terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mostra SP 2010: Bróder (Bróder) - 2010



Uma das gratas surpresas do Cinema Nacional tem título, sangue e alma de amor e amizade. Chama-se Bróder, primeiro longa-metragem de Jeferson De que, ao retratar os laços de afeto que únem três amigos do Capão Redondo, periferia da Zona Sul Paulistana demonstra que, mesmo que cada um tenha seguido o seu destino, ainda há a força, a lealdade e amor de ser brother, irmão, mano; há a força da periferia urbana, há a força que não abandona quem é Bróder. O filme, previsto para estreia nacional em Março de 2011, é um belo retrato que as dificuldades sócio-econômicas da periferia em meio à pobreza, à violência, ao narcotráfico, não corrompe quem ama a família, quem ama o amigo, quem ama a comunidade. A periferia tem muito mais a acrescentar porque lá vivem pessoas que tem valor. Merecidamente, o longa-metragem foi aclamado no último Festival de Gramado onde ganhou três prêmios: melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Caio Blat). Jeferson De como Cineasta tem o diferencial de dirigir o que ele viveu e o que ele conhece como um jovem que cresceu na periferia e conseguiu estudar Cinema na USP, logo é fascinante, principalmente para quem nasceu na Capital, reconhecer o trabalho de câmera em planos que enfocam desde as ruelas do Capão Redondo, até imagens que se referem à Marginal Pinheiros, ao Centro, à Avenida Faria Lima, às linhas de ônibus e mêtro da Zona Sul, etc. São Paulo merece um belo filme como Bróder, e o Capão Redondo toma a cena como um novo personagem no Cinema Nacional.







Narrado em 24 horas, o longa-metragem é construído a partir do encontro de 3 amigos, cada um vivendo sua distinta realidade. Macu (Caio Blat, formidável) é o jovem que permaneceu no bairro e está envolvido com os bandidos locais. Com apenas 23 anos, entra na bobeira de participar de um sequestro mas, na fase do planejamento do crime, ele é surpreendido com uma festa de aniversário surpresa na qual reencontra os amigos que saíram do Capão: Jaiminho (Jonathan Haagensen), emergente jogador de futebol, e com uma relação mal resolvida com a irmã de Macu, e Pibe (Silvio Guindane), um jovem casado com a ex de Macu e que tem passado por dificuldades financeiras como novo chefe de família. Complementam o excelente elenco, Dona Sônia (Cássia Kiss, excelente), mãe de Macu e uma mulher simples, de admirável fibra. Ailton Graça como padrastro de Macu, Zezé Motta como amiga de Dona Sônia e mãe de um dos marginais do bairro, entre outros muito bem preparados pela competência de Sergio Penna.






A escolha e preparação de elenco é muito acertada. De atores conhecidos a atores locais, o elenco entrega uma atuação pautada na simplicidade e veracidade e a sinergia é ótima porque há uma espontaneidade na interpretação, de entrega àquela performance que não está ali isolada mas representa a comunidade de tantas mulheres, homens e crianças que vivem no Capão Redondo. Não a toa que eles conviveram com os moradores locais, vivenciaram suas mais diversas realidades. Cassia Kiss entrega mais um trabalho digno de palmas, de um cuidado materno admirável, uma guerreira da periferia. O grande destaque da atuação é Caio Blat, ganhador do Kikito de melhor ator em Gramado; ele comprova mais uma vez ser um ator camaleão, que se renova a cada papel, e definitivamente um dos talentos que sabe atuar em Cinema. Para este papel, ele é um branco de identidade afro. Ele se reconhece 'Eu sou negão', iniciativa bem controversa previamente prevista para o protagonista Macu ( de Macunaíma, um heroi fundado nas raízes da nação), tal que o público possa refletir sobre a identidade Brasileira, lembrando que o Brasil é um país de multidiversidade étnica; então fica a reflexão para o público sobre o pertencimento do seu eu, sua identidade. O roteiro de Newton Cannito e Jeferson De não isola a realidade dos fatos mesmo que, com eles, venham os tipos humanos já estereotipados do entorno social: o jogador de futebol recem endinheirado, adornado com corrente, brinco e relógio caros, o pai de família fracassado, sem dinheiro e com dívidas, a jovem de gravidez indesejada, o marido alcoolatra em recuperação, o jovem carismático com pinta de maladro e amargurado pela vida, o empresário do jogador de futebol, o elitista comprador de entorpecedentes, a mãe solteira que trabalha na noite, o marginal metido a valentão, o chefão do crime, a mãe lutadora, o pastor e a evangélica, a benzedeira, o policial preconceituoso, etc. Todos estão lá, cada um com sua participação para a big picture da película e suas relações , além disso o roteiro se atenta em trazer alguns elementos referenciais recorrentes e noticiados em manchetes como: assassinatos na comunidade, preconceito racial em blitz e incêndios em ônibus públicos.







