segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gran Torino ( 2008 )


Sou defensora e me ajusto fielmente ao lema "Quem vê cara não vê coração" e acredito que as pessoas que fazem "menos média" são normalmente as mais autênticas e as mais mal interpretadas pelo simples fato de ser quem elas são em um mundo afundado na hipocrisia e na intolerância. Elas são como heróis solitários cuja maior presença é ter uma essência verdadeira por trás de uma capa também verdadeira e, como muitos de nós, precisam de um pouco de fé, resignação e amor por mais valentes que sejam.



Por este motivo, Clint Eastwood no papel do durão Walt Kowalski, um senhor idoso veterano da Guerra da Coréia é um daqueles personagens tão marcantes e tão belamente sem máscaras que o cinema exalta e que me cativam; por causa de Eastwood Gran Torino brilha como ver a própria imagem do cinema de Clint ludicamente reluzindo na lataria deste clássico automotivo da Ford. Entre máscaras que são vestidas diariamente na sociedade, soa sublime ver a performance de Kowalski como um espinhoso homem que vive sozinho, após o falecimento da esposa, em um bairro cheio de imigrantes orientais e que fala tudo o que pensa e como pensa, de forma ácida, cortante e objetiva, sem qualquer medo, sem qualquer embromação, sem se deixar enganar por ninguém, nem mesmo pela família desinteressada e fingida.



Gran Torino é o novo filme de Clint Eastwood que, além de protagonizá-lo, assina a direção assim como o fez com o renomado Menina de Ouro. Walt Kowalski tem um Gran Torino 1972 , raro, maravilhoso e sob sua impetuosa vigilância. Até que um dia, o jovem vizinho asiático Tao Lor (Bee Vang) tenta roubá-lo após ser pressionado a entrar na gangue de seu violento primo e, sem sucesso, é confrontado pela fúria de Kowalski que evita o roubo e o expulsa a tiros. Mais tarde, Kowalski acaba desenvolvendo uma empatia pela irmã de Tao Lor, Sue Lor (Ahney Her), uma simpática garota, corajosa e inteligente. Eles se tornam amigos e, Kowalski, que vivia isolado como um cão anti-social, conhece a família Lor, se socializando bem mais e mostrando que tem um coração de carne e não de pedra. A mãe de Tao e Sue acaba pedindo para Tao trabalhar para Kowalski como forma de honrar a família Lor, após a vergonha da tentativa de roubo. O experiente veterano, ainda que relutante, acaba aceitando a oferta e, desde então, ele e Tao se tornam mais próximos. Tao aprende uma miscelânea de atividades domésticas, desde arrumar o telhado de uma casa, consertar a torneira, lavar um carro, etc; com isso, ele amadurece como homem e, em um cenário de baixa perspectiva e auto-estima dos imigrantes, Kowalski também o ajuda a se colocar no mercado de trabalho, lhe conseguindo um emprego em uma obra.



Neste filme, que tem como um dos pilares a questão da intolerância racial, a tensão realçada se refere ao fato de Tao ser perseguido pela gangue de seu primo, que não o perdoa por ele não ter roubado o Gran Torino, além de ser líder de um bando de marginais que precisam exercer seu poder para mostrar que são homens que assustam e devem ser temidos. O que eles não contavam é encontrar Kowalski sem nenhum temor e que, agora, está próximo à família Lor. Há um clima de perseguição à Tor balanceado pela proteção de Kowalski que, ironicamente, se humaniza mesmo com as memórias devastadoras de um veterano de guerra que se culpa por matar e se torna anestesiado perante a violência, como se isso fosse algo normal, ser agressivo, reagir e nunca temer; logo estas nuances me fazem refletir sobre a questão da discriminação racial, da marginalidade e da pressão que jovens imigrantes como Tor sofrem, mas também me faz pensar, pelo outro lado, que Kowalski começa a se perdoar, tendo mais fé na vida e mais tolerância, a partir desta espécie de "amizade paterna" que tem por Tor. Ele acaba se tornando menos durão, menos azedo, mais humano, mais Kowalski.



Embora Gran Torino renda uma longa resenha, o que gostaria de ressaltar, em linhas gerais, é que a performance de Clint Eastwood é magnífica porque ele consegue ser bom e ser mal, ser engraçado e ser sério a tal ponto que ri e chorei com Kowalski e me apaixonei pelo filme. Ainda que Kowalski não seja levado à sério pelos próprios filhos, ilustrando com cenas imperdíveis como a velhice pode ser ingrata, mortificante e solitária para os idosos e uma pedra de sapato a filhos ingratos e falsos, Kowalski é um homem corajoso e soube valorizar quem o valorizou, aproveitando a companhia de Tao e Sue como se fosse uma nova família, desenvolvendo esta amizade e lhes mostrando como ele é admirável por trás da casca pesada, além disso ele continuou vivendo normalmente e disfrutando a vida como ela se apresenta mesmo que ele estava doente, vomitando sangue, provavelmente com os dias contados. Já no desfecho, tomado por forte emoção, após a desesperadora violência contra Sue e Tao realizada pela gangue, ele soube racionalizar e chegar à uma decisão estratégica para ajudá-los, mesmo que isso custasse sua vida. Ele foi como um pai em favor dos filhos.




Na minha opinião, no emocionante final do filme, Kowalski alcança a fé e a remissão de sua própria dívida. Ele faz uma troca: ele escolhe não matar marginais e nem morrer naturalmente por uma doença, mas ser morto por algo grandioso, em favor de vidas, ou seja, para que Tao e Sue pudessem viver, assim como Jesus o fez na cruz pela humanidade, o que dá uma bela dimensão espiritual a este desfecho, tão raro e perfeito como um Gran Torino.


Avaliação Madame Lumière


Título Original: Gran Torino
Origem: Estados Unidos
Gênero(s): Drama
Duração: 116 min
Diretor(a): Clint Eastwood
Roteirista(s): Nick Schenck, Dave Johannson
Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch, William Hill, Brooke Chia Thao, Chee Thao, Choua Kue, Scott Eastwood, Xia Soua Chang

2 comentários:

  1. Me arrepiei com sua resenha madame! Não preciso dizer mais nada. Rememorei a experiência de assistir esse que será o número 1 da minha lista de melhores do ano.
    Bjs

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  2. Obrigada Mr. Glioche, eu também me arrepiei com o seu elogio. Para mim, Gran Torino é um dos mais perfeitos do ano. Filmaço! Além de bem protagonizado, há uma sublime moral por trás da história.

    Beijos da Madame!

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