#CinemaQueer #Paixão #Obsessão #CinemaBrasileiro #lgbtqiapn+

Crítica | Ruas da Glória: No Abismo da Obsessão




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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos



Situado nas entranhas de um Rio de Janeiro noturno e decadente, o longa de Felipe Sholl acompanha a trajetória de Gabriel (Caio Macedo), um professor de literatura mergulhado no luto que se vê subitamente arrebatado por Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa uruguaio que habita o submundo da Glória.



O que começa como um encontro fortuito rapidamente transborda para uma perseguição obsessiva, onde o protagonista abdica de sua racionalidade e rotina para orbitar o universo precário e volátil de seu objeto de desejo. Entre o neon das boates e o asfalto úmido da Lapa, o filme propõe um mergulho na solidão e no vício, tentando tatear os limites entre a paixão e a autodestruição.








Apesar de alguns críticos destacarem a sensibilidade do filme ao retratar o luto e a vulnerabilidade, a tentativa de erigir um organismo pulsante a partir desse território da Glória e da Lapa naufraga justamente por negar ao espaço o protagonismo que sua complexidade exige.



O roteiro reduz Gabriel a uma ingenuidade obsessiva, ignorando sua bagagem intelectual e drenando qualquer densidade psicológica. O luto, que poderia servir como contraponto lírico, é relegado a segundo plano, transformando sua jornada em uma descida ao fundo do poço sem sustentação dramática.



A ideia do diretor, de contar essa história em um Brasil de retrocesso, inicialmente é boa. Porém, a execução focada em um personagem de desenvolvimento plano, que entra em um ritmo caótico de autopunição, acaba minimizando as complexidades da subjetividade, sobretudo na perspectiva do cinema Queer.



Essa escolha tende a afastar o público em vez de aproximar e explorar os sentimentos contraditórios do desejo, da paixão e da solidão. Cria-se um abismo para o personagem, mas também entre a recepção e a obra, e a sensação é de que não queremos afundar junto com Gabriel, porque a toxicidade pela toxicidade levanta uma barreira gigante. O problema não é estar vulnerável, mas sim a vulnerabilidade ser usada como recurso superficial que não será resolvida nem na cama e nem fora dela.



A dinâmica entre o mestre e o sedutor decadente Adriano falha ao tentar emular uma conexão que a dramaturgia não sustenta. As escolhas de direção e decupagem optam por uma sexualização simplista do desejo, recorrendo a cenas explícitas que mais sugerem uma exploração superficial da intimidade do que um erotismo capaz de traduzir subjetividade.








Esse excesso de sexo pelo sexo, somado à gratuidade do consumo de drogas, gera um efeito rebote que aniquila a empatia do espectador. Ainda que a fotografia tenha momentos de beleza e Diva Menner ofereça uma atuação sólida como dona da boate, o conjunto se perde em uma visceralidade vazia.



Se a obsessão já rendeu estudos profundos sobre a alma humana em outros filmes, aqui ela se detém na superfície da repetição e do constrangimento. Ruas da Glória desperdiça seu tempo de projeção sem oferecer uma intenção narrativa clara, resultando em uma obra que não consegue traduzir a dor de seu personagem no potencial transformador do cinema independente.








Imagens. Divulgação do filme.

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