Lançamento de 09 de Abril de 2026
#CinemaBrasileiro #FestivalDeGramado #CriticaDeCinema #NarrativaCoral #FilmeNacional #Violencia #Medo #CicatrizesdeGenero #Afroexistenciais
Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O Cinema Brasileiro demonstra uma coragem revigorante ao descentralizar suas produções do eixo Rio-São Paulo, e Cinco Tipos de Medo, filmado em Cuiabá (MT), é um exemplo dessa ousadia. O diretor e roteirista Bruno Bini mergulha em uma estrutura que é, por definição, um dos maiores desafios da linguagem cinematográfica: a narrativa coral. Ao escolher entrelaçar destinos por meio de uma atmosfera de tensão e violência, a obra busca uma universalidade que tenta dialogar com clássicos do gênero, propondo um mosaico sobre as fragilidades humanas diante do pavor.
Contudo, a estrutura coral é uma faca de dois gumes. Para que o espectador se sinta verdadeiramente imerso, é necessária uma espessura dramática que sustente cada conexão de forma orgânica. Nota-se um esforço de montagem e uma fotografia tecnicamente precisa, mas a engenharia do roteiro por vezes se sobrepõe à naturalidade das relações.
As personagens centrais incluem o advogado Ivan (Rui Ricardo Diaz), a policial Luciana (Bárbara Colen), a jovem Marlene (Bella Campos), Murilo (João Vitor Silva) e o traficante Sapinho (Xamã). Elas parecem conduzidas por uma mecânica de encontros que prioriza o ritmo da edição em detrimento de uma maturação mais densa de suas subjetividades.
No elenco, destacam-se João Vitor Silva, que demonstra um potencial dramático sensível, e Bella Campos, que exibe um processo constante de maturidade em cena. Já Xamã, embora em alta e com presença marcante, surge em um registro que lhe é recorrente; para um artista de seu calibre, talvez seja o momento de desafiá-lo em nuances que fujam do estereótipo do traficante urbano. Com relação a Rui Ricardo Diaz e Bárbara Colen trazem um frescor mais realista considerando suas experiências e maturidade em obras audiovisuais.
O conceito dos "cinco tipos de medo" organiza as trajetórias em torno de fobias cotidianas, mas essa categorização corre o risco de aprisionar a narrativa em uma racionalidade esquemática. Quando a técnica sobressai mais que a fluidez do drama, a conexão emocional pode sofrer interrupções. O filme acerta na estética e na coragem de sua proposta, mas esbarra na dificuldade de conferir uma densidade que torne cada coincidência do destino um evento convincente e visceral. Com este elenco jovem e talentoso, havia espaço para desenvolver mais cada personagem.
Embora tenha vencido quatro Kikitos no 53º Festival de Cinema de Gramado, em 2025: Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Melhor Ator Coadjuvante (Xamã), a narrativa se revela mais uma construção técnica bem-intencionada do que propriamente uma obra de densidade dramatúrgica.
O desfecho busca uma nota de transcendência e esperança, tentando amarrar os fios de uma jornada marcada pela aspereza. É uma escolha de direção que, ao apostar no sentimentalismo para oferecer uma catarse ao espectador, induz uma emoção que parece fabricada, em vez de genuinamente sentida. No saldo final, o longa permanece como um projeto ambicioso que reafirma o fôlego de uma produção regional, mas que, na busca pela forma, esquece-se de que a arte exige, acima de tudo, a presença da alma.
Imagens cedidas para Divulgação por imprensa. Distribuição Downtown filmes.




0 comments:
Caro(a) leitor(a)
Obrigada por seu interesse em comentar no MaDame Lumière. Sua participação é essencial para trocarmos percepções sobre a fascinante Sétima Arte.
Este é um espaço democrático e aberto ao diálogo. Você é livre para elogiar, criticar e compartilhar opiniões sobre cinema e audiovisual.
Não serão aprovados comentários com insultos, difamações, ataques pessoais, linguagem ofensiva, conteúdo racista, obsceno, propagandista ou persecutório, seja à autora ou aos demais leitores.
Discordar faz parte do debate, desde que com respeito. Opiniões diferentes são bem-vindas e enriquecem a conversa.
Saudações cinéfilas
Cristiane Costa, MaDame Lumière