quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Casamento de Rachel (Rachel getting married) - 2008


Esta semana, ou eu estou perseguindo o diretor Jonatham Demme ou ele está me perseguindo. Após lhes sugerir o filme Philadélphia, uma das obras de grande maestria deste diretor, acabei assistindo o Casamento de Rachel, último filme de Jonatham sem nem mesmo me dar conta de que há um tipo de destino na vida de qualquer cinéfilo e o cinema conspira ao nosso favor. O filme é estrelado pela jovem atriz, sempre emergente, Anne Hathaway, em uma madura e ótima atuação na qual ela é uma dependente química (Kym) que retorna da clínica de reabilitação para casa e encontra sua família durante os preparativos do casamento de sua irmã Rachel (
a bela Rosemary DeWitt em brillhante atuação). A partir daí, há um desenrolar de discussões familiares, tipicamente aqueles dramas e conflitos interpressoais travados nas entrelinhas ou não e que são praticamente lavados e centrifugados nesta produção cinematográfica a qual considero muito autêntica e sincera.

Se você faz parte daquele público que odeia filmes de discussão de relação com as crises familiares, afetos e desafetos, esqueça o Casamento de Rachel e vá curtir um tipo de lua de mel cinematográfica com outro filme. Jonatham Demme que, inclusive, dirigiu magnificamente também a obra prima O silêncio dos inocentes e o chocante Sob o Domínio do Mal é um diretor que gosta de confrontar-nos com a verdade, pura e crua ainda que ele deixe que julguemos a situação, no mínimo, nos faça pensar um pouco nas relações e os dramas que estão por trás antes de qualquer embate social. Neste filme, a princípio, chama à atenção a forma como ele o dirigiu, ou seja, uma câmera cheia de realismo nos enfoques, ele a segurou na mão e entrou no campo de batalha familiar. Desta forma, ele dá uma dramaticidade maior no registro, um mergulho no sentimento dos personagens e, consequentemente, eu me senti bem íntima da família de Kym, fiquei agoniada com as discussões movidas por tanta sinceridade e pensando que as melhores famílias têm seus traumas quase insuperáveis mas que no final, superamos estar dentro dela, com nossos erros e acertos.


Jonatham Demme - campeão em filmes que agonizam nossa alma.


Durante o Casamento de Rachel e, até mesmo depois, percebo que é um filme complexo para assistir, não somente pelo enredo pautado em crises familiares e diálogos espontaneamente guardados que vêm à tona ou prestes a vir à tona gerando uma tensão psicológica e a típica "lavagem de roupa suja ", mas pelo que ele exige daqueles que estão abertos a refletir sobre o drama da família, principalmente os nossos próprios, logo o filme tem uma densidade que incomoda mesmo que não se aprofunde intensamente nas ações, algo bem a la Demme. É um filme estranhamente antagônico, pois ele consegue ser estático por conta de não haver grandes reviravoltas, mas ao mesmo tempo ele é ativo por conta dos diálogos, das questões mal resolvidas da própria trajetória desta família.



Kym, assumida viciada em drogas desde muito jovem, faz tratamento há anos para libertar-se deste passado negro de dependência e, bem interpretada por
Anne Hathaway, ela aparece no filme como uma viciada pós longa reabilitação ainda tateando como lidar com as pessoas e como as pessoas lidam com ela, mesmo com todos os marasmos do passado que quase destruíram a família, ela retorna à casa do pai (Bill Irwin) e segue fazendo as devidas reparações (reparação é um dos passos dos 12 passos de regeneração de um dependente químico). O que foge do convecional e, nisto, eu gostei do filme é que Kym não aparece loucamente drogada ou sem qualquer falta de "normalidade" para se fazer ser, no mínimo, ouvida. Ela está "limpa" ainda que batalhando por tal reabilitação que será sempre constante, então é digno de respeito a voz dada por Anne com a representação de um viciado que pensa e sente e não só vegeta ao usar drogas.

