terça-feira, 19 de maio de 2015

O desejo da minha alma ( Hitono Nozomino Yorokobiyo) - 2014


 
"Sou grato e muito feliz por esta oportunidade de compartilhar nossos corações usando a nossa linguagem universal chamada Cinema. 
Espero, do fundo do meu coração, que o público brasileiro possa amar este filme" ( Masakazu  Sugita - diretor)




Por Cristiane Costa
 


 
O Cinema Japonês moderno, especificamente o contextualizado em dramas familiares como o na linha de Hirokazu Koreeda,   tem um DNA muito claro: histórias simples e humanizadas com emoções profundas e uma competente direção que enfoca muito mais no poder da imagem do Cinema. Ela recorre a produzir narrativas mais silenciosas capazes de demonstrar sentimentos verdadeiros e a exigir mais dos atores.
 


Com o lançamento "O desejo da minha alma", o primeiro longa-metragem de Masakazu Sugita, o cineasta surge como um jovem talento que captura bem esse tradicional diferencial do Cinema Japonês. Reconhecido com menção especial na Mostra Generation do Festival de Berlim 2014, o longa é um drama sobre perda, tristeza e esperança. Sugita realiza um filme singelo, cativante e minimalista com um núcleo familiar que se desfaz após uma tragédia, um forte terremoto no Japão que deixou duas crianças orfãs, Haruna e seu irmão Shota. Apesar do amor e generosidade dos tios e da possibilidade de um novo lar ao lado deles, os irmãos sofrem da perda irreparável dos pais. 
 
 
 
 
 
A atriz Ayane Ohmori (Haruna), experiente na TV e Cinema responde por boa parte do efeito dramático em cena. "Este é um papel muito difícil, mas por favor deixe-me tentar este desafio”.
 
 
 
 
 
O desejo da minha alma é comovente através de sutilezas que interagem de uma forma coesa, sensível e realista. Traz elementos que fazem parte da história do Japão e, também, entrega uma história universal, que pode caber na vida de pessoas que vivenciaram ou acompanharam tragédias familiares ou perdas abruptas de entes queridos. Começando pela escolha por um drama baseado em uma tragédia natural: um terremoto. O Japão tem um histórico de terremotos e outras catástrofes da natureza, portanto, trazer esses episódios que tanto marcaram a memória do país é uma escolha que dialoga com o Cinema Japonês e sua História. O diretor, que nasceu na década de 80, presenciou direta e indiretamente dois terremotos: o de Hanshin em 1995 e o do Leste do Japão em 2011. Esses acontecimentos ficam na memória das pessoas e são difíceis de encarar, dessa forma, o Cinema é um território narrativo que permite que esses sentimentos sejam expressos na Tela Grande, que emoções sejam revisitadas e algumas respostas encontradas. Diante dessas lembranças, o diretor  optou por elaborar esse roteiro.



Como maior das sutilezas, está o elenco - mirim. Ayane Ohmori e Riku Ohishi, respectivamente Haruna e Shota, são bastante competentes para expressar sentimentos com pouquíssimas palavras. O filme é muito bem lapidado por silêncios que são expressos através de crianças, logo elas são a alma e o coração do filme. Por ter uma personagem mais velha e que compreende melhor a falta dos pais, Ohmori tem uma responsabilidade moral de cuidar do irmão e lhe cai boa parte da função dramatúrgica da perda. A falta dos pais e a responsabilidade de irmã mais velha lhe causa um profundo peso  que a atriz catalisa em gestos e olhares angustiantes, melancólicos. Por outro lado, Riku Ohishi tem uma dramaturgia bem diferente. Ele é o símbolo da ternura, da inocência e da esperança. Sua ingenuidade e alegria iluminam cenas que poderiam ter um peso trágico muito maior, afinal, ele é tão jovem, orfão e não entende o que está acontecendo, porém o grande mérito de sua atuação é que seu sorriso traz esperança e alivia a dor. Ao olhar Shota, em especial, a tragédia se dissolve no tempo transcorrido da narrativa e o futuro incerto pode ser positivo com uma nova geração de japoneses que serão os responsáveis por continuar a construir o país, que precisam ser um símbolo de otimismo e superação.
 
 
 
 
 
"Eu encontrei “Shota”, Riku Ohishi, em um teste. Ele tinha um
sorriso inocente no seu rosto quando nos conhecemos. Ele
foi muito gentil e não tinha medo das pessoas" (
Masakazu  Sugita - diretor)
 
 
 
 
 
Essa combinação de Ohmori - Ohishi apoiados por uma excelente direção de Masakazu Sugita é um dos principais pilares de O Desejo da minha alma. É interessante notar que alguns cineastas japoneses contemporâneos continuam trabalhando muito bem com atores mirim. Koreeda em Pais e Filhos também realiza uma excelente direção de atores. Aqui, Sugita dá um espaço muito maior às crianças como protagonistas e fazem delas a razão de ser do longa. Seu filme depende muito do desempenho das crianças. Grande parte da atuação delas é realizada como uma resposta silenciosa em uma das mais ruidosas das perdas humanas: a dos pais. Isso exige maturidade, uma maturidade que crianças ainda não têm mas que Ohmori e Ohishi dão conta de preencher a tela com espontaneidade. As crianças são uma das representações mais poderosas e genuínas de honestidade, sendo que, sem elas, o filme não teria o mesmo êxito. Sugita as coloca em situações como conviver com tios adotivos e um primo ciumento, a necessidade de continuar indo à escola, a negação da morte, a solidão e a perda de direção etc e cria espaços narrativos com forte apelo à observação da dor alheia. Naturalmente, o público é convidado a ter empatia pelas crianças. Em um mundo que sofre de catástrofes naturais como a que ocorreu recentemente em Nepal , com tragédias abruptas que tiram o chão de diversas famílias, esse longa tem uma belíssima história universal.

