terça-feira, 12 de maio de 2015

A vida privada dos hipopótamos ( I touched all your stuff ) - 2015





Por Cristiane Costa


Espera-se que um bom documentário seja o resultado de 3 pilares que, conjuntamente, se articulam, estabelecem coesão na narrativa documental e sustentam a sua qualidade  : uma história capaz de despertar a curiosidade, e boa o suficiente para se diferenciar de outros filmes; um competente trabalho de pesquisa, considerando as dificuldades e os desafios de encontrar material para a investigação e uma excelente construção narrativa que concilie direção, ritmo, storytelling,  inovação ou criatividade na linguagem cinematográfica e, principalmente, uma primorosa montagem. A vida privada dos hipopótamos,  dirigido por Maíra Bühler e Matias Mariani e que estreou em 07 de maio, se destaca por apresentar esses 3 pilares bem estruturados e uma história peculiar sobre um americano preso no Brasil, o técnico em informática Christopher Kirk ("Goose"), que se envolveu amorosamente com V, uma misteriosa mulher que conheceu na Colômbia. Kirk se muda para o país após se interessar pelos hipopótamos de Pablo Escobar. Em 2009, ele foi preso por tráfico internacional de drogas. 




Christopher Kirk: O "Pinóquio americano"

 

A vida privada dos hipopótamos  é um documentário com excelente base investigativa a partir de um homem que tem uma natureza obscura, portanto há um esforço claro dos diretores em mapear quem é Kirk, sua história com V e os relatos de sua trajetória. Através de acesso irrestrito ao HD do americano, depoimentos pessoais e de amigos nos é oferecida a experiência de analisar quem é esse "Pinóquio".  Kirk é gentil e eloquente como normalmente pessoas manipuladoras e mentirosas costuma ser. V é manipuladora e sedutora. Estamos em um território com um relacionamento com muitas incógnitas e uma paixão instável e arrebatadora. Esse caso amoroso não é explorado com tantas evidências como imagens íntimas do casal porque ele, por si só, é um mistério. V é um ponto de interrogação. Kirk, também. Resta-nos ficar curiosos e observar a visão caleidoscópica que os diretores proporcionam ao público.



O longa reúne mistério, suspense e uma boa dose de humor. O que facilita muito esse resultado é o seu personagem real, que é entrevistado na prisão e tem um perfil de homem comum. Kirk parece aqueles homens que são boas pessoas e ingênuos e flexíveis até certo ponto, enquanto desejam ser, mas que também dão espaço para despertar a intuição de que são impostores, manipuladores. Sendo  um homem que busca experiências reais, Kirk sai da cidade de Olympia (USA) e da sua vida aparentemente sem graça e vai para a América do Sul com esse gosto pela aventura e pelo novo. Nas suas aparições no longa, ele é simpático, divertido e um excelente contador de histórias, por consequência, seus relatos criam vida na tela grande e atiçam a curiosidade a respeito de sua história obsessiva por V, uma mulher que não mostra o rosto em hipótese alguma. Esse mistério em torno dela vai criando espaços no documentário para que o público a imagine. Quem é essa mulher? Por que ela o deixou tão obcecado e, ao mesmo tempo, vulnerável? Mais adiante, é possível afirmar que V e Kirk se atraíram porque carregavam esse espírito de liberdade, movidos a aceitação de novas experiências e, se necessário, uso de suas próprias máscaras existenciais e ideias fantasiosas sobre a paixão.




Quem é V?


É essa capacidade do documentário extrair uma história real e que abre espaço a dúvidas sobre quem é Kirk que mantém os nossos olhos e ouvidos atentos. O filme é naturalmente intrigante e peculiar. A direção teve acesso a emails, chats e fotografias e vídeos de Kirk, criando uma linguagem muito própria e realista e uma montagem excepcional. Os registros virtuais com a excelente contação de histórias dele cooperam para uma informação comprobatória do caso amoroso. Ao colocar Kirk como um narrador de sua obsessão afetiva, é o ponto de vista dele que domina boa parte do longa, por outro lado, será que ele é confiável? Temos acesso a tudo o que aconteceu entre ele e V ou ele está realizando o recorte biográfico que lhe é melhor conveniente? 


Como Kirk é um bom falante, em vários momentos ele demonstra ser um homem que fala muito sobre sua experiência, mas também tem facilidade para se afastar de uma intimidade com o espectador. É um personagem real estranho, que nos aproxima dele e nos afasta. Ele cria uma cortina que, ora se abre para o espetáculo narrativo com muita naturalidade, ora se fecha e impõe limites de sua contação de história. Esse aspecto dual de sua personalidade é bastante interessante e um dos pontos altos desse documentário , afinal, ele foi preso como traficante, soube trilhar o caminho do mal e tem atração por outros prazeres que o tirem de uma vida ordinária e entediante. Ainda que tenha errado por ter sido levado ao crime, Kirk tem aquele comportamento honesto que não podemos julgar: ele não queria o tédio. Não tem essa personalidade da mesmice e do comodismo. Ele precisava viajar e conhecer uma vida fora dos USA. Ter tido a possibilidade de ter uma aventura ao lado de uma mulher bonita em um país exótico foi sedutor e intenso. Como um hipopótamo submerso na água, oculto e perigoso, Kirk também poderia ter agradado a Pablo Escobar.






 Ficha técnica do filme: 

TÍTULO ORIGINAL: A Vida Privada dos Hipopótamos
(I Touched All Your Stuff  La vida privada de los hipopótamos)
DURAÇÃO: 91min 09seg
GENERO: Documentário
LOCAL DE FILMAGEM: Brasil e EUA
FORMATO DE FILMAGEM: HD
SOM: Dolby Digital
IDIOMA ORIGINAL: Inglês e Espanhol
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 12 anos
Sinopse:
Christopher é um americano preso no Brasil: seu crime está escondido em um HD entregue a equipe do filme. Sua história envolve uma misteriosa colombiana chamada V. e os hipopótamos de Pablo Escobar.
Festivais e Prêmios:
FIDMarseille 2014 – FRANÇA
Festival Rio de 2014 (Prêmio de Melhor Montagem) - BRASIL
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – BRASIL
IDM 2014 - CANADA
Panorama Internacional - Coisa de Cinema - BRASIL
Cine Ceará (Prêmio da Crítica de Melhor Longa Metragem; Prêmio de Melhor Edição) – BRASIL
Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano - CUBA
Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira 2014 (Prêmio dos Cineclubes) - PORTUGAL
Festival First Look 2015 - Museum of the Moving Image - New York – EUA
EQUIPE
Direção: Maíra Bühler e Matias Mariani
Roteiro: Matias Mariani e Maíra Bühler
Montagem: Luisa Marques
Produção: Matias Mariani
Produção Executiva: Luis Dreyfuss e Marília Alvarez Melo
Dir.Fotografia: Pedro Eliezer e Basil Shadid
Som direto: Juliano Zoppi, Matt Sheldon, Nikolas Drankoski, Brett Mcdonald
Edição de Som/Mixagem: Beto Ferraz

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