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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Lançado em 1964, O Evangelho Segundo São Mateus ocupa um lugar singular na história do cinema por romper com as convenções das superproduções bíblicas. Pier Paolo Pasolini, um intelectual marxista e ateu, realizou uma versão potente e fiel da vida de Cristo, reconhecida pelo Vaticano como uma das melhores obras cinematográficas já produzidas sobre o tema. Ao se afastar do espetáculo hollywoodiano, o diretor filiou-se ao Neorrealismo Italiano, utilizando uma linguagem despojada para resgatar a essência humana e política do texto sagrado.
A escolha de Enrique Irazoqui, um não ator, para o papel de Jesus, estabelece um Cristo que causa um estranhamento revelador. Longe do verniz romântico e adocicado, este Jesus é severo, impaciente e dotado de uma dureza coerente com sua figura de líder dos pobres e sábio transformador. Embora desprovido do carisma tradicional das telas, o personagem de Irazoqui aproxima-se de uma realidade social digna da herança de Rossellini, apresentando um Messias combativo que não teme o confronto com as estruturas de poder.
A força do filme reside na autenticidade de seu elenco, composto por não atores cujas fisionomias carregam a marca do tempo e do trabalho. O realismo atinge seu ápice nas cenas coletivas de grande aglomeração, como no brutal ataque dos soldados às famílias durante a perseguição a Jesus, e na pureza genuína transmitida pelas crianças em cena. As figuras de Judas e Pedro, igualmente bem selecionadas, ancoram a narrativa em uma humanidade palpável, livre dos artifícios sociais e estéticos do cinema comercial.
Esteticamente, o uso dos cenários áridos de Matera, no sul da Itália, transladou a Palestina para uma geografia de desolação, mas também de verdade. O recurso contínuo do close nos rostos sofridos e rugosos funciona como um registro visual do povo de Deus, das pessoas comuns que seguem a palavra por necessidade e fé, e não por conveniência institucional. Essa escolha de direção é eficaz ao mostrar que o sagrado se manifesta na fisionomia de quem é desprovido de posses, criando um contraponto visual aos que lucram com a religiosidade.
A trilha sonora é um dos elementos mais inovadores da obra, promovendo o que Pasolini chamava de "contaminação" cultural. Ao misturar o rigor de Bach e Mozart com o blues de Odetta e a missa congolesa Missa Luba, o diretor buscou criar uma colisão sensorial que atesta a universalidade do mito de Cristo. Para Pasolini, esse choque de estilos provava que a mensagem cristã é um patrimônio universal, atravessando raças e tempos, tornando a imersão na narrativa bíblica muito mais profunda e atemporal.
Sob essa ótica, a obra transcende o verniz da religiosidade institucional para se tornar um sermão realista, um manifesto visual. O filme não busca a catarse do choro fácil, mas a compreensão do impacto da jornada de Cristo e da crueza de suas palavras em uma sociedade marcada pela traição, ambição e hostilidade. É uma obra de arte verossímil que permanece como um espelho crítico das escolhas impostas pelo sistema e a busca incessante por uma justiça que nasce entre os marginalizados.





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Cristiane Costa, MaDame Lumière