Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O clássico de Jean-Jacques Beineix retorna às telas em uma restauração primorosa trazida pela Pandora Filmes, reafirmando seu status como ícone visual dos anos 80. A nova cópia permite redescobrir a plasticidade vibrante de uma obra que permanece como exemlar fundamental do "Cinema du Look", onde o estilo visual é a própria substância da narrativa, ainda que sua extensão de três horas possa soar longa para sensibilidades contemporâneas.
Embora o rótulo de "erótico" persiga a obra devido à liberdade francesa e à nudez frontal, o filme se revela, na essência, um drama psicológico denso e melancólico. O sexo aqui não busca a sedução ou a tensão; ele é tratado como um elemento cotidiano e desprovido de intensidade, servindo apenas como pano de fundo para a desintegração mental dos protagonistas. Jamais se deve confundir a exposição do corpo com o gênero erótico, pois o que reside sob a pele é um niilismo profundo.
Béatrice Dalle surge bela e radiante, com uma presença magnética que justifica o fascínio imediato que a obra desperta. Entretanto, o comportamento de sua personagem revela-se, em diversas vezes, impulsivo e errático, o que torna a dinâmica do casal difícil de sustentar sob a ótica contemporânea. A insistência de Betty em projetar sucesso sobre um homem que nitidamente prefere o anonimato do fracasso soa datada e prepara o terreno para um desfecho de tragédia visceral e perturbadora.
Se a narrativa por vezes se alonga além do necessário, a direção de arte e a fotografia sustentam o mood do longa com maestria. O uso das cores e a ambientação sensorial criam uma atmosfera que é, de fato, o grande diferencial da obra. É um cinema feito para a retina, onde a composição visual dita o ritmo de uma paixão que se pretende avassaladora, mas que muitas vezes se perde na própria repetição de suas intenções antes de mergulhar em um caos emocional absoluto.
O impacto cultural de Betty Blue é inegável, tendo moldado a estética visual de uma geração, mas sua conclusão amarga levanta questionamentos sobre os limites da obsessão e da patologia. Mesmo que a trama soe anacrônica, o filme sobrevive como um registro histórico de experimentação estética extrema. É um convite para apreciar a forma, entendendo que, por trás do azul vibrante, reside uma história de esgotamento que nem sempre dialoga com o ritmo atual, mas permanece como registro estético marcante.
Imagens. Créditos: Pandora Filmes.



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Cristiane Costa, MaDame Lumière