Tal fato está mais evidente no início do filme, no qual fica claro que ela argumenta, confronta e quer ter passos próprios. Aquela agressividade mais espontânea , ainda que contida, de uma pessoa com forte personalidade e que é adicto e/ou potencialmente adicto a qualquer tipo de dependência é sublimada em Kym, logo no início do filme, quando ela praticamente aparece para a família tendo que lidar com esta fase e, é interessante notar que, para quem já passou por algum tipo de medicação psiquiátrica e/ou dependência química, por um distúrbio temporário ou intermitente, se identificará muito ou pouco com Kym. Eu fui uma delas.
Embora não tenha um histórico como o dela e nem sou dependente, já tive um momento depressivo motivado por uma grande perda familiar e, lembro-me que ninguém me compreendia totalmente na ocasião inclusive familiares, mesmo que eles fossem preciosos para mim e eu estava certa que eles zelavam por mim. Esta incompreensão ocorre porque no fundo ninguém nunca entende o que se passa com quem está muito mal; é melhor fingir que nada está acontecendo e superproteger (como o pai de Kym) ou não dar muita chance a nós para gritar, espernear, chorar da forma que queremos.

Kym tem um comportamento questionador e expansivo de dizer o que sente e o que pensa ainda que o mundo pareça ter estado sempre contra ela, principalmente quando ela retorna da reabilitação e tem que lidar com os conflitos mal resolvidos. A irmã Rachel se rebela em algumas ocasiões porque não aguenta mais viver o problema e a vida da irmã (fora aqueles ciúmes típicos entre irmãos), além de lamentar que a irmã tenha saído da reabilitação justamene às vésperas do casamento dela, o pai é super protetor de Kym e é o homem que foge dos embates para manter a harmonia familiar, aquele famoso cara que "joga a sujeira embaixo do tapete se for preciso", a mãe (intepretada por
Debra Winger) já é o contrário, se mostra uma mulher distante, uma potencial bomba relógio que não transmite nenhum tipo de carisma tanto que em uma das cenas mais dramáticas, ela agrediu Kym a deixando com o olho roxo e, Kym, rebateu o tapa o que supõe que o descontrole emocional de Kym parece ter sido herdado de uma mãe também pavio curto.


Esta cena me incomodou bastante porque no fundo, ambas são mãe e filha e têm questões mal resolvidas pelo fato do irmão caçula de Kym e Rachel (Ethan) ter morrido enquanto Kym dirigia um carro totalmente drogada. Kym acaba sendo agredida pela mãe ao perguntar à ela o porquê ter confiado os cuidados de Ethan à uma filha que ela sabia bem que era uma descontrolada viciada. Esta perda faz com que os ânimos se exaltem negativamente em cenas-chave do filme, dentre as quais, esta briga entre ambas é uma das mais marcantes, indo na contra-mão da paz necessária ao casamento de Rachel.



Meu sentimento sobre o filme parte de dois pontos de vista: Eu como cinéfila que recebo a ação e olho para mim mesma e minha relação com a minha família e, eu me sensibilizando como se fosse Kym., que é a personagem central da história e a que precisa construir um novo mundo a partir do não-vício:

O primeiro é muito simples porque, como toda ainda sólida família, eu sei o valor da minha e sei que, quando sofremos, a família é a que oferecerá a mão assim como Kym encontrou apoio na irmã Rachel e no pai, mesmo após as crises do filme. Graças a Deus, eu tenho uma família, não é perfeita e uns são mais família para mim que os outros, mas como toda matilha, um defende o outro se for preciso. As discussões de relações existem sempre, assim como também são omitidas e, no fundo, nos acostumamos a não discutir determinadas situações para não haver mágoas, tanto que o filme chega a um ponto que algumas perguntas ficam sem resposta, evitando desta forma qualquer novo stress. O mesmo ocorre aqui e, acredito que é bom estar do lado de fora observando a família de Kym porque os conflitos entre irmãos e pais existem muito mais do que imaginamos. Há dias que nos amamos, há dias que somos estranhos e parece que nos ignoramos, há dias que queremos ser abraçados e outros dias que queremos ficar distantes, mas no final, a família sente como Rachel : ora com raiva, ora com compaixão e
quer o mesmo que ela: lavar a roupa suja e depois passá-la e deixá-la bem alinhada, como toda família deve ser. Por isso, a atuação de Rosemary DeWitt é excelente e fundamental neste drama e me faz lembrar que, ainda que eu me irrite com alguma situação familiar, ainda tenho um espírito piedoso e esperançoso de que a família é uma benção e supera dificuldades e diferenças.

