quarta-feira, 20 de maio de 2015

Miss Julie ( 2014)



Drama adaptado da peça de August Strindberg, "Miss Julie" 
estreia no circuito comercial em 21 de Maio



Por Cristiane Costa



Após dirigir os filmes Infiel (2010) e Confissões Privadas (1996), Liv Ullmann adapta para o Cinema a peça de August Strindberg, Miss Julie, um drama de luta de classes sociais que envolve paixão, sedução e caos entre Julie (Jessica Chastain), a bela e instável filha de um aristocrata do Condado de Fermanagh, e John (Colin Farrell), o empregado de seu pai e noivo da submissa cozinheira Kathleen (Samantha Morton). Ambientada no verão de 1890, em um intenso jogo psicológico de sedução entre amantes de níveis sociais diferentes, o filme é uma jornada rumo a fortes emoções e dramáticos conflitos, com destaque para a atuação desse competente elenco, que é o grande responsável por elevar a qualidade do filme e amenizar os pontos fracos do roteiro adaptado.





Colin Farrell e Jessica Chastain em sinérgica e dramática atuação



Miss Julie impressiona no começo ao empoderar uma protagonista complexa, solitária e órfã de mãe que , sendo uma mulher isolada da sociedade por jardins, portas e muros que a separam de um cotidiano mais alegre, ela tem tempo para impor sua autoridade aos empregados, incitar discussões desnecessárias e seduzir John com sua beleza. Miss Julie age como uma figura feminina de personalidade forte, desejável e inalcançável, e ao mesmo tempo, a protegida filha de um aristocrata anglo-irlandês a quem todos devem servir e mimar.   Jessica Chastain chega a mise en scène com uma poderosa atuação e coloca mais densidade à personagem com sua naturalidade e maturidade. Já de cara , ela é a estrela do filme que tem uma impressionante segurança  no palco cinematográfico, que aprofunda a psicologia de  Miss Julie e a leva a uma espiral de sexo, paixão, desespero e destruição. É  responsável por garantir os altos e baixos emocionais da personagem, enfrentar as oscilações de humores,  atitudes e sentimentos hostis de John,  ampliar as mudanças no arco dramático a um alto nível de interpretação que resultam em demonstrar como Miss Julie é outra pessoa na profundidade, uma mulher impregnada de solidão, descontrole psicológico e baixa autoestima.





Sedução, atração e rejeição entre uma aristocrata  e um empregado



Na outra ponta do jogo sedutor está Colin Farrell  com uma excelente habilidade teatral, entrega ao personagem e boa química com Chastain. Ele carrega muito bem o peso de expor emoções e comportamentos dúbios nos principais diálogos e monólogos de reviravoltas e de intensa carga dramática. Seu John é um homem pobre e ambicioso que conseguiu subir um pouco na vida e, agora, trabalha como valete para o pai de Julie. Para ele, ora cumprir essa função é ser grato por ter saído da extrema pobreza, ora é uma situação social que não lhe é suficiente. Seu personagem é   cheio de mágoas e ranços de conflitos de lutas de classes, age com mentiras e contradições , portanto, Colin Farrell  é essencial para assegurar acordes dramáticos complexos em conjunto com Jessica Chastain, em especial nos momentos nos quais os dois são como  gladiadores em uma arena.  Sua atuação é tão importante para esse drama social que ele traz a agressividade e confusão necessárias para desestabilizar os outros e gerar várias cenas de impacto dramático.