 
 
Além do elenco-mirim, outra essencial sutileza na construção da narrativa é o uso de música de Shingo Inaoka, amigo de infância do diretor. De forte apelo emocional, a música é uma das forças e personagens e é muito usada em várias cenas, o que pode parecer um exagero, mas não é. Sem essas características da música, suave, delicada e melancólica, o filme perderia parte de sua sensibilidade e cairia em uma atmosfera tão solitária, silenciosa e entendiante que seria mais desafiador para o público se emocionar, mesmo com o esforço dos atores. O desejo da minha alma é o tipo de filme que é "lido e sentido" com música, em sintonia com a emoção do drama. Essa música foi composta por piano improvisado e  pode ser comparada a uma canção de ninar que é tocada para fazer as crianças relaxar e dormir, que as prepara para um novo dia. Ainda que a tristeza tome conta e seja difícil superar a dor, a música de Inaoka tem uma melodia que também é triste, mas acalma e traz paz. Ao escutá-la, vem à mente  ideias de que é preciso passar pelo sofrimento, de que tudo vai passar e dias melhores virão a essas crianças.

 
 
Igualmente importante é a fotografia de Yoshio Kitagawa, também companheiro de faculdade de Sugita, principalmente porque o diretor seleciona várias locações de um pais que  sobrevive após a tragédia. São lugares próximos à natureza, em áreas residenciais com uma ambientação cotidiana. As filmagens incluem locações como o mar, a estrada, a ferrovia, ruas e cooperam para criar um espaço e tempo de reflexão à medida  que o cineasta enquadra cenas que mostram esse tempo transcorrido da narrativa. Ao observar, sob o ponto de vista de uma criança, a estrada de ferro ou a rodovia que passa diante de seus olhos, o tempo é sentido, o vazio e a ausência, também. São essas cenas que ajudam a nos colocar no lugar das crianças, sozinhas e perdidas, entregues a um destino incerto, a uma nova vida para a qual precisam encontrar um caminho.
 
 
 
 
Eu apreciarei se puderem assistir ao filme escutando a voz do coração das crianças. Espero que este filme atinja o coração de cada um, não como a história de alguém distante, mas sim como uma história que poderia acontecer com qualquer um a qualquer momento da vida. 
( Masakazu  Sugita - diretor)
 
 
 
 

O desejo de minha alma é um Cinema independente contado a partir da simplicidade de despertar sentimentos, de nos fazer entrar em contato com o coração das personagens. Para apreciar a companhia do filme, o público tem que criar empatia pelas crianças sem impor barreiras ao forte apelo emocional do longa. Se há uma faca de dois gumes na intenção de Sugita, ela está em ter criado um filme sentimental. Para alguns mais céticos, tal escolha pode soar apelativa. Para outros, esse é um belo filme sobre perdas. Não há dúvidas de que todo o trabalho de direção de atores é feito para deixar as crianças se expressarem diante da câmera, e nos fazer testemunhar isso com tempo para estabelecer conexão com vários sentimentos deles. Por muitos momentos, olhar para Haruna e Shota é passar por uma experiência dolorosa de lembrar de perdas de familiares e amigos e voltar a ser criança sem saber o que fazer, sem sentir-se feliz e esperançoso mesmo com um abraço de uma tia que tenta nos confortar. A perda passa por inconformismos e por silêncios necessários, por um tempo para reconstruir o nosso eu afetado pela ausência sob a qual não temos controle, por voltar a ser criança pedindo por um colo caloroso, afetuoso. A perda passa pelo desejo constante da alma saudosa pela presença de entes queridos, pelo desejo de que eles estejam conosco a nos dar força e esperança. Um desejo que nem a morte pode tocar.






Ficha técnica do filme:

EQUIPE E ELENCO
Direção e Roteiro: Masakazu Sugita
Produtor: Yasuhiro Miyoshi, Masakazu Sugita, Yuko Miyoshi
Produtor Associado: Mihoko Mizohata
Assistente de Direção: Yurugu Matsumoto
Fotografia: Yoshio Kitagawa
Gaffer: Keijiro Akiyama
Direção de Arte: Takashi Uyama
Maquiagem e Figurino: Natsuko Iwahashi
Montagem: Ryo Hayano
Som: Shinsuke Nagashima
Efeitos Sonoros: Mizuki Ito
Música: Shingo Inaoka
Correção de Cor: Ryota Kobayashi
Elenco: Ayane Ohmori, Riku Ohishi, Naoko Yoshimoto,
Koichiro Nishi, Shumpei Ohba, Kyosuke Watanabe, Ritsuko
Kohno, Hiroshi Araki
Produção: 344 Productions
Distribuição Nacional: Supo Mungam Films
INFORMAÇÕES TÉCNICAS
Título Original: Hitono Nozomino Yorokobiyo
País: Japão
Ano: 2014
Duração: 85 min.
Classificação Indicativa: Não recomendado para menores
de 12 anos
Colorido Cópia DCP e Digital


Um comentário:

  1. Belíssimo filme. Me tocou profundamente. Assim, como a sua crítica. Grata.

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