Selecionado para a Mostra do Festival de Berlim ao lado de Besouro de Daniel Tikhomiroff,
Bróder é um filme que todo Brasileiro deve assistir e é uma conquista para a comunidade afro pois Jeferson De é um cineasta Brasileiro negro que saiu da periferia e está sendo reconhecido como um emergente e promissor diretor no Cinema Nacional. Em um país no qual mais de 50% é afrodescendente, ainda há um preconceito étnico velado, há exclusão social e há vários artistas que vivem na periferia e esperam por uma oportunidade e reconhecimento profissionais, isso é motivo de orgulho nacional. Também o cineasta se torna uma inspiração a tantos outros jovens de comunidades carentes, inspiração a todos por ingressar no ainda fechado círculo profissional do Cinema. Muito do sucesso de Bróder está no ótimo trabalho de Jeferson De que lança um olhar realista, intimista, bem humorado e levemente dramático em uma narrativa que foge do padrão de películas que abordam só a sanguinária violência da periferia. De fato, a violência não é a base do filme. O argumento valoriza a família, o abraço do Bróder, o 'tamo junto na área'. Na simplicidade da fita, esta a mensagem emotiva que dá o valor inestimável ao público. Com isso, o longa consegue cativar de forma muito mais atemporal do que as 24 horas da narrativa no qual os 3 amigos se encontram. Não fica de fora o respeito à madrinha, a benção aos pais, o amor da juventude, o samba de mesa, o futebol e a feijoada com cerveja. São momentos únicos que de imediato fazem referência àquela vida simples de ter vivido na periferia, de estar com os amigos e a família, de esquecer que a realidade poderia ser menos hostil. Além disso, Bróder tem um tom nostalgista principalmente para quem cresceu na periferia paulistana, usando o elemento musical que foi produzida por João Marcelo Boscoli. Da excelente trilha sonora com clássicos de Jorge Ben Jor a Racionais MC, há espaço para o samba raiz, para o samba rock, o rap. Por conta de todos estes elementos, das 24 horas da narrativa e do exemplar trabalho do jovem Jeferson De, Bróder é um filme tocante, e que deveria estrear o quanto antes possível, ainda em 2010. É um filme para contemplar Macu, Jaiminho e Pibe, o destino de vida de cada um, a amizade que nutrem uns pelo outros. Quem é Bróder sempre será Bróder!


Confira Fotos do Flickr de Sergio Penna - preparação de atores Bróder
e
Vídeo







Avaliação MaDame Lumière


Título original: Bróder
Origem: Brasil
Gênero: Drama
Duração: 92 min
Diretor(a): Jeferson De
Roteirista(s): Newton Cannito e Jeferson De
Elenco: Caio Blat , Jonathan Haagensen , Sílvio Guindane , Cássia Kiss , Aílton Graça, etc

3 comentários:

  1. fiquei ainda mais curioso em assistir, já tinha lido coisas interessantes á respeito, bacana saber mais do diretor, sem contar no ótimo elenco!

    esperando a estreia nos cinemas...

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  2. Só março de 2011? Que pena! Fiquei curiosa desde da consagração que teve em Gramado, parece bom.

    Beijos! ;)

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  3. Este filme tem gerado excelentes comentários, como o seu, por onde passa. Quero muito assistir!

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