Samantha Morton, autocontrole, fé e submissão


Para fechar o elenco com as honras devidas, Samantha Morton, uma das melhores atrizes em papéis coadjuvante. Ela é daquelas que, quando entram em uma cena, eleva a dramaticidade a um nível de excelência e profissionalismo. Sua personagem Kathleen é o arquétipo da moral, dos bons costumes e da submissão cristãs, porém isso não é encenado como um clichê pois Samantha Morton é uma atriz excepcional com uma seriedade e autoconfiança bastante recorrentes. Ela é a que dá um toque dramático que faz a diferença com um bom texto e catalisa emoções verdadeiras. Mesmo que, de maneira escancarada, ela testemunha a traição do noivo, ainda assim, ela traz o elemento social do empregado que respeita os patrões e que tem a fé e o compromisso. É uma mulher trágica, não pela baixa posição social, mas por presenciar a falta de lealdade e caráter de John. Com isso, os três atores estão em um triângulo amoroso que não é desenvolvido para intensificar o erotismo e o prazer libidinoso. Pelo contrário, o componente do sexo  é extremamente trágico e doloroso nesse longa.





 Diálogos e monólogos intensos e levados à exaustão


Miss Julie é o tipo de filme que coloca uma responsabilidade maior no elenco. Primeiro, por ser uma adaptação teatral. Segundo, por não dar muita movimentação de cena para os atores e manter-se fiel à peça. Para dar um exemplo,  em boa parte do tempo, as conversas entre John e Miss Julie ocorrem na cozinha. A cozinha é o espaço principal permitido para que outros empregados não vejam os amantes juntos. No mais, o filme tem como alicerce os intensos diálogos e monólogos.  Se os atores não atuam bem, o filme é um desastre. Felizmente, o elenco está coeso e eficiente. Michelle Williams, inicialmente cotada para o papel de Miss Julie não fez falta. Jessica Chastain está hipnotizante em cena e a fotografia de Mikhail Krichman ressalta sua beleza e expressões dramáticas em vários enquadramentos, contribuindo para a força visual da personagem. Como Liv Ullmann tem experiência com teatro e foi a musa de Bergman, um cineasta que trabalhou com peças e atores do teatro, ela pode realizar uma boa direção de atores.



Como nem tudo que reluz é ouro,  adaptações teatrais para o Cinema abrem espaço para lacunas na narrativa. Miss Julie tem gaps de extensão do roteiro, perde parte de seu timing dramático e se torna cansativo a partir de determinada virada. Com duração de  129 minutos, o longa começa muito bem e, em aproximadamente 60% da projeção, o roteiro começa a se arrastar e se prolonga exaustivamente. O que era sedutor e com o apelo do flerte vai caindo em uma tragédia social e caos individual, esse é o desenvolvimento. Esse gap  não tira o mérito da obra e é compreensível se avaliado sob a perspectiva das dificuldades e desafios de adaptação de uma peça teatral de Strindberg, um autor que, como seus contemporâneos, lidou com uma realidade no qual o indivíduo atravessava uma série de transições na sociedade que influenciavam  sua forma de ser, pensar e agir. Por outro lado, esse gap acaba sendo incômodo à medida que Miss Julie e John não se entendem, os diálogos se tornam cheios ranços sociais e conflitos existenciais que dão voltas sem qualquer mútua solução. É uma situação aprisionante para Julie e John. Como se trata de um instável e direto conflito entre os amantes, cara a cara e com a influência do jogo teatral, o espectador se vê preso a acompanhar os diálogos  e monólogos até o fim e sofrer seus efeitos caóticos.




Caos existencial


O caos entre Miss Julie e John dá o tom da atmosfera da peça de Strindberg, que enfoca um período turbulento das fronteiras entre classes sociais, e de como cada um em sua posição sofre dos males de uma sociedade aristocrática que começa a ruir. Liv Ullmann quis capturar esse drama e consegue fazê-lo com bastante audácia e competência. A fotografia, direção de arte e de atores encaixam-se bem no reduzido espaço cenográfico e exploram a movimentação do elenco. No mais, Miss Julie não é uma história sobre sedução entre uma aristocrata e um valete; pensar apenas com essa visão é pensar pequeno. Miss Julie é uma história agonizante sobre os conflitos individuais que emergem de um contexto fragilizado de diferentes hierarquias sociais.  Julie e John são personagens trágicos que estão presos à essa sociedade que não dá plena liberdade ao indivíduo e sua felicidade. É um drama moderno que tem a sua força no caos.






Ficha técnica do filme ImDB Miss Julie

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