite de Investigações Anti-Americanas integrantes do partido que trabalharam com ele no Group Theater. Ele foi chamado de pária, abandonado e sem o respeito de parte da ala artistas; inclusive no Oscar 1999 quando foi reconhecido pela contribuição de sua obra, teve seu prêmio questionado por alguns atores e atrizes. Apesar do documentário expor a delação de Kazan em uma das épocas mais obscuras Americanas, o Macartismo; por razões óbvias, Scorsese não julga o seu mestre. É difícil acusar Kazan quando ele não foi o único delator em uma polêmica que permanece enigmática; a diferença é que ele foi o único abatido no matadouro, e já lhe bastou ter carregado este fardo acusatório por um pensamento comunista que nem ele acreditava mais. Apos a delação, ele se libertou. Porque antes ele era um prisioneiro. Seu nome foi manchado do sangue dos delatores, mas ninguém pode manchar a beleza de seus filmes. Scorsese estava lá no Oscar, abraçando o Deus Grego do Cinema.





Com Scorsese no Oscar 1999 recebendo seu prêmio honorário

Scorsese abre o coração, tem fundamento de quem conhece cada obra de Kazan e tudo é muito inspirador. Após 'ler essa Carta', os meus desejos mais imediatos formaram uma amorosa trilogia: Eu quero fazer Cinema. Eu quero viver o Cinema. Eu quero analisar cada cena dos filmes de Kazan. Definitivamente, eu quero saber se Kazan entende o que eu sinto. Como ele mesmo cita, ele é essencialmente um intruso e eu quero este intruso na minha vida cinéfila.



Avaliação MaDame Lumière





Título original: A Letter to Elia
Origem: Estados Unidos
Gênero: Documentário
Duração: 60 min
Diretor(a): Martin Scorsese
Roteirista(s): Martins Scorsese, Kent Jones
Elenco: Martin Scorsese, Elia Kazan

3 comentários:

  1. Kazan é um dos meus diretores favoritos e não consigo imaginar alguém melhor do que Martin Scorsese para contar a história dele.

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  2. Estou ansioso para ver este documentário. Aliás, ótimo estréia para o gênero aqui no Madame Lumière.
    Acho que o grande trunfo do filme, pelo que vc passa, é justamente ater-se ao cineasta. Se decidir pela homenagem, pelo tributo e honrar essa decisão. Não sei se Scorsese faria diferente com o homem que lhe enraizou a paixão pelo cinema. Enfim, ansioso para "ler" esta carta.
    Beijos

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  3. Madaaaaame, volte aos filmes. Eu não acompanho séries americanas! xD

    Quanto tempo não passo por aqui. São várias explicações para justificar a minha ausência, desde computador quebrado até mesmo falta de tempo para se dedicar aos blogs amigos, que é melhor deixar para uma conversa mais longa.

    Saudades das suas análises, mas estes filmes da Mostra não assisti nada, mas este é um dos que mais aguardo. Um mestre falando de um mestre, hã? Só pode sair coisa boa disso.


    beijos, apareça!

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