O segundo é mais complexo porque não sou Kym e nunca passei por uma dor como a dela, não se perdoando pela morte de um irmão e tentando voltar a ser uma pessoa que ela nem chegou a conhecer pois vivia dopada , no entanto tive outras dores, igualmente louváveis para serem dores e apertarem o peito a sufocar-me e sempre é doloroso enfrentar a família em discussões caóticas, enfrentar qualquer pendência em relacionamentos interpressoais e sair disso sem ser ferida ou mal compreendida. Isso exige muito da gente, principalmente paciência, tolerância, perdão, amor e uma boa dose de comunicação clara. E digo: Entendo Kym e isso fica evidente em um dos diálogos mais interessantes no qual ela discute com a família após decidir reparar os erros com todo mundo em pleno ensaio do casamento da irmã, o que deixa Rachel muito nervosa começando a briga verbal e mais uma sessão lavanderia. Obviamente, eu não o faria como Kym, pedir desculpas a todo mundo em uma hora inconveniente que invade a serenidade esperada pela irmã, mas no exposto abaixo eu concordo.




Kym: Sabe, vocês precisam mesmo se purificar (se dirigindo à família dela). Vocês realmente deviam ir ao Narcóticos Anônimos ou algo assim. Madrasta de Kym: Não, Kym, deixa disse meu bem. Oh, meu Deus. Nós tivemos na Narcóticos Anônimos, voce sabe... Rachel: Espere um segundo, pessoal. Quer dizer, a sua família? As pessoas neste quarto? (com ironia) Kym: Sim, todas as pessoas que vivem neste pequeno mundo de julgamento, paranóia e desconfiança. Posso sentir isso o tempo todo. É como uma frágil marca de ingratidão ou ausência de reparação, é como estar na porra de julgamento das Bruxas de Salem. Eu devia usar de novo. Eu devia.Pai de Kym: Nem comece... Madrasta: Espere, espere...Kym, Kym, olhe para mim. Ninguém pode te fazer sentir de jeito algum, a menos que você deixe. Ponto final. Rachel: Obrigada, Carol. Mas vocês são minha família. Quero dizer me fizeram sentir uma merda mil vezes num dia.


Este diálogo é de uma sinceridade inigualável, principalmente na última frase que é a de Kym, confirmando que a família te salva, mas por amor, por correção e/ou, principalmente, por incompreensão dela, ela pode te fazer o contrário ainda que não tenha o propósito de te fazer o contrário. Entende? É necessário ser forte e tolerante ao discutir relações familiares e extrair algo positivo delas, lembrando que o verdadeiro amor da família não é dizer sempre o SIM, é também dizer NÃO, dizer a verdade mesmo que dóa, para nosso próprio bem. E ainda que nos sintamos incompreendidos, como eu mesma já me senti algumas vezes, no final percebo que ainda são as pessoas que mais me entendem ou estão mais propensas a simplesmente ser e estar. E o ser e estar é o que vale a pena.

Avaliação Madame Lumière



Título Original: Rachel Getting Married
Origem: Estados Unidos
Gênero(s): Drama
Duração: 114 min
Diretor(a): Jenny Lumet
Roteirista(s): James Gray, Ric Menello
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Mather Zickel, Bill Irwin, Anna Deavere Smith, Anisa George, Tunde Adebimpe, Debra Winger, Jerome Le Page¹, Beau Sia, Dorian Missick, Kyrah Julian, Carol-Jean Lewis¹, Herreast Harrison, Gonzales Joseph

2 comentários:

  1. Perfeita essa resenha madame. Francamente, achei uma das melhores que li de sua parte e sobre esse filme. Um grande filme de Demme que na minha opinião se coloca logo atrás de Philadelphia em termos de ressonância e impacto.
    Anne Hathaway está ótima, mas para mim a melhor atuação no filme é de Bill Irwin. O comedimento e o gestual de sua atuação são qualquer coisa de fora de série.
    Filmaço.Como de hábito eles povoam o madame Lumière.

    Bjs Cris, digo madame! rsrs

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  2. Obrigada Reinaldo! Muito fofo ouvir isso. Demme é Demme e, concordo que o gestual de Bill Irwin é brilhante, quando as palavras se calam, o ator é testado e ele foi ótimo, principalmente aquela cena na cozinha após ver o pratinho de Ethan.

    Beijado, Mr. Glioche!

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